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Por José Teixeira
Flávio Bolsonaro chegou a 1,298 milhão de votos no Estado, enquanto candidato do próprio partido ao Governo terminou com 430 mil; Pivetta conquistou 1,128 milhão e diferença entre os resultados abre uma radiografia sobre o comportamento do eleitor mato-grossense
As urnas de Mato Grosso produziram neste domingo (4) uma fotografia eleitoral que vai muito além da vitória de Otaviano Pivetta (Republicanos) no primeiro turno. O cruzamento dos resultados das disputas pelo Governo do Estado e pela Presidência da República mostra que o eleitor mato-grossense não reproduziu, na eleição estadual, o mesmo comportamento registrado na votação presidencial e impôs uma diferença expressiva entre o desempenho de Flávio Bolsonaro e o de Wellington Fagundes, embora ambos tenham disputado pelo PL.
Com 100% das seções totalizadas, Pivetta terminou a eleição estadual com 1.128.099 votos, correspondentes a 60,77% dos votos válidos. Wellington recebeu 430.442 votos e encerrou a disputa com 23,19%. Doutora Natasha (PSD) ficou com 281.548 votos, ou 15,17%. Os números confirmaram a vitória de Pivetta ainda no primeiro turno e colocaram uma diferença de 697.657 votos entre o governador eleito e Wellington.
Mas é quando a votação para governador é colocada ao lado da corrida presidencial que surge um dos aspectos mais relevantes do resultado político de Mato Grosso.
Flávio Bolsonaro recebeu 1.298.581 votos para presidente no Estado, equivalentes a 65,15% dos votos válidos. Wellington, candidato do mesmo PL ao Governo, recebeu apenas 430.442. Isso significa que 868.139 votos separam a votação presidencial de Flávio da votação estadual de Wellington.
Em termos proporcionais, Flávio recebeu aproximadamente três votos em Mato Grosso para cada voto registrado em Wellington. A distância percentual também chama atenção: 65,15% para Flávio na eleição presidencial contra 23,19% para Wellington na estadual, diferença de 41,96 pontos percentuais.
É justamente esse número que impede que a força eleitoral do candidato presidencial do PL seja automaticamente atribuída à candidatura de Wellington. O PL apresentou candidatos aos dois principais cargos em disputa, mas os resultados alcançaram dimensões completamente diferentes.
A comparação com Pivetta torna a fotografia ainda mais clara. O governador eleito recebeu 1.128.099 votos. Foram apenas 170.482 votos a menos que os 1.298.581 conquistados por Flávio. Percentualmente, Pivetta terminou com 60,77% e Flávio com 65,15%, uma distância de somente 4,38 pontos percentuais.

Não significa que os 1,128 milhão de eleitores de Pivetta tenham votado em Flávio. A Justiça Eleitoral não fornece esse tipo de cruzamento porque o voto é secreto. Um eleitor pode votar em candidatos de partidos diferentes para presidente, governador, senador e deputados, e a totalização não permite reconstruir posteriormente essa combinação individual. O próprio sistema oficial do TSE permite consultar a totalização por Estado, município, zona e cargo, mas não vincula os votos dados nos diferentes cargos a um mesmo eleitor.
O que os números demonstram, sem necessidade de qualquer inferência individual, é que a candidatura presidencial do PL alcançou uma massa eleitoral quase três vezes maior que a candidatura estadual do mesmo partido e que, em dimensão eleitoral, o resultado de Flávio ficou muito mais próximo daquele alcançado por Pivetta.
Há outro número que dimensiona essa diferença. Os 868.139 votos que Flávio teve a mais que Wellington representam mais de duas vezes toda a votação obtida pelo próprio Wellington. Já os 170.482 votos que separam Flávio de Pivetta representam apenas cerca de 13% da votação presidencial de Flávio no Estado.
A eleição estadual também mostrou a extensão territorial da vitória de Pivetta. O republicano não dependeu apenas da vantagem construída em uma determinada região de Mato Grosso. A votação se espalhou pelo Estado e permitiu que ele encerrasse o primeiro turno acima dos 60%, enquanto Wellington ficou pouco acima dos 23%. O resultado oficial do TSE confirmou Pivetta eleito com 1.128.099 votos após a totalização de todas as seções.
A análise dos grandes centros eleitorais ajuda a compreender por que o resultado estadual ficou tão distante daquele registrado na eleição presidencial.
