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BC transmitiu cautela e dureza via projeções, apontam analistas


A decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) de cortar os juros em 0,25 ponto percentual, a 14,5% ao ano, já era amplamente esperada pelo mercado. Após o BC (Banco Central) anunciar a calibragem na Selic, os olhos dos investidores se voltaram para os sinais no comunicado do colegiado.

Analistas ouvidos pelo CNN Money destacam como o reajuste nas projeções de inflação, um comentário sobre a extensão do ciclo de corte e a percepção da autoridade monetária sobre a guerra reforçam a mensagem de “serenidade e cautela” pregada na comunicação.

O Copom deixou o futuro da calibração dos juros em aberto, condicionando decisões futuras à evolução do conflito e de seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços, decisão acertada para Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.

O colegiado avaliou que o “período prolongado” de juros elevados está gerando efeitos sobre a desaceleração da atividade econômica, o que garante condições para que sejam feitos ajustes no ritmo do ciclo de cortes.

Além disso, acrescentou que a maneira como foram conduzidos os juros dá espaço também para o Copom definir a “extensão” da calibração da Selic. Este acréscimo chamou atenção dos investidores.

“Na prescrição de política monetária, a mudança relevante de linguagem, o Comitê acrescentou ‘extensão’ ao lado de ‘ritmo’, sinalizando que não só a velocidade, mas também o tamanho total do ciclo pode ser ajustado”, diz Leonardo Costa, economista do ASA.

“Na prática, o BC segue dependente de dados e deve manter o ritmo de 25 pontos por reunião (analisando a deterioração do cenário atual), com a possibilidade de encerrar o ciclo mais cedo do que o mercado espera caso o cenário externo ou a inflação piorem.”

Fernando Machado Gonçalves, superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú, avalia que o BC dá sinais de conforto para continuar cortando a Selic, mas que agora, além de reajustar o ciclo pelo ritmo – o tamanho dos cortes -, pode reavaliar até quando seguirá reduzindo a taxa de juros.

Em seu comunicado, o BC destacou que vai apurar “novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”.

“Em nossa leitura, há espaço para que o ciclo de calibração tenha continuidade, mas a concretização desse movimento depende de forma determinante da duração e da extensão do conflito geopolítico. O Banco Central foi claro ao sinalizar serenidade e cautela, e é com esses parâmetros que os próximos dados devem ser interpretados”, pontua Sung.

Porém, apesar de deixar a possibilidade de novos cortes em aberto, o BC destacou desconfortos com o cenário, ressalta Gonçalves.

Cenário e projeções

As projeções se deterioraram à medida que o conflito no Oriente Médio se estendeu, sobretudo com pressões inflacionárias com o fechamento do Estreito de Ormuz e a disparada do barril de petróleo para patamares acima de US$ 100.

“A indefinição acerca da duração do conflito no Oriente Médio é o principal ponto de incerteza no ambiente externo”, aponta Costa, do ASA.

O BC também reajustou suas expectativas para a inflação, passando a avaliar que os preços vão subir 4,6% em 2026, estourando o teto da meta perseguida pela autoridade monetária.

O Copom também reajustou suas estimativas para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) no horizonte relevante da política monetária – prazo futuro que o colegiado considera ao tomar suas decisões sobre a taxa Selic.

Antes avaliada em 3,3% para o terceiro trimestre de 2027, a inflação no horizonte relevante passou a ser estimada em 3,5% no quarto trimestre de 2027.

Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, aponta que o recado foi hawk – jargão do mercado financeiro para um tom mais duro.

“A dúvida que fica é a altura da barra para junho. Essa altura diminuiu bastante hoje. Cresceu a probabilidade de parada, e o BCB mostra um espaço para cortes ainda menor. Para projeção de Selic, vamos revisar a trajetória de juros para cima. Estamos debatendo, mas dado o nosso cenário macro – de atividade mais forte e desinflação mais complexa – avaliamos que o risco de pausa do ciclo em junho é relevante”, pondera.

A balança de riscos do BC segue equilibrada entre pontos de alta e baixa, o que tende a manter em aberto o espaço para a autarquia cortar juros.

Ainda assim, Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos, observa que “o comunicado traz um tom mais negativo ao destacar os riscos inflacionários, com o petróleo pressionando preços em função do conflito, ainda que esse seja visto como um ajuste pontual”.

A preocupação também é levantada por Sung, da Suno.

“A preocupação não se limita aos efeitos diretos do choque de petróleo, mas se estende aos impactos de segunda ordem sobre os custos de insumos na cadeia de suprimentos global, com potencial de desancoragem das expectativas em horizontes mais longos”, afirma.

Gonçalves ressalta que é “muito relevante” a projeção do horizonte relevante ter sido reajustada, indicando um “desvio razoável” em relação à meta de 3% perseguida pelo BC.

Para a ata do Copom, o especialista do Itaú espera maiores esclarecimentos sobre o que foi dito em relação à extensão do ciclo de cortes.



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