Vídeos de crianças mostrando rotinas de beleza nas redes sociais têm ampliado o debate sobre o uso precoce de cosméticos. Cremes, máscaras e outros produtos aparecem em conteúdos que reproduzem hábitos vistos em perfis de influenciadores adultos.
No TikTok, perfis brasileiros como Clarinha Encantada e Lulu Jabur ajudam a mostrar a força desse movimento. Clarinha tinha 8 anos quando seu conteúdo foi analisado em uma pesquisa acadêmica e aparecia em vídeos com testes, avaliações e coleções de produtos de beleza. O perfil de Lulu também reúne audiência expressiva e publica materiais ligados ao setor.
Quando o skincare vira motivo de preocupação?
O interesse por cuidados com a pele não é, por si só, um problema. O alerta surge quando a aparência passa a ocupar espaço excessivo na rotina ou quando pequenas características naturais são vistas como defeitos.
Nesse contexto, ganhou espaço o termo cosmeticorexia, usado para descrever uma preocupação excessiva com a aparência e com a busca por uma pele considerada perfeita. A expressão não corresponde a um diagnóstico médico formal, mas o fenômeno é discutido diante da exposição precoce de crianças a padrões de beleza e ao consumo de cosméticos.
Uma reportagem publicada pelo The Guardian em abril de 2026 também abordou o aumento de crianças e pré-adolescentes que reproduzem rotinas de skincare encontradas na internet. O conteúdo relacionou a tendência à procura por uma aparência sem imperfeições e ao uso inadequado de produtos destinados a peles adultas.
Pele infantil exige cuidados diferentes
A pele das crianças apresenta características diferentes da pele adulta. Por isso, produtos voltados ao combate de sinais de envelhecimento ou a necessidades específicas da pele madura podem ser desnecessários para os mais novos.
A Dra. Paula Rabelo também chama atenção para os cuidados com a pele infantil e para os riscos de reproduzir rotinas de skincare sem levar em conta a idade e as necessidades individuais.
Determinados ativos, quando usados sem orientação, podem causar irritações e outros problemas dermatológicos. A antecipação de tratamentos destinados à pele adulta também não oferece benefício quando não existe uma indicação específica.
Em julho de 2025, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou orientações sobre cosméticos para crianças e adolescentes. A entidade destacou o uso cada vez mais precoce desses produtos e reforçou a importância de avaliar a faixa etária e a necessidade real de cada item.
Quais cuidados são adequados?
Crianças e adolescentes podem ter cuidados com a pele, mas a rotina deve ser compatível com a idade. Para adolescentes, a Sociedade Brasileira de Pediatria aponta uma rotina básica com limpeza suave, hidratação e proteção solar, considerando o tipo de pele e produtos adequados à faixa etária.
Quando há acne ou outra condição dermatológica, um profissional de saúde pode indicar cuidados e tratamentos específicos. Para crianças menores, a rotina tende a ser ainda mais simples.
Produtos infantis devem ser escolhidos de acordo com a idade e a sensibilidade da pele. Também é importante verificar se os cosméticos são regularizados pela Anvisa.
O uso de produtos anti-idade e de cosméticos com ativos como retinoides e ácidos em altas concentrações não é indicado para crianças sem necessidade clínica. Esses produtos podem provocar irritações e reações na pele.
Redes sociais ampliam pressão pela aparência
A discussão sobre cosmeticorexia não envolve apenas cosméticos. Filtros, edições de imagens e padrões de beleza difundidos nas redes sociais podem criar a impressão de que poros, espinhas e marcas naturais são imperfeições que precisam ser corrigidas.
Para crianças e adolescentes, essa comparação constante pode afetar a forma como enxergam a própria aparência. Assim, o debate sobre skincare infantil também envolve autoestima e construção da identidade.
A preocupação deixa de estar apenas nos produtos utilizados e passa a envolver a relação que o jovem desenvolve com a própria imagem.
Como os pais podem acompanhar?
Observar o conteúdo consumido pelas crianças é uma das medidas que podem ajudar. Quando existe interesse por skincare, os responsáveis podem explicar que os produtos mostrados nas redes não são necessariamente necessários ou adequados para todas as idades.
Também vale ficar atento a sinais como preocupação excessiva com pequenas imperfeições, busca constante por novos cosméticos e insatisfação frequente com a própria aparência.
Se esses comportamentos aparecerem de forma persistente, uma conversa com a criança e a busca por orientação profissional podem ajudar a entender se existe apenas curiosidade ou uma relação mais preocupante com a própria imagem.
Cuidado não precisa significar correção
A infância pode incluir cuidados simples com a pele, desde que eles sejam seguros e adequados à idade. O principal desafio é evitar que as redes sociais transformem características naturais em problemas que precisam ser corrigidos.
Com o crescimento de conteúdos sobre beleza produzidos por crianças, a cosmeticorexia coloca em discussão os limites entre autocuidado, consumo e pressão estética. Para as famílias, o caminho é acompanhar esses hábitos e ensinar que cuidar da pele não significa buscar uma aparência perfeita.
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