Cuiabá, maior colégio eleitoral do Estado, tornou-se um dos exemplos mais claros dessa separação de votos. Na Capital, Pivetta terminou a disputa estadual com 182.428 votos, equivalentes a 54,11% dos votos válidos para governador. Wellington recebeu 70.023 votos, ou 20,77%, enquanto Natasha alcançou 80.126 votos, correspondentes a 23,76%.
Na eleição presidencial, entretanto, Flávio Bolsonaro alcançou 57,69% dos votos válidos em Cuiabá.
A comparação é importante porque mostra que, no maior centro eleitoral de Mato Grosso, o candidato presidencial do PL se aproximou de 58% dos votos, enquanto Wellington, candidato estadual da mesma legenda, ficou pouco acima dos 20%. Ou seja: o desempenho eleitoral do PL na disputa presidencial foi muito superior ao registrado pelo partido na eleição para governador.
O comportamento não ficou restrito à Capital.
Na Grande Cuiabá, os dados divulgados durante a reta final da totalização também mostraram Pivetta e Flávio em patamares próximos e Wellington distante dos dois. Com mais de 96% das seções contabilizadas naquele recorte regional, Flávio aparecia com 56,60% para presidente, Pivetta com 54,91% para governador e Wellington com 21,01%.
Várzea Grande, um dos maiores colégios eleitorais de Mato Grosso, também entrou nessa equação. Durante a totalização, com 96,56% das urnas contabilizadas no recorte municipal divulgado, Pivetta aparecia com 54,15% dos votos válidos para governador.
O município teve ainda uma peculiaridade política durante a campanha. A prefeita Flávia Moretti, filiada ao PL, participou de atos ao lado de Pivetta na reta final da eleição, mesmo com Wellington concorrendo oficialmente ao Governo pelo partido.
Rondonópolis oferece outro ponto importante para a análise porque está diretamente ligada à trajetória política de Wellington Fagundes. Foi no município que ele construiu parcela relevante de sua carreira e onde manteve historicamente uma de suas principais bases eleitorais.
Mesmo ali, a diferença entre a eleição presidencial e estadual permaneceu expressiva. No recorte da região intermediária de Rondonópolis divulgado durante a apuração, Flávio Bolsonaro aparecia com 65,69% dos votos válidos para presidente. Pivetta tinha 54,60% na disputa estadual e Wellington alcançava 30,06%.
Wellington melhorou seu desempenho proporcional em relação aos 23,19% que obteria no conjunto do Estado, mas continuou muito distante da votação presidencial do candidato de seu próprio partido.
Rondonópolis também viveu uma divisão interna do PL durante a campanha. O prefeito Cláudio Ferreira, uma das principais lideranças locais da legenda, declarou apoio a Pivetta. A movimentação tornou o município um dos símbolos da fragmentação política ocorrida dentro do campo partidário estadual. Lembrando que a cidade é a casa do senador Wellington Fagundes.
É no Norte e no Médio Norte, entretanto, que os números ficam ainda mais evidentes.
Em Sinop, um dos maiores centros urbanos e econômicos do interior mato-grossense, Flávio Bolsonaro alcançou 76,66% dos votos válidos para presidente após a totalização das urnas. Trata-se de um percentual muito acima dos 23,19% obtidos por Wellington no conjunto estadual e que evidencia novamente que a preferência presidencial pelo PL não significou adesão equivalente ao candidato da legenda ao Governo.
O fenômeno aparece de forma ainda mais nítida quando se observa o eixo formado por Sorriso, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum e municípios vizinhos, região que concentra parcela importante da produção agropecuária e da atividade econômica de Mato Grosso.
No recorte regional que reuniu Sorriso, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Tapurah, Vera, Nova Ubiratã, Ipiranga do Norte, Itanhangá, Boa Esperança do Norte e Santa Rita do Trivelato, Flávio aparecia com 75,02% dos votos válidos para presidente. Pivetta registrava 76,68% para governador.
Wellington tinha 15,40%.
Nesse conjunto de municípios, portanto, a diferença entre Flávio e Pivetta era inferior a dois pontos percentuais, enquanto Wellington aparecia mais de 60 pontos abaixo do candidato presidencial de seu próprio partido.
É um dos recortes estatísticos mais relevantes da eleição porque mostra que, em uma das regiões economicamente mais importantes de Mato Grosso, o voto presidencial e o voto estadual tiveram comportamentos partidários distintos: o eleitorado concedeu percentuais elevados a Flávio para presidente e a Pivetta para governador, enquanto Wellington ficou muito abaixo dos dois.
