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Assembleia Popular na Área Tiago Campin reúne centenas de camponeses em Rondônia sob intimidações do ex-comandante da PM Régis Braguin


Centenas de camponeses e democratas se reuniram em 23 de outubro na Área Tiago Campin dos Santos, em Nova Mutum Paraná, distrito de Porto Velho (RO). Convocada pela Liga dos Camponeses Pobres (LCP), a Assembleia Popular recebeu, no mesmo dia, uma missão de solidariedade e representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). As famílias cobraram respostas sobre a regularização dos lotes, debateram a permanência na terra e apresentaram parte da produção construída sob anos de ameaças de despejo e perseguição.

A missão acompanhou a Assembleia desde sua chegada à área. Integravam a delegação representantes do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal de Rondônia (Unir), da Associação Brasileira dos Advogados do Povo – Gabriel Pimenta (Abrapo), do Comitê de Apoio à Luta pela Terra (CALT), do Comitê de Apoio a AND e outros apoiadores. As famílias os receberam com um almoço antes das atividades.

Uma mobilização que chegou ao Incra

A Assembleia deu continuidade a conquistas e reivindicações anteriores. Durante a resistência à operação de despejo “Nova Mutum”, em 2021, a Abrapo obteve no Supremo Tribunal Federal uma decisão da ministra Cármen Lúcia que suspendeu a retirada das famílias. Neste ano, a entidade conquistou nova suspensão de despejo contra cerca de 400 famílias das áreas Tiago Campin dos Santos 1 e 2. Em setembro, outra decisão do Tribunal de Justiça de Rondônia assegurou a permanência temporária de mais de cem famílias ameaçadas de reintegração. As ordens foram suspensas, mas a regularização das terras continua pendente.

Em 29 de setembro, camponeses de diferentes áreas, organizados pela LCP com a mediação da Abrapo, levaram suas reivindicações à Superintendência do Incra em Porto Velho. Entre elas estavam as áreas Tiago Campin dos Santos, Valdiro Chagas e Nova Esperança, além de comunidades próximas a Santa Elina. Também chegou ao órgão a luta da Área Paulo Bento, em Mirante da Serra: diante das reivindicações de famílias que vivem e produzem ali, o superintendente reconheceu a necessidade de intervenção do Incra no processo e se comprometeu a reunir-se com os moradores. A presença do órgão na Assembleia de 23 de outubro foi mais um passo dessa cobrança coletiva.

Exigências ao Incra e fartura na produção camponesa legitimam o avanço da Revolução Agrária em Rondônia – A Nova Democracia

Após articulação da LCP e da Abrapo, camponeses de diferentes áreas de Rondônia levaram ao Incra reivindicações de regularização e denúncias de ameaças de despejo. No caso da Área Paulo Bento, órgão reconheceu necessidade de intervir no processo e se comprometeu a reunir-se com as famílias.

Na véspera da Assembleia, porém, o ex-comandante-geral da PM de Rondônia Régis Braguin apareceu com policiais armados e quatro viaturas na Vila Alípio de Freitas. Segundo os camponeses, os agentes perguntaram onde ficava o barracão da reunião, numa tentativa de intimidar as famílias e frustrar tanto a Assembleia quanto a missão de solidariedade.

Um morador denunciou que encontrou seu trator danificado, com lama no radiador e suas ferramentas e chaves furtadas depois da passagem das viaturas.

Apesar das intimidações e sabotagens, as famílias lotaram o barracão. O superintendente estadual do Incra, Luís Flávio Carvalho Ribeiro, participou da discussão sobre a situação fundiária e respondeu a perguntas acerca dos encaminhamentos para a regularização dos lotes. Um representante da MR Assessoria, empresa que atua com crédito fundiário, disse que acompanharia os trabalhos e afirmou que ela é credenciada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário.

O presidente da Abrapo recordou a resistência de 2021 e a atuação, naquele período, de estudantes, organizações populares e da Comissão Pastoral da Terra (CPT). A entidade reafirmou sua defesa jurídica e política das famílias, destacou a importância das decisões coletivas da Assembleia Popular e exigiu a liberdade da advogada Lenir Correia, presa durante a Operação “Godos”. Para a Abrapo, a criminalização da advocacia popular busca atingir a luta camponesa.

Memória dos mortos e denúncias de perseguição

Na intervenção da LCP, a defesa da permanência na terra veio acompanhada da homenagem a Gedeon, Rafael, Amarildo, Amaral e Kevin, mortos durante as batalhas camponesas de 2021. A representante também recordou Rodrigo e Raniel, assassinados em 2023 numa ação policial que a Abrapo denunciou como chacina, e o dirigente conhecido como Flecha, morto em janeiro deste ano durante uma operação do Bope de Mato Grosso com participação de forças de Rondônia.

A LCP voltou a denunciar a Operação “Godos”, deflagrada em novembro de 2025, como uma ofensiva para criminalizar a luta pela terra. A operação prendeu Lenir e outros moradores e apoiadores; Elias Camilo foi morto dentro de casa e sua esposa ficou gravemente ferida. Segundo familiares e moradores ouvidos por AND, os registros foram alterados para apresentar a morte como resultado de um confronto em outro local, próximo à BR-364. A organização exige a apuração do que denuncia como execução e a libertação dos presos.

