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Delcy completa seis meses no poder em meio à maior crise na Venezuela


A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, completa seis meses no poder neste domingo (5) em meio à maior crise de seu governo.

Enquanto enfrenta críticas pela resposta aos terremotos que atingiram o país em 24 de junho, Rodríguez continua contando com o apoio dos Estados Unidos, fator que analistas consideram determinante para a estabilidade do governo e para o futuro político venezuelano.

Rodríguez assumiu formalmente a Presidência interina da Venezuela na noite de 5 de janeiro, dois dias após o então presidente Nicolás Maduro ser capturado em uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos em Caracas e em outras cidades do país. Durante a cerimônia de posse, ela condenou a captura de Maduro e prometeu fazer da Venezuela “uma nação livre, soberana e independente”.

Naquele momento, o país vivia um ambiente de forte polarização. Enquanto parte da população rejeitava a entrada de tropas norte-americanas em território venezuelano para prender Maduro, outros comemoravam sua saída do poder por enxergarem na mudança uma oportunidade para transformações políticas.

Seis meses depois, a tensão voltou a crescer, desta vez em razão da resposta do governo aos fortes terremotos que atingiram a Venezuela em 24 de junho. Até este sábado (4), os tremores haviam deixado 2.954 mortos, mais de 16 mil feridos e mais de 16 mil desabrigados.

Dentro e fora da Venezuela, muitos cidadãos consideram que as autoridades reagiram de forma lenta e insuficiente à tragédia. Rodríguez rejeita essas críticas.

Analistas ouvidos pela CNN afirmam que esta representa a maior prova enfrentada pelo governo interino. Para eles, o desfecho da crise ainda é incerto e dependerá, em grande parte, das decisões dos Estados Unidos, que atualmente exercem forte influência sobre a Venezuela.

“Delcy Rodríguez enfrenta agora o maior teste de sua liderança. Ao mesmo tempo, a indignação pública está aumentando por causa da má gestão e da resposta lenta. Mas, em regimes autoritários, crises como essa frequentemente fortalecem quem está no poder”, afirmou Imdat Oner, pesquisador da Universidade Internacional da Flórida.

Segundo Oner, a presidente interina pode utilizar as medidas de emergência para concentrar ainda mais autoridade, reforçar a segurança e adiar reformas políticas sob o argumento de garantir estabilidade e reconstrução.

Phil Gunson, analista do International Crisis Group, afirmou que, além da resposta imediata ao desastre, o governo enfrentará o desafio da recuperação econômica e da reconstrução das áreas devastadas.

“O desafio imediato é enorme, mas também há o problema da recuperação econômica e da reconstrução da região devastada. Isso exigirá muito dinheiro que o governo não possui”, disse.

Reformas limitadas e aproximação com os EUA

Antes dos terremotos, o governo de Delcy Rodríguez alternava sinais de abertura política com iniciativas voltadas à preservação do controle do poder, segundo o pesquisador venezuelano Carlos Torrealba, do Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade Nacional Autônoma do México.

Entre essas medidas estiveram o anúncio da libertação de um número significativo de presos e, posteriormente, a promoção de uma lei de anistia para pessoas detidas por crimes relacionados a acontecimentos políticos das últimas duas décadas.

Organizações de direitos humanos reconheceram alguns avanços, mas criticaram a lentidão dos processos e o fato de muitos beneficiados continuarem respondendo a acusações, o que permitiria novas detenções.

De acordo com a organização Foro Penal, até 22 de junho havia 373 presos por motivos políticos na Venezuela, sendo 348 homens e 25 mulheres.

Outro aspecto marcante do governo interino foi a aproximação com os Estados Unidos. Após a captura de Maduro, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, apresentou um plano dividido em três etapas para a Venezuela: estabilização, recuperação e transição.

