Um homem segura uma criança em Brasília durante o pôr-do-sol de quarta-feira (20); Brasil vive onda de calor.
Adriano Machado/Reuters
O calor extremo deixou de ser um problema de poucos lugares e de poucos dias.
Um levantamento global divulgado nesta segunda-feira (22) na revista científica “Nature Climate Change” calcula que cerca de 1 bilhão de pessoas a mais enfrentam hoje ao menos um dia de calor extremo por ano em comparação com os anos 1970 — e mostra que a parcela da população mundial exposta a essa condição saltou de 16% para 22%.
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O estudo revela uma intensificação que os pesquisadores chamam de “multidimensional”: o calor aperta de dia, à noite e, cada vez mais, nas duas pontas ao mesmo tempo.
E há um detalhe que chama a atenção: as noites mais quentes do ano estão esquentando mais depressa que os dias mais quentes.
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A pesquisa foi conduzida por Rebecca Emerton e colegas do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), no Reino Unido e na Alemanha.
A equipe analisou um banco de dados global de estresse térmico de 1950 a 2024 e comparou a década mais recente (2015–2024) com os anos 1970, ponto a partir do qual os indicadores começaram a subir de forma clara e contínua.
🌡️ ENTENDA: Estresse térmico é a carga líquida de calor que recai sobre o corpo. Ele depende não só da temperatura, mas também de umidade, vento e radiação solar.
Para medi-lo, os cientistas usaram o UTCI, sigla em inglês para Índice Climático Térmico Universal, uma espécie de “sensação térmica” que combina esses fatores e simula como o corpo humano reage ao ambiente.
O índice tem categorias de calor que vão de moderado, a partir de 26 °C, a forte, muito forte e extremo, quando há risco grave à saúde e a ação imediata é necessária.
Um dos principais achados do estudo aparece depois do pôr do sol. Na média global, as dez noites mais quentes de cada ano aqueceram 0,32 °C por década desde os anos 1970, acima do ritmo observado nos dez dias mais quentes, de 0,27 °C por década.
Segundo Emerton, isso ocorre porque a atmosfera, aquecida pela maior concentração de gases de efeito estufa, retém mais calor durante a noite, quando a superfície deveria esfriar.
O aumento da umidade e mudanças na cobertura de nuvens também podem dificultar esse resfriamento.
O problema é que o corpo depende da noite para se recuperar.
“O calor noturno é importante para a saúde humana porque as pessoas dependem de noites mais frescas para ter alívio e se recuperar do calor do dia”, afirmou a pesquisadora ao g1.
Sem essa pausa, o organismo permanece sob estresse térmico por mais tempo.
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Fayaz Aziz/Reuters
O que o estudo aponta para o Brasil
🌎 A América do Sul está entre as regiões onde o calor mais avançou. Em boa parte do continente, incluindo o Brasil, a sensação térmica máxima nos dias mais quentes subiu de 2 °C a 4 °C desde os anos 1970.
À noite, nos mesmos períodos, a mínima percebida aumentou de 1 °C a 3 °C.
O número de dias perigosos também cresceu. No norte da América do Sul, há até 80 dias a mais por ano com calor “muito forte” em relação aos anos 1970.
Em áreas subtropicais, como Sul e Sudeste do Brasil, o estudo identificou até 50 dias a mais por ano com calor de forte a extremo.
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Quando se observa apenas o calor extremo, a ocorrência na América do Sul ficou 2,5 vezes maior do que nos anos 1970, o mesmo fator registrado na Europa, o maior entre os continentes.
Ainda assim, os pesquisadores alertam que os dados podem subestimar a realidade das cidades, onde ilhas de calor urbano elevam ainda mais as temperaturas.
O estudo também analisou eventos compostos: sequências em que um dia de calor forte é seguido por uma noite tropical, sem tempo de recuperação para o corpo.
Esses episódios ficaram mais frequentes, longos e intensos em todos os continentes. Na Europa, eventos de um dia aumentaram 73% desde os anos 1970; sequências de 15 a 30 dias ficaram 3,4 vezes mais comuns; e episódios de até 120 dias quase dobraram.
No norte da África, sequências de 271 a 365 dias ficaram 2,8 vezes mais frequentes.
Mulher se refresca com um leque enquanto caminha pelas ruas de Ronda, na Espanha, um dia antes do início da onda de calor prevista pela agência meteorológica do país.
REUTERS/Jon Nazca
Um bilhão a mais
O salto na exposição combina dois ingredientes: o clima esquentando e a população crescendo.
Para a exposição a pelo menos um dia de calor extremo por ano, o crescimento populacional teve peso maior: respondeu por cerca de 4,5% da alta, enquanto a mudança climática explicou 1,4%.
Ou seja, nesse recorte específico, mais gente passou a viver em locais afetados, além de esses locais também terem ficado mais quentes.
Mas esse dado, segundo Emerton, é a exceção, não a regra.
Para exposições mais prolongadas — como 30 ou 90 dias de calor extremo — e para as categorias de calor forte e muito forte, o avanço puxado pela mudança climática é igual ou maior que o causado pelo crescimento da população.
Em outras palavras: quanto mais severo e duradouro o calor, mais a “digital” do clima aparece.
A escala humana fica clara em outro recorte: nos anos 1970, 55% da população mundial vivia em locais com ao menos 90 dias de calor forte por ano.
Hoje, são 70%. E um relatório do Unicef citado no estudo lembra que cerca de 559 milhões de crianças já estão expostas a alta frequência de ondas de calor — público especialmente vulnerável, porque regula pior a própria temperatura.
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