Outra denúncia tratou do chamado “bando do Jed”. A LCP atribui ao grupo os assassinatos de Claudinei Camillo, em março, e do jovem Luan Henrique, em abril, além de ameaças, furtos e sabotagens contra moradores. Segundo a organização, o grupo foi rechaçado pelas famílias, mas integrantes continuaram a rondar a área; eles não se aproximaram da Assembleia. Camponeses também relataram ter sido coagidos a assinar procurações e contratos com a advogada Ivanete Damasceno. A Abrapo já havia denunciado uma manobra processual que a retirou do cadastro de um dos processos de despejo após uma petição apresentada pela advogada.

Ivanete apareceu no barracão ao fim da atividade. Conforme relatos das famílias, reuniões convocadas por ela tiveram adesão reduzida, e moradores que desejam revogar os contratos afirmam enfrentar cobranças elevadas. Os camponeses também denunciaram sua ligação com a Assembleia Legislativa de Rondônia e atribuíram sua atuação política ao deputado Alex Redano, investigado por suspeitas de “rachadinha”.

Sigilo da Operação ‘Godos’ blinda perseguição a Lenir Correia e criminalização da luta pela terra, denuncia ABRAPO - A Nova Democracia

Sigilo da Operação ‘Godos’ blinda perseguição a Lenir Correia e criminalização da luta pela terra, denuncia ABRAPO – A Nova Democracia

Entidade denuncia que advogada popular está presa há mais de nove meses sem que testemunhas a relacionem a qualquer crime e exige o fim do segredo de justiça; Lenir Correia foi reconhecida como prisioneira política pelo Tribunal Popular contra os Crimes do Latifúndio.

Produção e escola mostram o que as famílias construíram

As amostras de alimentos levadas à Assembleia deram uma dimensão concreta daquilo que as famílias defendem. Segundo os camponeses, a área produz cargas de mandioca, leite e outros produtos comercializados em União Bandeirantes e Nova Mamoré. Eles denunciam que a perseguição ambiental tenta atribuir-lhes danos praticados pelo latifúndio, enquanto seu trabalho abastece comunidades vizinhas e movimenta o comércio local.

Lote de um camponês comprova o êxito econômico e dá legitimidade à luta pela terra. Foto: AND

A missão de solidariedade visitou ainda a Escola Popular Renato Nathan, onde funciona a educação básica para cerca de cem crianças da área. Os apoiadores conversaram com professoras que se empenham em manter as atividades. A escola, os lotes cultivados e a produção exposta no barracão fizeram parte da mesma demonstração: as famílias permaneceram na terra e construíram uma comunidade apesar das sucessivas ofensivas contra elas.

‘Só a Revolução Agrária derrota o latifúndio e a extrema direita’, afirma LCP - A Nova Democracia

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Em resposta às ameaças bolsonaristas, a respeitada e combativa organização camponesa da LCP conclama a juventude que se mobiliza contra a extrema direita a engrossar as fileiras da Revolução Agrária.

Abordagem policial na saída

Quando parte da missão deixava a área em comboio, duas viaturas da PM pararam os veículos. Segundo os apoiadores, policiais com armas de grosso calibre exigiram a identificação dos ocupantes. Estudantes e integrantes do CALT questionaram a abordagem, explicaram que haviam participado de uma ação de solidariedade e foram liberados. O superintendente do Incra, que vinha logo atrás, também teve de prestar explicações aos policiais.

Depois, as viaturas seguiram em direção ao barracão e à Vila Alípio de Freitas, prolongando a pressão sobre a comunidade.

A abordagem ocorreu após a Assembleia, quando as famílias já haviam reafirmado coletivamente sua disposição de permanecer, produzir e cobrar do Incra a regularização dos lotes.

Braguin levou a criminalização da LCP para sua campanha a deputado federal. Defendeu tratá-la como organização “terrorista” e apareceu numa peça eleitoral disparando contra alvos identificados com as siglas “LCP”, “CV” e “PCC”, numa tentativa de equiparar a luta camponesa ao tráfico de drogas. A encenação não o levou a Brasília: recebeu 13.152 votos, 1,41% dos válidos em Rondônia, e não foi eleito. Depois da derrota, voltou a aparecer diante dos camponeses acompanhado de viaturas e homens armados, mas não impediu a realização da Assembleia. Em sua nota de 19 de outubro, a LCP já lhe havia respondido: “Não vai para Brasília não! Vai ter que nos aguentar!”.

A regularização da área ainda precisa ser conquistada. Reunir centenas de famílias e apoiadores, apresentar a produção e cobrar respostas do Incra sob esse clima de intimidação foi o êxito político da jornada e mais uma demonstração da continuidade da luta pela terra. Como afirmou a LCP: “Mesmo com tudo isso nós seguimos em frente e vamos triunfar”.

Bandeira Liga dos Camponeses Pobres LCP

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