Torcedor morre após passar mal enquanto assistia ao jogo do Brasil
Um torcedor de 60 anos morreu na segunda-feira (29) depois de passar mal enquanto assistia ao jogo entre Brasil e Japão, pela Copa do Mundo. O caso ainda não permite afirmar o que provocou a parada cardiorrespiratória, mas episódios como esse são compatíveis com um fenômeno já documentado pela medicina: partidas de futebol de alta carga emocional podem desencadear infartos, arritmias e outras emergências cardiovasculares em pessoas que já apresentam alguma vulnerabilidade.
A relação entre futebol e eventos cardíacos deixou de ser apenas uma percepção de médicos e torcedores há quase duas décadas. Em um dos estudos mais importantes sobre o tema, publicado no New England Journal of Medicine, pesquisadores acompanharam prospectivamente 4.279 atendimentos de emergência durante a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha.
Nos dias em que a seleção alemã entrava em campo, a incidência de eventos cardiovasculares foi 2,66 vezes maior do que no restante do período analisado. Entre os homens, o aumento chegou a 3,26 vezes.
Mais do que a vitória ou a derrota, o que parece pesar é a intensidade da partida.
Médica socorrista do Samu orientou pessoa que acompanhava torcedor que teve uma parada cardíaca, em Goiânia, durante o jogo do Brasil
Reprodução/ TV Anhanguera
O coração responde como ameaça
Assistir a um jogo decisivo provoca uma resposta fisiológica semelhante à desencadeada por outras situações de forte estresse. O organismo libera adrenalina e outros hormônios que aceleram os batimentos cardíacos, elevam a pressão arterial e aumentam a força de contração do coração.
Em quem não tem doença cardiovascular, essa reação costuma ser transitória e bem tolerada. Já em pessoas com placas de gordura nas artérias, hipertensão, doença coronariana ou predisposição a arritmias, essa sobrecarga pode ser suficiente para precipitar um evento que talvez só acontecesse meses ou anos depois.
O estudo alemão reforça essa hipótese. Entre participantes que já tinham doença coronariana conhecida, o risco de um evento cardiovascular quadruplicou nos dias em que a seleção nacional jogava. Mesmo entre aqueles sem diagnóstico prévio, houve aumento significativo da incidência, embora em menor magnitude.
Os pesquisadores destacam que isso não significa que o futebol “cause” infartos. A emoção atua como um gatilho sobre um organismo que já apresentava alguma condição favorável ao desenvolvimento do problema.
Nem toda partida oferece o mesmo risco
Um dos achados mais interessantes da pesquisa foi que o aumento das emergências praticamente desaparecia quando eram disputados jogos sem a participação da Alemanha.
Isso indica que o componente emocional —a identificação do torcedor com sua equipe, a expectativa pelo resultado e a tensão da disputa— exerce papel mais importante do que o simples fato de estar assistindo a uma partida.
Os maiores picos ocorreram nos confrontos eliminatórios, especialmente na dramática vitória da Alemanha sobre a Argentina nos pênaltis, pelas quartas de final, e na semifinal contra a Itália. Em partidas de menor peso emocional, como o jogo pela disputa do terceiro lugar, o aumento das emergências praticamente desapareceu.
Os autores concluem que o desfecho da partida importa menos do que o nível de estresse vivido durante ela.
Primeiras horas concentram a maior parte das emergências
Outro resultado chamou atenção dos pesquisadores: o número de infartos e arritmias começou a aumentar ainda antes do apito inicial e atingiu seu pico nas duas primeiras horas após o início das partidas. Depois, a incidência permaneceu elevada por algumas horas antes de voltar ao padrão habitual.
Esse comportamento coincide com o tempo necessário para que a descarga hormonal produzida pelo estresse exerça seus efeitos sobre o sistema cardiovascular.
O risco não depende apenas da emoção
Embora o estresse seja considerado o principal gatilho, ele raramente atua sozinho.
Dias de jogos decisivos costumam reunir outros fatores que também aumentam a carga sobre o coração: consumo excessivo de bebidas alcoólicas, refeições muito gordurosas, cigarro, privação de sono e até o esquecimento de medicamentos de uso contínuo.
Os próprios autores do estudo apontam que esses elementos provavelmente contribuem para parte das emergências observadas durante grandes competições esportivas, embora não expliquem, sozinhos, o aumento expressivo registrado nos jogos da seleção alemã.
Quando a emoção deixa de ser normal
Sentir o coração acelerar durante um lance decisivo faz parte da resposta natural do organismo. O que não é esperado é o aparecimento de sintomas persistentes ou intensos.
Dor ou pressão no peito, falta de ar, palpitações prolongadas, suor frio, tontura importante ou perda de consciência durante ou logo após uma partida exigem atendimento médico imediato.
Para pessoas que já tiveram infarto, convivem com insuficiência cardíaca, apresentam doença coronariana ou têm arritmias conhecidas, cardiologistas costumam orientar atenção redobrada em dias de jogos muito estressantes, além da manutenção rigorosa da medicação prescrita.
O estudo alemão termina com uma recomendação semelhante. Diante do aumento consistente das emergências cardiovasculares durante partidas de grande carga emocional, os autores defendem que estratégias de prevenção sejam direcionadas principalmente aos pacientes com doença cardíaca conhecida, grupo em que o impacto do estresse se mostrou mais intenso.
Source link
Morte de torcedor em Goiás: jogos decisivos podem multiplicar risco de infarto e arritmias em pessoas com doença cardíaca











