A recuperação de centenas de corpos dos escombros de edifícios destruídos por ataques israelenses em Gaza durante a guerra que começou há quase três anos reacendeu as preocupações sobre possíveis crimes de guerra, disse o chefe de direitos humanos da ONU nesta terça-feira (15).
Volker Türk afirmou que restos mortais do que pareciam ser famílias inteiras estavam sendo desenterrados em locais destruídos durante ataques israelenses, acrescentando que muitas vítimas eram mulheres e crianças.
“É de partir o coração que os entes queridos daqueles que estão desaparecidos há tanto tempo só agora estejam vendo seus piores temores confirmados”, disse ele em um comunicado.
Segundo Türk, as descobertas reacenderam as preocupações levantadas em um relatório da ONU de 2024, que concluiu que os ataques israelenses contra prédios residenciais e outros locais civis durante as primeiras semanas da guerra podem ter violado o direito internacional humanitário.
O gabinete do primeiro-ministro israelense e o Ministério das Relações Exteriores não responderam imediatamente a um pedido de comentário. Israel rejeitou repetidamente as alegações de que ataca civis deliberadamente e afirma ter agido de acordo com o direito internacional ao combater os militantes do Hamas em Gaza.
O ataque de Israel a Gaza — lançado após a incursão mortal do Hamas em Israel em outubro de 2023 — gerou cerca de 61 milhões de toneladas de destroços e detritos, cuja remoção poderá levar sete anos, segundo as Nações Unidas.
Um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos pôs fim aos combates em grande escala em outubro de 2025, mas não conseguiu impedir os ataques regulares de Israel, já que ambos os lados se acusam mutuamente de violar a trégua.
Destruição generalizada em Gaza
A Defesa Civil Palestina afirma que mais de 630 corpos e restos mortais foram recuperados de sob edifícios destruídos em Gaza desde novembro de 2025.
As autoridades palestinas estimam que mais de 8.000 pessoas ainda estejam soterradas nos escombros.
Türk afirmou temer que os restos mortais recuperados até o momento sejam “apenas a ponta do iceberg”, observando que grandes partes de Gaza foram arrasadas por bombardeios israelenses ou por operações posteriores de demolição e limpeza.
Ele também acusou Israel de continuar a arrasar algumas áreas de Gaza onde suas forças permanecem posicionadas, dizendo que as escavadeiras estavam operando “sem nenhum respeito pelos mortos sob os escombros”.
Os ataques liderados pelo Hamas em 2023 mataram 1.200 pessoas em Israel, enquanto outras 251 foram feitas reféns, de acordo com dados israelenses.
Mais de 73 mil palestinos foram mortos na campanha militar de Israel, segundo as autoridades de saúde de Gaza.
Israel afirma ter feito todos os esforços para evitar baixas civis e que o Hamas usa civis de Gaza como escudos humanos em áreas densamente povoadas, acusação que o Hamas nega.
A chefe de direitos humanos da ONU pediu que investigadores internacionais tenham acesso a todas as partes de Gaza para ajudar a preservar provas, citando processos judiciais em curso que examinam a conduta durante a guerra.
Segundo declaração de Türk, Israel bloqueou a entrada de máquinas pesadas necessárias para remover os escombros.
Francesca Albanese, especialista da ONU para os territórios palestinos, afirmou que as provas devem ser recolhidas e os restos mortais identificados antes do início da limpeza total.
Este mês, a Defesa Civil Palestina informou que 96 corpos e restos mortais foram recuperados em um único local na área de Zeitoun, na Cidade de Gaza, incluindo 58 crianças e 23 mulheres.