Primavera do Leste apresentou comportamento semelhante. No recorte regional divulgado durante a apuração, Flávio Bolsonaro aparecia com 71,63% dos votos válidos para presidente, Pivetta registrava 60,07% para governador e Wellington alcançava 29,15%.
Mesmo onde Wellington conseguiu superar sua média estadual, a distância em relação ao desempenho presidencial do PL continuou elevada.
Paranatinga também ajuda a visualizar o fenômeno. Com 100% das seções contabilizadas, Flávio chegou a 70,9% dos votos presidenciais. Pivetta recebeu 65,78% para governador, enquanto Wellington ficou com 25,82%.
Os diferentes recortes territoriais repetem, portanto, um padrão estatístico semelhante: Flávio alcançou percentuais elevados na disputa presidencial, Pivetta registrou forte desempenho para governador e Wellington permaneceu consideravelmente abaixo do candidato presidencial do PL.
O resultado também pode ser comparado à própria trajetória eleitoral de Wellington.
Quando conquistou uma cadeira no Senado em 2014, Wellington recebeu 646.344 votos. Agora, na tentativa de chegar ao Governo, terminou com 430.442.
São 215.902 votos a menos em números absolutos, redução aproximada de 33,4% em relação à quantidade de votos recebida naquela eleição para o Senado.
A comparação exige cautela porque eleições para senador e governador possuem dinâmicas diferentes e ocorreram com 12 anos de intervalo. Ainda assim, o número ajuda a dimensionar a votação absoluta alcançada pelo candidato em 2026: Wellington chegou à disputa estadual como senador da República e candidato de um partido cujo presidenciável ultrapassou 1,298 milhão de votos em Mato Grosso, mas terminou a eleição para governador abaixo da votação absoluta que havia recebido para o Senado em 2014.
O cenário político que antecedeu a votação também ajuda a contextualizar — sem estabelecer causalidade — por que o desempenho partidário foi tão diferente entre os cargos.
Durante a campanha, lideranças filiadas ao próprio PL manifestaram apoio a Pivetta. O movimento apareceu em cidades eleitoralmente relevantes e evidenciou que a candidatura estadual de Wellington não reuniu de maneira uniforme todas as forças políticas que orbitavam o partido ou o eleitorado de direita em Mato Grosso.
Isso não autoriza dizer que determinado prefeito ou liderança “transferiu” quantidade específica de votos. Mas ajuda a contextualizar um resultado no qual o candidato presidencial do PL alcançou 65,15% dos votos válidos no Estado e o candidato do partido ao Governo ficou em 23,19%.
No fechamento das urnas, a distância numérica é objetiva: Flávio Bolsonaro recebeu 1.298.581 votos; Otaviano Pivetta, 1.128.099; Wellington Fagundes, 430.442.
A diferença entre Flávio e Wellington chegou a 868.139 votos. Entre Flávio e Pivetta, ficou em 170.482.
Percentualmente, Flávio e Pivetta ficaram separados por 4,38 pontos. Flávio e Wellington, por 41,96 pontos.
É essa proporção, mais do que qualquer interpretação isolada, que revela o tamanho do descompasso eleitoral.
O eleitor mato-grossense que escolheu o PL para presidente não necessariamente escolheu o PL para governador. Os dados oficiais não permitem saber individualmente para onde foi cada um desses votos, mas permitem demonstrar que centenas de milhares de votos dados ao candidato presidencial do partido não apareceram na mesma proporção na candidatura de Wellington.
Cuiabá mostrou essa diferença. Rondonópolis também. Sinop repetiu o comportamento. O eixo de Sorriso e Lucas do Rio Verde apresentou uma distância ainda maior. Primavera do Leste e outros municípios seguiram padrão semelhante.
A eleição de 2026 produziu, assim, duas fotografias bastante diferentes do PL em Mato Grosso: uma legenda eleitoralmente muito forte na disputa presidencial e uma candidatura ao Governo que terminou com menos de um quarto dos votos válidos.
Flávio ultrapassou 1,298 milhão de votos. Pivetta passou de 1,128 milhão. Wellington ficou em 430 mil.
Mais do que uma diferença de candidatos, os números mostram que a força eleitoral registrada pelo PL na urna presidencial não se reproduziu na urna estadual.
E essa é a principal mensagem estatística deixada pelo cruzamento dos resultados de Mato Grosso.










