A inflação ao consumidor nos Estados Unidos atingiu 4,2% em maio, o maior índice registrado desde abril de 2023. O principal fator por trás da alta é o conflito no Oriente Médio, que elevou significativamente os custos de energia — responsáveis por 60% da inflação mensal no período de abril a maio.
O resultado coincide com um momento de intensa pressão política interna sobre o presidente americano, Donald Trump, que havia prometido reduzir os preços como principal bandeira de campanha.
A alta no custo de vida derrubou a popularidade do republicano, que enfrenta o que é descrito como a pior crise de imagem doméstica de seu governo, agravada pelo conflito com o Irã.
Sinais cruzados diante da crise
Trump tem adotado posições aparentemente contraditórias em resposta à crise. Ao mesmo tempo em que afirma que os Estados Unidos continuam negociando um acordo com Teerã, ordena novos ataques contra o país.
Para jornalistas na Casa Branca, sinalizou que o mais importante é evitar que o regime iraniano desenvolva uma bomba atômica, independentemente das consequências econômicas. Questionado sobre a alta dos preços, Trump chegou a afirmar que “ama a inflação“.
No campo militar, o CENTCOM (Comando Central dos EUA) anunciou que completou suas operações do dia. Segundo o analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna, esse cenário confirma que os EUA não pretendem escalar o conflito, mas apenas tentar influir sobre as posições do Irã.
“O Irã está com uma dominância estratégica sobre esse conflito”, afirmou Lourival, acrescentando que Trump tenta recuperar a iniciativa sem, no entanto, ter condições legais ou políticas de escalar as ações militares.
Núcleo da inflação e perspectivas para os juros
O diretor-gerente e economista-chefe do IIF (Instituto de Finanças Internacionais), Marcello Estevão, avaliou que, embora o principal impulso inflacionário venha dos preços de energia, o núcleo da inflação — que exclui energia e alimentos — surpreendeu para baixo neste mês.
“Na verdade, se tirar preços de energia e tirar preços de comida, o que a gente chama do núcleo inflacionário, na verdade surpreendeu para baixo esse mês”, explicou. Segundo ele, isso se deve parcialmente à dissipação do efeito das tarifas anteriores.
No entanto, Estevão alertou que o choque nos preços de energia tende a alimentar a inflação futura. A projeção do Instituto de Finanças Internacionais é de que o Fed (Federal Reserve) seja pressionado a aumentar a taxa de juros ainda neste ano, possivelmente em outubro. “Isso tem um impacto no Brasil, lógico”, ressaltou o economista.
Trump “sem saída” para resolver pressão inflacionária
Questionado sobre os próximos passos de Trump diante do cenário econômico adverso, Estevão foi categórico: uma mudança de política relevante seria necessária para influenciar a inflação antes das eleições de meio de mandato em novembro, mas ele não acredita que isso vá acontecer.
“Ele não vai querer parecer fraco”, disse. Para o economista, a saída racional seria fechar um acordo com o Irã que reabrisse o Estreito de Ormuz — fechado pelo Irã segundo anúncio recente —, mas isso equivaleria a “declarar derrota”, algo que Trump não faria.
Lourival Sant’Anna reforçou a análise ao destacar que a classe média americana já está refreando seus gastos, comprando apenas o essencial — alimentos e energia —, o que explica parcialmente o núcleo da inflação mais baixo.
As principais bolsas de valores americanas fecharam em forte queda diante da escalada das tensões e dos possíveis impactos da alta dos preços. Os Estados Unidos entraram no segundo mês consecutivo em que a inflação supera o aumento dos salários, ameaçando o consumo das famílias, considerado o maior motor da economia americana.











