O avanço do aquecimento das águas do oceano Pacífico Equatorial reforçou os sinais de formação de um novo episódio de El Niño e levou a Administração Nacional para Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA) a elevar o nível de atenção para o fenômeno.
A atualização mais recente do Centro de Previsão Climática (CPC), divulgada em 18 de maio, aponta aumento da confiança dos modelos climáticos e indica que o El Niño pode começar nas próximas semanas.
Apesar de o fenômeno ainda não ter sido oficialmente declarado, a NOAA já opera em nível de “Alerta El Niño” (El Niño Watch), etapa que indica condições cada vez mais favoráveis para o desenvolvimento do evento climático. O cenário atual aponta para uma rápida transição das condições neutras observadas nos últimos meses para um padrão de aquecimento sustentado do Pacífico, de acordo com a análise da NOAA.
Segundo a projeção mais recente da agência, há 82% de chance de o El Niño se formar entre maio e julho de 2026. Já a probabilidade de o fenômeno permanecer ativo entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027 chega a 96%, período que corresponde ao verão no Hemisfério Sul.
Pacífico aqueceu e atingiu nível associado ao El Niño
Por trás da mudança nas projeções está o comportamento do oceano. Os dados mais recentes mostram que o aquecimento superficial avançou em praticamente todas as regiões monitoradas do Pacífico Equatorial.
No relatório anterior, de 13 de maio, os desvios positivos de temperatura estavam em:
- Niño 4: +0,5°C
- Niño 3.4: +0,4°C
- Niño 1+2: +1,0°C
Na atualização mais recente, de 18 de maio, os valores avançaram para:
- Niño 4: +0,6°C
- Niño 3.4: +0,5°C
- Niño 1+2: +1,3°C
O destaque está na região Niño 3.4, considerada a principal área de monitoramento do fenômeno. O índice alcançou +0,5°C, patamar usado pela NOAA como referência para caracterizar condições compatíveis com El Niño, desde que o aquecimento seja sustentado e acompanhado por respostas atmosféricas consistentes.
Os mapas apresentados pela NOAA mostram que o aquecimento deixou de ficar concentrado apenas no extremo leste e passou a se espalhar pelo Pacífico central e oriental, padrão frequentemente observado no início de eventos de El Niño. O material também destaca que as anomalias positivas de temperatura ficaram mais estabelecidas nessas áreas ao longo das últimas semanas.
Sinal mais importante está abaixo da superfície
Além do aquecimento observado na superfície, meteorologistas acompanham um indicador considerado ainda mais relevante: a temperatura das águas subsuperficiais.

Segundo a NOAA, o conteúdo de calor do oceano aumentou pelo sexto mês consecutivo, indicando acúmulo de energia abaixo da superfície do Pacífico Equatorial. As análises mostram temperaturas significativamente acima da média em grandes áreas do oceano, especialmente no centro e no leste da bacia.
Esse processo costuma anteceder o fortalecimento do El Niño porque o calor armazenado em profundidade tende a migrar gradualmente para a superfície e alimentar o aquecimento das águas superficiais.
O relatório também aponta que ondas oceânicas conhecidas como ondas Kelvin continuaram transportando calor em direção ao leste do Pacífico desde o fim de 2025, favorecendo a manutenção das anomalias positivas.
Intensidade ainda é incerta, mas cenário de evento forte ganhou espaço
Embora a NOAA tenha aumentado a confiança na formação do fenômeno, ainda não há definição sobre sua intensidade máxima.
As projeções mais recentes indicam que entre novembro de 2026 e janeiro de 2027 existe cerca de dois terços de chance de o fenômeno atingir intensidade forte ou muito forte, embora ainda exista possibilidade de um evento mais moderado.
Especialistas ressaltam que eventos mais intensos não significam automaticamente impactos mais severos, mas aumentam a probabilidade de alterações importantes nos padrões globais de temperatura e chuva.
No Brasil, historicamente, episódios de El Niño costumam favorecer aumento das chuvas no Sul e períodos mais secos em áreas do Norte e Nordeste, além de influenciarem a distribuição das temperaturas em diferentes regiões do país.
Ainda assim, os efeitos específicos deste novo episódio devem ficar mais claros nos próximos meses, conforme o aquecimento do Pacífico avance e o fenômeno seja oficialmente configurado.
Nova onda de frio e inverno menos rigoroso
À CNN Brasil, o meteorologista da Nottus Alexandre Nascimento afirmou que o frio registrado neste início de maio está dentro do esperado para a época do ano, embora tenha chegado um pouco mais tarde do que o habitual. Segundo ele, a massa polar associada à frente fria conseguiu avançar até o sul da Amazônia, provocando o fenômeno conhecido como friagem.
Nascimento também afirmou que o inverno de 2026 deve ser menos rigoroso do que o do ano passado por causa da formação do fenômeno El Niño. Segundo o especialista, o fim do outono e o começo do inverno ainda devem registrar novas massas de ar polar, mas julho e agosto tendem a ter temperaturas acima da média.











