Séruns, ácidos, cremes anti-idade e até toxina botulínica prévia. A busca por uma pele impecável ultrapassou o avançar da idade e atraiu um público cada vez mais jovem. Impulsionados pelas redes sociais e por promessas de pele “perfeita”, adolescentes e jovens adultos têm adotado rotinas de skincare complexas e procedimentos estéticos bem antes das primeiras linhas de expressão aparecerem.
A tendência levanta um alerta entre dermatologistas: até que ponto a prevenção é saudável e quando ela se torna um exagero estimulado pelo mercado?
Para especialistas, cuidar da pele desde cedo faz sentido, mas isso não significa começar precocemente tratamentos voltados exclusivamente para rugas.
Quando começar a cuidar da pele?
Não é necessário esperar o aparecimento das primeiras rugas para começar a cuidar da pele. O uso do protetor solar, por exemplo, deve fazer parte da rotina desde a infância e adolescência. A exposição acumulada à radiação ultravioleta é um dos principais fatores relacionados ao envelhecimento cutâneo e também está associada ao desenvolvimento do câncer de pele.
Na prática, isso significa que prevenção não precisa estar relacionada a produtos antienvelhecimento. Proteger a pele do sol, evitar queimaduras solares e manter hábitos adequados ao longo da vida são medidas muito mais importantes para preservar a saúde da pele.
A rotina também deve ser simples. Adolescentes e jovens adultos não necessariamente precisam reproduzir rotinas de cuidados com muitos passos vistas nas redes sociais. O excesso de produtos pode, inclusive, aumentar a chance de irritação, principalmente quando diferentes ativos são combinados sem orientação.
“Na adolescência, o foco deve ser principalmente a saúde da pele. Uma rotina básica, com limpeza suave, hidratante adequado ao tipo de pele e protetor solar diariamente, já é suficiente para a maioria das pessoas. Quando existe acne, dermatite ou alguma outra condição dermatológica, o tratamento deve ser direcionado especificamente para aquela necessidade. Não vejo benefício em uma adolescente usar uma rotina com vários ácidos, peptídeos, retinoides e produtos firmadores simplesmente para prevenir rugas”, diz Silvia Quaggio, dermatologista.
E os produtos para estimular o colágeno?
O colágeno é uma proteína importante para a estrutura, firmeza e elasticidade da pele. Sua produção diminui progressivamente com o envelhecimento, mas isso não significa que pessoas muito jovens precisem utilizar produtos específicos com o objetivo de “repor” ou estimular colágeno.
A necessidade de determinados ativos depende da condição da pele e do objetivo do tratamento. Retinoides, por exemplo, podem ser utilizados em diferentes situações dermatológicas, mas não devem ser incorporados à rotina simplesmente porque existe a preocupação de evitar futuras rugas.
“O que eu normalmente oriento é que tratamentos com retinoides podem ser utilizados a partir dos 25 anos ou 30 anos, quando a gente tem aí um consumo de colágeno superior à produção. Então, o nosso processo de envelhecimento acaba sendo progressivo a partir daí. Eu costumo indicar ativos que tanto estimulam colágeno, estimulam renovação celular, mas sempre focando que o mais importante de um cuidado com a pele é a fotoproteção, hidratação e higiene adequada”, acrescenta Patrícia Ang, dermatologista e cirurgiã dermatológica.
Outro ponto importante é que cosméticos e medicamentos têm funções diferentes. Um produto vendido como cosmético pode melhorar a hidratação e a aparência da pele, mas isso não significa que tenha o mesmo efeito de um tratamento dermatológico prescrito para uma indicação específica.
Existe uma idade ideal para fazer botox?
Quando o assunto é toxina botulínica, não existe uma idade universal a partir da qual todas as pessoas deveriam começar a aplicação. O procedimento tem indicações específicas e deve ser avaliado individualmente por um profissional habilitado.
A toxina botulínica reduz temporariamente a movimentação de determinados músculos e pode suavizar linhas de expressão. Por isso, a indicação não deveria partir apenas da idade ou de uma tentativa de “congelar” o envelhecimento antes que ele aconteça.
“A toxina botulínica possui excelentes indicações estéticas e médicas. Ela reduz temporariamente a atividade de determinados músculos e, consequentemente, algumas linhas de expressão. Porém, a ideia de que toda pessoa jovem deveria começar a aplicar toxina botulínica para impedir que um dia tenha rugas não é sustentada por evidências clínicas robustas”, diz Quaggio.
Ainda segundo a dermatologista, não existe uma idade universal em que alguém deva começar a aplicar botox. A decisão deve considerar a presença e a intensidade das linhas de expressão, o padrão de movimentação muscular, a anatomia individual, as expectativas da pessoa, os riscos e possíveis efeitos adversos e, principalmente, se existe realmente algo que incomoda aquele paciente.
“A toxina botulínica também não interrompe o processo de envelhecimento. Seu efeito é temporário e depende de reaplicações”, acrescenta.
Fazer procedimentos antes das rugas é prevenção?
A chamada abordagem preventiva ganhou espaço justamente com a ideia de intervir antes que sinais de envelhecimento se tornem mais evidentes. Mas prevenção e antecipação de procedimentos não são a mesma coisa.
Uma pessoa pode adotar medidas preventivas sem realizar procedimentos estéticos. Usar protetor solar, não fumar, manter uma alimentação equilibrada, dormir adequadamente e tratar doenças de pele são exemplos de cuidados que contribuem para a saúde cutânea ao longo do tempo.
Já procedimentos como toxina botulínica, preenchimentos e lasers têm indicações, benefícios e possíveis efeitos adversos. A decisão deve levar em conta a necessidade individual, e não uma regra de que determinado tratamento precisa começar em uma idade específica.
O que realmente vale a pena fazer cedo?
A prevenção do envelhecimento começa muito antes de uma clínica estética. Para pessoas jovens, o foco deve estar principalmente na saúde da pele e na construção de hábitos que possam ser mantidos ao longo da vida.
Protetor solar, limpeza adequada, hidratação quando indicada e acompanhamento dermatológico quando existem problemas específicos tendem a ser mais relevantes do que uma rotina extensa de produtos ou procedimentos.
O conceito de beleza preventiva, portanto, pode ser útil quando significa cuidar da pele antes que problemas apareçam. O limite está em transformar o envelhecimento natural em algo que precisa ser combatido desde cedo.
Uma preocupação, segundo os especialistas, está em diferenciar uma preocupação legítima com a saúde e a prevenção do envelhecimento da pressão estética criada pelas redes sociais e pela indústria da beleza.
“Isso é uma linha muito tênue dentro do consultório. Eu sou muito conservadora em relação a indicar procedimentos sem a pergunta do paciente ou sem o questionamento dele. Eu acho que a gente, como profissional de saúde, precisa, lógico, legitimar as queixas, mas também normalizar que o envelhecimento é algo natural, né? Que a gente pode melhor administrar com cuidados de skincare. E, se for uma coisa que incomoda muito a autoestima do paciente, avaliar se é necessário algum procedimento”, diz Ang.










