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Leilão de capacidade vira campo de batalha após ofensiva dos irmãos Batista


A tentativa da Âmbar Energia, braço do grupo J&F dos irmãos Batista, de anular parte do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap) de 2026 abriu uma disputa direta com gigantes do setor elétrico e acendeu um alerta regulatório no país, em meio ao risco de impacto bilionário sobre investimentos e segurança energética.

O certame, realizado em 18 de março, contratou 18,97 GW de potência, com previsão de R$ 64,5 bilhões em investimentos, e terminou com deságio médio de 5,52% em relação aos preços iniciais definidos pelo Ministério de Minas e Energia (MME). Apesar do resultado considerado positivo para as empresas, o processo passou a ser questionado após recursos apresentados pela Âmbar junto à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).

A empresa alega falhas no sistema do leilão que teriam impedido a apresentação de lances estratégicos, tese que foi rejeitada pela área técnica da agência reguladora, que negou provimento aos pedidos. Agora, o caso segue para decisão final da diretoria colegiada.

Confronto no setor

A investida da Âmbar provocou reação imediata de concorrentes e entidades do setor. Em contrarrazões enviadas à Aneel, a Eneva afirmou que a empresa “não entendeu as claras regras” do leilão ao contestar o resultado.

A Abraget (Associação Brasileira de Geradoras Termelétricas) também se posicionou contra o pleito, encaminhando carta formal à Comissão Permanente de Leilões (CPL) em defesa da manutenção do certame. O documento foi aprovado por maioria no conselho da entidade e reforçou o alinhamento do setor com o resultado.

Nos bastidores, o movimento da Âmbar é visto com ceticismo. Fontes do mercado ouvidas pela CNN afirmam que o problema teria sido operacional da própria empresa, e não do sistema do leilão.

Os questionamentos da Âmbar estão alinhados aos recursos apresentados no âmbito do leilão, que também envolveram discussões sobre enquadramento de usinas e participação nos produtos negociados.

Ainda assim, o tema ganhou dimensão institucional. O TCU (Tribunal de Contas da União) incluiu na pauta de julgamento desta semana uma representação do Ministério Público que aponta possíveis “anomalias competitivas” no leilão e pede sua suspensão.

O subprocurador-geral Lucas Furtado também questiona o aumento expressivo do preço-teto que teria chegado a até 80%, e menciona diretamente os recursos da Âmbar, incluindo alegações de reclassificação de usinas sem aviso prévio durante a disputa.

O tribunal decidiu não suspender o certame, mas abriu uma frente de investigação dentro do processo de homologação sobre possíveis irregularidades no certame, incluindo a atuação de empresas classificadas como “geradoras de papel”, que vencem disputas sem capacidade real de executar os projetos.

Risco sistêmico

A possibilidade, ainda que remota, de anulação do leilão gera preocupação generalizada no setor elétrico.

Fontes apontam que um eventual cancelamento poderia travar contratos já firmados, desorganizar a cadeia de suprimentos, já pressionada pela alta demanda por equipamentos, e atrasar a entrada de novas usinas.

O impacto vai além do mercado: o Brasil enfrenta um déficit estrutural de potência, especialmente para atendimento dos picos de demanda. Nesse contexto, qualquer atraso pode elevar o risco de falhas no sistema.

Apesar da ofensiva, a Âmbar saiu do leilão como um dos principais vencedores, com cerca de 2 GW contratados. A movimentação também coincidiu com mudanças na liderança da empresa. O então CEO, Marcelo Zanatta, deixou o cargo após o leilão.

Embora haja relatos de demissão nos bastidores, a versão oficial indica que a saída já estava planejada. O comando passou para Aguinaldo Gomes Ramos Filho, sobrinho de Joesley e Wesley Batista e atual CEO da J&F.



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