Relatório do UNAIDS alerta para risco de ressurgimento da epidemia de HIV no mundo
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Os avanços científicos contra o HIV nunca foram tão promissores, mas o mundo pode estar diante de um novo agravamento da epidemia. É o que alerta o relatório especial “Unidas e Unidos para acabar com a AIDS”, divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro.
Segundo o documento, a combinação entre cortes no financiamento internacional, redução dos serviços comunitários e dificuldades de acesso à prevenção pode comprometer décadas de progresso e provocar um ressurgimento da epidemia global de HIV.
Embora as novas infecções e as mortes relacionadas à AIDS estejam nos menores níveis dos últimos 30 anos, o UNAIDS afirma que a resposta global está fragilizada e que o objetivo de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 corre risco caso não haja retomada da solidariedade internacional e redução das desigualdades.
Em 2025, foram registradas 1,2 milhão de novas infecções por HIV no mundo e 570 mil mortes relacionadas à AIDS.
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Progresso existe, mas é desigual
O relatório mostra que os resultados variam significativamente entre os países.
Enquanto sete países conseguiram reduzir em quase 80% o número de novas infecções desde 2010 e outros 11 atingiram as metas internacionais de tratamento conhecidas como 95-95-95, o avanço desacelerou ou retrocedeu em diversas regiões.
Em 2025:
as novas infecções aumentaram em três regiões do mundo;
21 países registraram crescimento nos casos;
cerca de 22% das 41 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não estavam em tratamento;
quase metade das crianças vivendo com HIV não teve acesso à terapia antirretroviral.
Para o UNAIDS, esses números demonstram que o progresso é possível, mas depende da manutenção dos investimentos e da ampliação do acesso aos serviços.
Ciência avança rumo a uma “revolução” na prevenção
O relatório destaca que o mundo vive um momento considerado histórico no desenvolvimento de medicamentos preventivos contra o HIV.
Segundo o UNAIDS, novas tecnologias oferecem níveis de proteção comparáveis aos de uma vacina.
Entre os avanços estão:
medicamentos injetáveis de aplicação mensal;
medicamentos injetáveis semestrais;
comprimidos de uso mensal que ainda estão em fase avançada de testes.
Apesar desse cenário, a agência afirma que o principal obstáculo continua sendo garantir que essas tecnologias cheguem às pessoas que mais precisam.
A diretora-executiva do UNAIDS, Winnie Byanyima, afirmou que a inovação só terá impacto se houver acesso amplo e preços acessíveis.
“Os avanços científicos estão nos dando ferramentas com as quais as gerações anteriores só podiam sonhar. No entanto, inovação sem acesso não é inovação, é injustiça. O verdadeiro teste do sucesso não é se os medicamentos existem, mas se as pessoas que precisam deles conseguem obtê-los, e a um preço acessível.”
Brasil amplia uso da prevenção, mas enfrenta barreira para novo medicamento
O relatório cita o Brasil entre os países que ampliaram o acesso à prevenção medicamentosa.
Segundo o documento, o país registrou um aumento de 41% no número de pessoas que utilizaram medicamentos preventivos contra o HIV pelo menos uma vez no último ano.
Etiópia e Uganda também ampliaram o acesso utilizando recursos domésticos e outras fontes de financiamento, enquanto a África do Sul negocia preços para as aplicações semestrais de lenacapavir.
No entanto, o UNAIDS destaca que, apesar de ter participado dos ensaios clínicos do lenacapavir, o Brasil não recebeu da fabricante Gilead uma licença voluntária que permita preços mais baixos ou a produção de versões genéricas do medicamento.
Diante desse cenário, o país avalia recorrer ao licenciamento compulsório.
Lenacapavir ainda alcança pequena parcela da população
O relatório considera positiva a iniciativa da UNITAID, do Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária e de outros parceiros para iniciar a implementação do lenacapavir com a meta de alcançar 3 milhões de pessoas até 2028.
Mesmo assim, o UNAIDS afirma que esse número representa apenas uma pequena parte da necessidade mundial.
A estimativa da agência é que 20 milhões de pessoas precisem ter acesso à prevenção baseada em antirretrovirais para que seja possível reduzir de forma significativa as novas infecções.
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Queda histórica do financiamento preocupa ONU
Um dos principais alertas do relatório diz respeito ao financiamento internacional.
