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Quando jogar videogame deixa de ser só diversão?


Pais de adolescentes gamers já se acostumaram com a resposta: “zerei, mas ainda não platinei”. É a desculpa para recusar o convite para sair, deixar a lição para depois e empurrar a hora de dormir. Cenas assim levantam uma pergunta simples: em que momento gostar muito de videogame deixa de ser diversão e passa a exigir atenção?

Jogar, por si só, não é o problema. Para crianças e adolescentes, o videogame também é lazer, é conversa com os amigos e, dependendo do título, até uma forma de aprendizagem. As coisas mudam quando o jogo passa a ocupar o espaço de atividades importantes — e esses jovens perdem a capacidade de simplesmente parar quando deviam.

“O ponto de atenção não é o jogo em si, mas o momento em que ele passa a atrapalhar atividades do dia a dia, como as refeições em família, a rotina escolar, o sono e o convívio social”, afirma a psicóloga e neuropsicóloga Juliana Gois, orientadora educacional de apoio à aprendizagem do Colégio Rio Branco.

Um estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, publicado em agosto de 2026, apontou risco de transtorno de jogo em 3,4% de quem jogou videogame no último mês. Extrapolado para a população brasileira com 14 anos ou mais, isso equivale a cerca de 1,3 milhão de pessoas — número que aponta sinal de alerta, não diagnóstico confirmado.

Essa diferença importa porque o entusiasmo por um jogo, mesmo quando envolve muitas horas de dedicação, não é suficiente para dizer que existe um transtorno. O que interessa é se esse padrão se repete ao longo do tempo e resiste a qualquer tentativa de colocar um limite.

Quais sinais mostram que o jogo está passando do ponto?

Alguns comportamentos indicam que o jogo já passou do ponto. O primeiro é a dificuldade de desligar: insistir em continuar mesmo com a comida esfriando ou o sono batendo, e reagir mal quando pedem para parar. Isolado, não quer dizer nada — o problema é quando vira padrão.

Outro sinal é a mudança na própria rotina. Atividades antes prazerosas — esporte, encontro com amigos, programas de família e até não fazer nada — vão cedendo espaço, aos poucos, sem que ninguém perceba muito bem quando começou. Quanto mais dessas áreas o jogo ocupa, maior o motivo para prestar atenção.

O desempenho escolar também pode ser um sinal — mas a associação entre jogar muito e tirar notas piores não é automática. Tem adolescente que joga horas e segue dando conta de tudo. A preocupação surge quando o jogo fura um compromisso atrás do outro, até deixar de competir com a rotina e passar a comandá-la.

Juliana observa que, às vezes, o jogo tem uma função: alguns adolescentes recorrem a ele para evitar interações sociais, ou como fuga de situações difíceis — bullying, dificuldade de aprendizagem, entre outras. Nesses casos, só cortar o acesso ao videogame, sem entender o motivo por trás, dificilmente resolve o problema.

Na verdade, a solução não está no relógio. Uma tarde inteira jogando pode não ser problema para quem dorme bem, estuda e mantém os amigos por perto; já um período menor preocupa se substitui o que antes fazia parte da rotina. O estudo da UFRGS confirma: os fatores mais associados ao risco foram sintomas depressivos moderados a graves e ansiedade frequente — não o tempo de jogo.

Quais regras para videogame realmente funcionam com os filhos?

Duas mudanças simples já fazem diferença. A primeira é definir as regras antes que a próxima partida comece — não no meio da birra. Horário para jogar, momentos em que a tela fica de lado e compromissos inegociáveis: quando isso já está combinado de antemão, vira rotina, não uma negociação nova todo dia.

Mais do que controlar o tempo, os pais também precisam entender o que o filho está jogando — sem precisar jogar junto. Perguntar como se joga, como funcionam as interações com outros jogadores e se existem compras dentro do jogo já revela riscos que o cronômetro sozinho não revela.

Juliana recomenda também que a família preserve espaços em que o jogo não entre — não para tratá-lo como inimigo, mas para garantir que ele continue sendo uma atividade entre várias outras. Somente regras claras, consistentes e compatíveis com a idade facilitam a percepção de que alguma coisa está saindo do eixo.

É normal que uma mudança de regra gere resistência no início — irritação, negociação, reclamação. A psicóloga lembra que isso, isoladamente, não é diagnóstico de transtorno. Mas a conversa muda quando as reações são muito intensas e persistentes, e vêm acompanhadas de prejuízos que a própria família já não consegue resolver sozinha.

Nesses casos, vale buscar ajuda profissional — psicólogo, pediatra ou a escola ajudam a diferenciar resistência passageira de um sinal mais sério. Juliana explica o motivo: a criança costuma reagir mal porque, antes, já conseguiu o que queria agindo assim. “Se os pais cederem diante da irritação, fica cada vez mais difícil estabelecer qualquer tipo de limite depois”, conclui.



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