“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, foi assim que o escritor italiano Italo Calvino tentou definir essa nossa obsessão por algumas histórias, que seguem sendo contadas décadas, séculos e até mesmo milênios depois de serem escritas.
Shakespeare escreveu “Romeu e Julieta” no final do século XVI, mas o romance entre os jovens de famílias rivais segue como o grande símbolo do amor proibido até hoje. “A Odisseia”, de Homero, foi escrita em VIII a.C. e, mais de dois mil anos depois, o poema épico ganha nova vida com uma adaptação para o cinema.
Mas o que faz com que um livro, uma peça ou um filme continuem relevantes em um mundo que muda cada vez mais rápido?
A escritora chilena Isabel Allende, considerada uma das grandes vozes do realismo mágico latino-americano, acompanha de perto esse processo enquanto seu primeiro livro, “A Casa dos Espíritos”, é adaptado para as telas na minissérie que já está disponível no Prime Video.
Essa não é a primeira vez que o clássico ganha uma versão audiovisual, com um filme norte-americano de mesmo título tendo feito sucesso nos anos 1990. No entanto, é apenas quatro décadas depois do lançamento do livro em 1982, que podemos assistir à história na mesma língua em que ela foi escrita, com diretores chilenos escolhendo como contar a história da família Del Valle.
Em entrevista à CNN Brasil, a escritora Isabel Allende falou sobre como sua obra segue atual, a importância da ficção em tempos de individualismo e relembrou suas visitas ao Brasil e a amizade com Jorge Amado.
“Há temas que nunca saem de moda. As emoções humanas não mudam”, disse ela, sobre as histórias que seguem se reinventando.
“Shakespeare ou os gregos, todos falavam das mesmas paixões: os ciúmes, a inveja, a vingança, o amor, a morte. São os mesmos temas fundamentais da humanidade. E eles são trabalhados de diferentes maneiras, mas continuam sendo os mesmos e são universais. Todas as pessoas sentem isso, em qualquer lugar, com diferenças culturais, mas são as mesmas paixões”, acrescentou.
Embora “A Casa dos Espíritos” tenha sido o primeiro livro publicado pela autora chilena, já traz os temas que marcariam o resto de sua obra até os dias de hoje – mulheres fortes, pais ausentes, relações amorosas, separações, refugiados, imigrantes, marginalizados.
“O sucesso internacional do meu primeiro livro me transformou em escritora, enquanto a maioria dos escritores leva muito tempo para alcançar isso. Eu tive um golpe de sorte, um milagre, de verdade. Isso mudou minha vida”, disse. “Talvez, se eu tivesse escrito só esse livro, já seria suficiente, não sei.”
O papel da ficção
Em um momento da história em que a vida virtual ameaça se sobrepor à vida real, Isabel Allende defende a ficção como ferramenta para lembrar que estamos passando por isso juntos.
“Os jovens de hoje, sobretudo os homens, sentem essa solidão porque não têm conexão humana. Eles têm como amigo um personagem inventado, um avatar de inteligência artificial ou o Facebook. Tudo é virtual. Tudo é digital. Tudo está em uma tela. Mas, quando você precisa realmente de alguém, precisa de alguém que possa segurar a sua mão, de outro ser humano com você. Cedo ou tarde na vida precisamos disso, e é preciso buscar isso”, disse Allende.
“Eu acho que o papel da literatura, da ficção, é nos fazer perceber que nossa experiência pessoal não é única, que já aconteceu a outras pessoas e que seguirá acontecendo. Com algumas diferenças, mas fundamentalmente o mesmo. Então, não nos sentimos tão sozinhos. Estamos conectados”, acrescenta.
Novo “boom” latino-americano
Se hoje “todos querem ser latinos”, como canta Bad Bunny, a literatura teve um grande papel em definir essa identidade que se aplica à um continente quase inteiro. Isabel Allende faz questão de destacar que cada país possui suas peculiaridades, mas também reconhece que há algo que nos une nessa “latinidade”.
“Dentro de cada país há pequenas nações, há diferentes grupos culturais, raciais, indígenas, afro-americanos, que são diferentes aspectos de uma nação. Do mesmo modo, na América Latina. Muitos países formam esta coisa maravilhosa que se chama América Latina, que é muito diversa, mas também temos 500 anos de história em comum”, falou. “Todos passamos por ditaduras, e por caudilhos, e por golpes militares, e por tudo o que nos aconteceu. E como é difícil manter e recuperar uma democracia. Eu acho que todas essas vivências nos fazem latino-americanos. E por isso podemos apresentar ao mundo esse cartão e dizer: nós somos latino-americanos, com toda a diversidade que isso implica.”
Allende destaca que, em sua juventude, se perguntassem “o que você é?”, ela se declarava chilena. Hoje em dia, é muito mais comum ouvir outros jovens se intitulando latinos antes de definir seu país de origem.
Para ela, essa mudança começa com o “boom latino-americano” que ocorreu entre as décadas de 1960 e 1970, quando livros de autores da região começaram a fazer sucesso internacional e os nomes de Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Mario Vargas Llosa e outros foram alçados ao prestígio literário.
“O ‘boom’ foi um coro de vozes, todas masculinas, que contaram a América Latina para o mundo. Era um coro de vozes diversas, mas harmônicas, que disseram ao mundo: estes somos nós. E disseram a nós mesmos: estes somos nós, nós somos latino-americanos”, disse a escritora.
Isabel Allende acredita que estamos passando por um novo “boom”, no cinema, na música, e na literatura — com destaque para as autoras mulheres, que decidem recontar ao mundo o que é a América Latina sob a perspectiva delas.
Morando nos Estados Unidos desde o final dos anos 1980, Allende vê esse fenômeno com ainda mais interesse enquanto as políticas anti-imigração se tornam cada vez mais fortes no país.
“Há uma guerra contra o latino, uma guerra contra os imigrantes latinos, que são os que fazem todo o trabalho neste país”, disse a escritora. “Mas isso não impede que a comida latino-americana, a música latino-americana, o cinema, as séries, a estética latino-americana estejam em toda parte.”
As memórias do Brasil
Isabel Allende também relembrou suas viagens ao Brasil e a amizade com o escritor baiano Jorge Amado, que ela sonhava em conhecer antes de encontrá-lo pela primeira vez em Salvador.
“Lembro que estive na Bahia, na casa de Jorge Amado, e a cidade inteira pertencia a Jorge Amado. Ele era o rei, absolutamente o rei. Isso era precioso. Ir com ele a um restaurante e ver que todo mundo o conhecia”, disse.
“Estive em várias partes do Brasil, na Amazônia também, e sempre houve uma inspiração”, acrescentou. “Muito tempo depois, escrevi uma novela para jovens e a situei no Amazonas. Ou seja, o lugar deixou uma impressão em mim. A paisagem, o cheiro, a água, o verde, tudo isso fica dentro de você, é uma coisa fascinante. Mas é claro que o Brasil é muito mais que isso. O Brasil é também a cidade imensa, Rio, São Paulo. E, além disso, a magia, o candomblé, os orixás. Tudo isso me fascina.”