Segundo o UNAIDS, a assistência oficial ao desenvolvimento entrou em colapso em 2025.
A ajuda internacional destinada ao desenvolvimento caiu 23%, a maior redução já registrada, afetando especialmente a área da saúde global.
Os recursos internacionais destinados especificamente ao HIV passaram de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025, uma queda de 18% e o menor nível em quase duas décadas.
A situação é especialmente preocupante para países africanos de baixa renda, muitos dos quais dependiam de recursos externos para financiar mais de 90% de suas ações contra a epidemia.
Segundo Winnie Byanyima, os governos precisarão ampliar seus investimentos internos.
“A era de depender da ajuda internacional acabou. Os países não podem esperar e não podem retroceder. O mundo deve corrigir urgentemente o sistema financeiro que já não é mais funcional e acelerar a reestruturação da dívida para que os governos possam investir no que mais importa: a saúde, a educação e o futuro de suas populações.”
Cortes ameaçam serviços comunitários
O relatório mostra que os programas comunitários foram um dos setores mais afetados pelos cortes.
Na África Subsaariana, por exemplo, 80% dos recursos para prevenção vinham de financiamento internacional.
As organizações lideradas pela comunidade chegaram a receber até 25% da assistência internacional destinada ao HIV em 2024 e, em alguns países, alcançaram:
22% das pessoas vivendo com HIV;
até 60% das populações marginalizadas.
Sem novos investimentos, o UNAIDS afirma que esses serviços correm risco de colapso.
Em alguns países, o financiamento para preservativos foi reduzido em mais de 90%.
Um estudo realizado em 2026, envolvendo 47 países, identificou reduções expressivas nos serviços comunitários:
50% nos serviços de apoio à prevenção baseada em medicamentos e ao cuidado do HIV;
85% nos serviços destinados a homens gays e outros homens que fazem sexo com homens;
82% nos serviços voltados para profissionais do sexo;
72% nos serviços para sobreviventes de violência baseada em gênero.
Retrocessos em direitos humanos preocupam
Além da crise financeira, o relatório aponta um aumento da criminalização de populações vulneráveis.
Segundo o UNAIDS, pela primeira vez desde que começou a acompanhar essas tendências, houve crescimento no número de países que criminalizam grupos mais expostos ao HIV.
Em 2025, Burkina Faso e Níger passaram a criminalizar relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo. Em 2026, o Senegal ampliou as penalidades para essas relações.
De acordo com o relatório, atualmente:
168 países criminalizam o trabalho sexual;
152 países criminalizam a posse de pequenas quantidades de drogas;
66 países criminalizam relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo;
14 países criminalizam pessoas trans.
Para Winnie Byanyima, essas medidas dificultam o controle da epidemia.
“Não é possível acabar com a AIDS enquanto se criminalizam as pessoas que vivem com HIV e aquelas mais vulneráveis à infecção. Quando as pessoas têm medo de prisão, violência ou discriminação, elas se afastam dos serviços de HIV. Os direitos humanos não são algo separado da resposta ao HIV; eles são essenciais para o seu sucesso.”
Novas metas para 2030
Apesar dos desafios, o relatório destaca que, em junho de 2026, 149 Estados-Membros adotaram uma nova Declaração Política sobre HIV e AIDS, alinhada à Estratégia Global para a AIDS 2026-2031.
As metas estabelecidas para 2030 incluem:
colocar 40 milhões de pessoas em tratamento;
garantir acesso à prevenção baseada em antirretrovirais para 20 milhões de pessoas;
reduzir para menos de 10% a proporção de pessoas vivendo com HIV ou em risco que sofram estigma e discriminação;
reduzir para menos de 10% a proporção de mulheres, meninas e pessoas vivendo com HIV ou em risco expostas à desigualdade de gênero e violência;
reduzir para menos de 10% o número de países que mantenham legislações e políticas punitivas que limitem o acesso aos serviços de HIV.
Segundo o UNAIDS, o cumprimento integral dessas metas poderá evitar 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes relacionadas à AIDS até 2030.
Ao apresentar o relatório, Winnie Byanyima afirmou que o fim da epidemia ainda é possível, mas depende de decisões tomadas agora.
“Apesar dos enormes desafios, acabar com a AIDS ainda está ao nosso alcance. A escolha diante de nós é nítida: recuar e arriscar um ressurgimento da epidemia, ou repensar, reconstruir e avançar para acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030.”
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