Imagem gerada por IA a partir de documentos oficiais
Sem licitação, secretário de Saúde de MT contrata hospital cliente da esposa
No mesmo dia em que sua nomeação para comandar a Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT) foi publicada, Juliano Silva Melo aparece como representante da pasta na assinatura de um contrato de R$ 359,8 milhões, por inexigibilidade de licitação, com o Instituto São Lucas, responsável pelo Hospital Regional Hilda Strenger Ribeiro, em Nova Mutum, a 242 km de Cuiabá.
O hospital é apresentado publicamente como cliente da Machen Consultoria em Serviços de Engenharia, empresa que tem Michelly Lustri Fabre de Figueiredo, esposa do secretário, como sócia-administradora.
O cruzamento das informações feitas pelo
, coloca, na mesma relação, o secretário responsável pela SES-MT, a empresa administrada por sua esposa e uma instituição privada contratada pela pasta por centenas de milhões de reais. A data de entrada de Michelly Lustri Fabre de Figueiredo como sócia-administradora da Machen consta como 07/10/2025 — não a data de fundação da empresa (15.04.2019).
O Contrato nº 046/2026/SES/MT, decorrente da Inexigibilidade nº 007/2026/SES-MT, foi assinado em 2 de abril de 2026, tem vigência de 24 meses, até 1º de abril de 2028, e valor global de R$ 359.816.348,40.
O extrato publicado no Diário Oficial nº 29.209 identifica expressamente Juliano como representante da SES-MT e Alcione Miguel de Almeida como representante do Instituto São Lucas.
A data chama atenção. A nomeação de Juliano para o comando da SES foi publicada em 2 de abril de 2026, mesma data registrada no contrato milionário com o Instituto São Lucas.
Hospital contratado pela SES é cliente da empresa da esposa
A ligação comercial é divulgada pela própria Machen Consultoria. Em seu site institucional, a empresa apresenta o Hospital Regional Hilda Strenger Ribeiro entre seus cases e informa ter desenvolvido serviços de Saúde e Segurança do Trabalho (SST) para aproximadamente 530 colaboradores da unidade.
A descrição publicada pela consultoria indica uma relação próxima com a instituição. Em depoimento reproduzido no case, o hospital afirma que a presença constante da Machen proporcionou “segurança técnica para a tomada de decisão e apoio contínuo na condução dos processos”. A empresa também é descrita como “muito presente” e tem seus serviços recomendados pela instituição.
A Machen Consultoria em Serviços de Engenharia Ltda., inscrita no CNPJ nº 33.364.692/0001-06, está ativa e tem Michelly Lustri Fabre de Figueiredo como sócia-administradora.
Assim, duas relações se encontram no mesmo contrato: o Hospital Hilda Strenger é apresentado como cliente da empresa administrada pela esposa de Juliano e, simultaneamente, figura como unidade operada pelo Instituto São Lucas no contrato de R$ 359,8 milhões firmado com a secretaria comandada pelo marido.
Contratação de R$ 359,8 milhões ocorreu por inexigibilidade
Outro elemento relevante é a modalidade escolhida para a contratação. O contrato não decorreu de pregão ou concorrência entre diferentes prestadores. O próprio extrato publicado pela SES identifica a Inexigibilidade nº 007/2026/SES-MT como origem da contratação.
A inexigibilidade é uma hipótese de contratação direta prevista na Lei nº 14.133/2021 para situações em que a competição é considerada inviável, desde que atendidos os requisitos legais e apresentada a respectiva fundamentação.
No caso do Instituto São Lucas, a contratação direta alcança R$ 359.816.348,40 por 24 meses.
A modalidade, isoladamente, não significa irregularidade. No entanto, ganha relevância na análise do caso porque a contratação direta foi formalizada pela SES com a instituição cujo hospital é apresentado publicamente como cliente da empresa administrada pela esposa do secretário que representou a pasta na assinatura.
