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Após 15 facadas, mulher deixa hospital 16 dias depois de ataque do ex




Adriele Maria dos Santos de Jesus, 32 anos, deixa o hospital após passar 16 dias internada; ela sobreviveu a cerca de 15 facadas atribuídas ao ex-marido, em Nova Mutum.

Dezesseis dias depois de ser atacada com cerca de 15 golpes de faca, Adriele Maria dos Santos de Jesus, de 32 anos, deixou caminhando o Hospital Hilda Strenger Ribeiro, em Nova Mutum. A alta médica encerra a fase mais crítica de uma tentativa de feminicídio que quase terminou em morte mesmo depois de a vítima ter procurado proteção do Estado.

Adriele recebeu alta na quarta-feira (2). Imagens registradas na saída do hospital mostram a mulher caminhando por uma rampa, usando máscara e acenando antes de deixar a unidade. Durante a internação, ela chegou em estado grave, passou por cirurgia de emergência, foi intubada e permaneceu na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

O ataque ocorreu em 17 de agosto, no estabelecimento comercial onde Adriele trabalhava, em Nova Mutum. Conforme a investigação, o ex-companheiro Daniel Borges de Jesus, de 46 anos, teria ido ao local e atacado a vítima com uma faca. Câmeras de segurança registraram a ação.

O filho do investigado, de 20 anos, tentou intervir e também ficou ferido na perna. Outras pessoas que estavam no estabelecimento reagiram para tentar interromper as agressões. Depois do crime, o suspeito fugiu e foi encontrado no dia seguinte em uma área de mata na zona rural. A Justiça posteriormente manteve sua prisão.

Adriele agora prossegue a recuperação ao lado da família. Ela é mãe de quatro filhos.

PROTEÇÃO NÃO IMPEDIU ATAQUE – O que diferencia o episódio de uma ocorrência isolada é a sequência de alertas que antecedeu a tentativa de feminicídio.

Antes de ser esfaqueada, Adriele já possuía medida protetiva contra o ex-companheiro.

Em julho, Daniel havia sido preso por descumprir a determinação judicial e tentar manter contato com a vítima. Na ocasião, também foi encontrada com ele uma espingarda de pressão modificada para disparar munição calibre .22.

Depois de audiência de custódia, ele foi colocado em liberdade mediante medidas cautelares. Entre elas estavam tornozeleira eletrônica vinculada ao botão do pânico, afastamento do lar, proibição de frequentar a residência e o local de trabalho de Adriele, proibição de contato com ela e seus familiares e suspensão da posse de armas.

Apesar das restrições, semanas depois ocorreu o ataque.

A sequência deixa uma questão ainda sem resposta: como um homem monitorado eletronicamente e proibido judicialmente de se aproximar do local de trabalho da ex-companheira conseguiu chegar até ela e iniciar o ataque?

Também permanece necessário esclarecer se o sistema de monitoramento detectou a aproximação, se houve emissão de alerta e quanto tempo transcorreu entre uma eventual violação do perímetro e o início das agressões.

Esses pontos já haviam sido levantados pelo DIÁRIO após a tentativa de feminicídio e ganham nova relevância agora que Adriele deixou o hospital.

A VIOLÊNCIA ALÉM DAS 33 MORTES – A sobrevivência de Adriele também revela uma dimensão da violência extrema contra mulheres que não aparece quando a análise se limita aos feminicídios consumados.

Mato Grosso chegou neste início de setembro a 33 feminicídios em 2026, após a morte de Suenilda Vieira, de 37 anos, em uma propriedade rural de Araguaiana. No caso de Suenilda, o filho também foi baleado ao tentar defender a mãe.

Adriele teve outro desfecho. Depois de aproximadamente 15 facadas, cirurgia, UTI e 16 dias de hospitalização, sobreviveu.

A comparação evidencia a necessidade de acompanhar não apenas quantas mulheres são assassinadas, mas também quantas chegam perto de morrer em ataques praticados em contexto de violência de gênero.

A estatística é especialmente importante para avaliar a eficiência das políticas de prevenção. Casos como o de Adriele permitem identificar situações em que a violência escalou apesar de denúncias anteriores, medida protetiva, prisão e monitoramento eletrônico.

No caso dela, a sucessão de mecanismos de proteção não foi suficiente para impedir que o investigado voltasse a alcançá-la.

Agora, além da responsabilização criminal do acusado, a tentativa de feminicídio deixa uma pergunta para o poder público: em que ponto a rede de proteção falhou antes que Adriele recebesse o primeiro golpe?





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