Embora tenha condenado a operação que levou à captura de Maduro, Delcy Rodríguez declarou estar disposta a construir uma nova relação de colaboração e respeito com Washington. O presidente Donald Trump elogiou a presidente interina e destacou a cooperação entre os dois governos.

Essa aproximação se refletiu em diversas iniciativas. A estatal Petróleos da Venezuela (PDVSA) anunciou negociações com os Estados Unidos para a venda de petróleo. Em seguida, a Assembleia Nacional aprovou uma nova lei de hidrocarbonetos, abrindo o setor para investimentos estrangeiros, além de medidas semelhantes para a mineração.

Em fevereiro, Rodríguez recebeu em Caracas o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright. Em março, foi a vez do secretário do Interior, Doug Burgum, visita marcada pelo anúncio da retomada das relações diplomáticas entre os dois países, rompidas desde 2019.

Analistas avaliam que esses movimentos demonstram o forte interesse norte-americano na Venezuela, especialmente na área econômica, e não identificam sinais de mudança dessa postura no curto prazo, apesar das pressões da oposição liderada por María Corina Machado.

Segundo Torrealba, antes dos terremotos alguns opositores viam como um possível avanço rumo à transição política a reunião entre Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e irmão de Delcy Rodríguez, e Dinorah Figuera, ex-presidente da Assembleia Nacional eleita em 2015.

Na avaliação do pesquisador, porém, os terremotos interromperam qualquer processo de negociação que pudesse estar em andamento.

Terremotos ampliam fragilidade do Estado

Os terremotos de 24 de junho estão entre os maiores desastres naturais da história da Venezuela. Além das vítimas, centenas de edifícios foram danificados e os prejuízos econômicos são estimados em cerca de 6% do PIB (Produto Interno Bruto) do país, segundo o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

Especialistas afirmam que a tragédia expôs a fragilidade das instituições venezuelanas após 25 anos de governos chavistas.

“O Estado não tem condições de responder. Faltam orçamento, pessoal, planejamento, liderança, equipamentos e máquinas pesadas”, afirmou Gunson.

Em entrevista coletiva realizada na quinta-feira, Delcy Rodríguez rejeitou as críticas à atuação do governo. Segundo ela, 4 mil agentes foram mobilizados nas primeiras 24 horas após os terremotos e, pouco depois, o contingente chegou a 19 mil integrantes, com apoio de equipes internacionais de resgate.

Oposição pressiona, mas Washington mantém apoio

Em meio à crise, a líder opositora María Corina Machado intensificou as críticas ao governo e afirmou que as autoridades impediram seu retorno ao país para participar das ações de assistência às vítimas.

“Não se trata de mim. Somos milhares, milhões que queremos estar juntos, um povo de luto que precisa se consolar unido”, afirmou em vídeo divulgado em 29 de junho.

Os Estados Unidos, no entanto, demonstraram não apoiar um retorno de Machado neste momento. Em resposta à CNN, um porta-voz do Departamento de Estado afirmou que Washington está concentrado na resposta aos terremotos e que inserir questões políticas sensíveis agora seria contraproducente.

Para Gunson, essa posição mostra que os Estados Unidos não consideram o grupo liderado por María Corina Machado uma alternativa viável para governar a Venezuela.

Na avaliação de Oner, muitos venezuelanos acreditavam que a resposta considerada insuficiente aos terremotos faria Washington rever seu apoio a Delcy Rodríguez, mas isso não ocorreu.

Segundo o pesquisador, a prioridade dos Estados Unidos continua sendo preservar a estabilidade da Venezuela e proteger seus interesses econômicos e petrolíferos.

“Delcy sabe como tornar seu governo útil para Washington ao atender às demandas dos Estados Unidos. Isso torna provável que a Casa Branca continue apoiando seu governo enquanto promove reformas limitadas e cooperação, sem pressionar seriamente por eleições ou por uma transição democrática completa em um futuro próximo”, afirmou. “Por enquanto, uma transição política está fora do horizonte.”



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