Processo começou em 2025, quando Juliano já estava no alto escalão da SES
O procedimento administrativo que resultou no contrato começou antes de Juliano assumir a titularidade da secretaria. O próprio extrato identifica a contratação como originária do processo SES-PRO-2025/89838, demonstrando que sua tramitação teve início em 2025.
Naquele período, Juliano não era o titular da SES-MT, mas já integrava o alto escalão da Saúde estadual. Servidor de carreira, ocupava o cargo de secretário adjunto de Atenção e Vigilância à Saúde e já havia exercido interinamente o comando da pasta.
Portanto, quando começou a tramitação do processo que posteriormente resultaria no contrato de R$ 359,8 milhões, Juliano já ocupava função de direção dentro da SES-MT.
Em 2 de abril de 2026, com a publicação de sua nomeação para secretário, passou ao comando da pasta e aparece no extrato como representante da SES na contratação.
A cronologia reúne, assim, três momentos: o processo administrativo começou em 2025, quando Juliano já era secretário adjunto; ele assumiu o comando da SES em abril de 2026; e, na mesma data de sua nomeação, foi assinado o contrato por inexigibilidade com o Instituto São Lucas.
Contrato representa quase R$ 15 milhões por mês
O contrato prevê a prestação de serviços ambulatoriais e hospitalares de média e alta complexidade, além de atendimentos de urgência e emergência, durante 24 horas por dia.
Pelo instrumento, o Instituto São Lucas fica responsável pela prestação, operacionalização e gestão desses serviços no Hospital Regional Hilda Strenger Ribeiro.
O valor global de R$ 359.816.348,40, distribuído pelos 24 meses de vigência, corresponde a aproximadamente R$ 14,99 milhões por mês.
Segundo informações divulgadas pela SES-MT, a unidade possui 179 leitos operacionais, dos quais 55 são de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), além da previsão de aproximadamente 1,1 mil cirurgias mensais.
Machen também aparece no LACEN-MT
A atuação da empresa administrada por Michelly em estruturas ligadas à Saúde estadual não se limita ao Hospital Hilda Strenger Ribeiro.
A própria Machen divulga trabalho realizado no Laboratório Central de Saúde Pública de Mato Grosso (LACEN-MT).
Em depoimento publicado pela consultoria, é relatada a realização de auditoria interna, seguida de reflexão sobre práticas adotadas e revisão de documentos norteadores dos setores auditados.
O documento analisado pelo
também relaciona essa atuação ao contexto do Termo de Cooperação nº 130 entre a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e a SES-MT, vigente entre janeiro de 2022 e janeiro de 2027.
Entre os objetivos descritos para o termo estão o aprimoramento do sistema de gestão da qualidade e do controle de processos do LACEN-MT, com reestruturação de processos internos e ações voltadas à acreditação do laboratório. O material reúne tanto a atuação da Machen no LACEN quanto o Hospital Hilda Strenger entre os clientes identificados da consultoria.
Nesse período, Juliano ocupava a Secretaria Adjunta de Atenção e Vigilância à Saúde da SES-MT.
A sequência acrescenta outro ponto à relação entre as atividades públicas do secretário e a atuação privada da empresa de sua esposa: a Machen aparece ligada tanto ao hospital posteriormente contratado pela SES por R$ 359,8 milhões quanto ao LACEN, estrutura da própria Saúde estadual.
Juliano e Michelly aparecem juntos em pesquisa sobre o LACEN
A relação profissional do casal com o ambiente da Saúde estadual também aparece em produção científica relacionada ao LACEN.
Michelly é coautora, ao lado de Juliano Silva Melo, do trabalho “Análise temporal do quantitativo de exames de sorologia recebidos para diagnóstico de dengue no período de 2019 a 2024”.
No artigo, Juliano aparece vinculado à Secretaria Adjunta de Atenção e Vigilância em Saúde da SES-MT, enquanto Michelly é identificada com vínculo acadêmico à Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
A coautoria científica não representa, por si só, qualquer irregularidade. O dado, porém, ajuda a contextualizar a proximidade profissional de ambos com atividades relacionadas ao LACEN, onde a empresa de Michelly também divulga ter realizado trabalho de auditoria interna.
Relações se cruzam dentro da estrutura da Saúde
A sequência documental coloca no centro da apuração uma sobreposição de relações públicas e privadas.
De um lado, Juliano já integrava a cúpula da SES quando começou, em 2025, o processo que resultaria na contratação do Instituto São Lucas. Depois, assumiu o comando da secretaria e aparece como representante da pasta no contrato de R$ 359,8 milhões.
De outro, a empresa administrada por sua esposa apresenta como cliente justamente o hospital operado pela instituição contratada, além de divulgar trabalho realizado no LACEN-MT.
O contrato com o Instituto São Lucas foi formalizado por inexigibilidade de licitação, sem competição entre diferentes fornecedores, conforme hipótese prevista em lei.
Nenhum desses elementos, analisado isoladamente, permite concluir pela existência de ilegalidade. É a combinação deles, porém, que coloca em discussão a existência de um potencial conflito de interesses: o vínculo empresarial da esposa com o hospital, a posição ocupada pelo marido dentro da SES, a contratação direta por R$ 359,8 milhões e a assinatura do instrumento no mesmo dia da publicação de sua nomeação para comandar a pasta.
SES e Machen foram procuradas
O
procurou a SES-MT para esclarecer a participação de Juliano no processo SES-PRO-2025/89838, desde sua abertura em 2025 até a formalização do contrato, e questionou se a secretaria tinha conhecimento da relação comercial entre a Machen Consultoria e o Hospital Regional Hilda Strenger Ribeiro.
A reportagem também perguntou se Juliano comunicou formalmente à administração pública a relação comercial existente entre a empresa administrada por sua esposa e a instituição contratada pela pasta, se houve declaração de impedimento ou potencial conflito de interesses e quais fundamentos justificaram a contratação do Instituto São Lucas por inexigibilidade.
A Machen Consultoria também foi procurada para se manifestar sobre a prestação de serviços ao Hospital Hilda Strenger Ribeiro e sua atuação relacionada ao LACEN-MT.
Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação dos envolvidos.
Diário Oficial Nº 29.209
SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE
COORDENADORIA DE CONTRATOS – CCTR/SES/MT
EXTRATO DO CONTRATO Nº 046/2026/SES/MT – INEXIGIBILIDADE nº 007/2026/SES-MT – SES-PRO-2025/89838.
CONTRATANTE: SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE/SES/MT, representado pelo Secretário JULIANO SILVA MELO.
CONTRATADA: INSTITUTO SÃO LUCAS, representada pela Sra. ALCIONE MIGUEL DE ALMEIDA.
OBJETO: Contratação de serviços de saúde, ambulatoriais e hospitalares, de média e alta complexidade e de urgência e emergência, para Referência Estadual, em regime de 24 horas por dia, do HOSPITAL REGIONAL HILDA STRENGER RIBEIRO / INSTITUTO SÃO LUCAS (CNES 0901725), localizado na Av. Arapongas, S/N, no bairro Jardim Orquídeas, no Município de Nova Mutum/MT, visando garantir a prestação, operacionalização e gestão destes serviços, conforme o perfil da unidade hospitalar na Rede de Atenção à Saúde, obedecendo os princípios constitucionais e normas legais do Sistema Único de Saúde/SUS, garantindo a atenção integral à saúde da população do estado Mato Grosso.
DOTAÇÃO ORÇAMENTÁRIA: Elemento: 3.3.90.39.064; Fontes: 1.600.0000 / 2.600.0000 / 1.500.1002 / 2.500.1002 /1.500.0000/ 2.500.0000 VIGÊNCIA: 24 (vinte e quatro) meses, com início no dia 02/04/2026 e término no dia 01/04/2028.
VALOR TOTAL DO CONTRATO: R$ 359.816.348,40.
DATA DE ASSINATURA: 02/04/2026.
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