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Análise: E se Petro não reconhecer o vencedor do segundo turno na Colômbia?


A democracia colombiana caminha sobre o fio de uma crescente tensão política.

Ao final de uma campanha que expõe uma profunda polarização, marcada por acusações de suposta fraude feitas pelo próprio presidente da República e pelo aumento da desinformação nas redes sociais, o país enfrenta um de seus maiores desafios institucionais: o risco iminente de que os resultados eleitorais não sejam reconhecidos pelos atores políticos, abrindo caminho para protestos e bloqueios após o segundo turno, marcado para 21 de junho.

Na disputa estão o candidato do partido de esquerda Pacto Histórico, Iván Cepeda, e Abelardo de la Espriella, do movimento político de direita Defensores de la Patria.

Após uma reunião política em Valledupar, no norte da Colômbia, o ex-senador e ex-candidato à Prefeitura de Bogotá pelo Pacto Histórico, Gustavo Bolívar, fez uma declaração que acendeu o alerta em diversos setores políticos e da opinião pública.

“Os empresários estão avisados, os donos deste país e do poder econômico estão avisados: se a alternativa violenta e de extrema direita vencer, este país vai pegar fogo. Porque o povo não é passivo, o povo não vai permitir ser destruído de braços cruzados. É lamentável que todos os avanços que tivemos nestes quatro anos possam ser perdidos apenas porque uma parte significativa da população — exatamente metade — acredita que a solução é anular o adversário”, afirmou Bolívar a veículos de imprensa locais e apoiadores da campanha de Cepeda.

O presidente Gustavo Petro ainda não reconheceu os resultados do primeiro turno das eleições, que garantiram a passagem de Iván Cepeda e Abelardo de la Espriella para o segundo turno.

O candidato do Pacto Histórico inicialmente apoiou as declarações de Petro sobre supostas irregularidades na apuração preliminar dos votos, mas posteriormente afirmou que não havia evidências de manipulação dos resultados.

Tanto os observadores internacionais quanto a Registradoria Nacional, órgão responsável por organizar e garantir a realização das eleições, concordaram que o processo foi transparente e que não houve indícios de fraude.

“Se Petro não reconhecer os resultados do segundo turno, assim como não fez no primeiro, a máscara cairá de vez e ficará exposto um autocrata, um tirano em formação. O Exército da Pátria deverá, conforme a Constituição, restabelecer a ordem”, afirmou nesta terça-feira o candidato presidencial Abelardo de la Espriella em uma publicação na rede X.

Diante do aumento das tensões políticas, alguns setores da opinião pública pediram moderação às campanhas eleitorais e aos seus porta-vozes para evitar situações que possam comprometer a ordem pública e resultar em atos de violência.

“Independentemente de o meu candidato vencer ou não, quem sai fortalecida é a democracia. E isso significa que é preciso aceitar os resultados para validar que temos um sistema eleitoral robusto”, afirmou dom Héctor Fabio Henao, delegado para as relações entre Igreja e Estado da Conferência Episcopal da Colômbia.

As autoridades eleitorais garantiram a realização normal do segundo turno e alertaram os partidos políticos de que todas as garantias necessárias para a votação estão asseguradas, tanto no país quanto no exterior.

Por isso, destacam que os resultados deverão ser aceitos, já que contarão com o acompanhamento e a verificação de observadores internacionais e de representantes das campanhas nos locais de votação.

“Esta semana, a desinformação está crescendo, as notícias falsas estão se multiplicando e as narrativas enganosas vêm inundando as redes sociais, perturbando de alguma forma a sociedade colombiana. Aqui existem instituições fortes e estamos articulados para garantir um processo eleitoral transparente, eficiente e íntegro. Tenham absoluta tranquilidade de que o próximo presidente da Colômbia será aquele que receber a maioria dos votos dos cidadãos. Sobre isso não deve haver qualquer dúvida”, afirmou o registrador nacional Hernán Penagos em entrevista coletiva nesta terça-feira (16).

“O mais provável é que haja um aumento da instabilidade nas regiões do país, das tensões nas cidades e, possivelmente, episódios de violência direta muito semelhantes aos que vivemos em 2021, caso continuem essas ameaças de incendiar o país. Isso indica que, independentemente de quem vença, o próximo governo enfrentará um cenário muito complexo, o que tornará bastante difícil garantir a governabilidade na Colômbia”, disse à CNN Jaime Arango, ex-assessor de segurança nacional e analista político.

Diferentemente dos processos eleitorais anteriores no país, nos quais a violência tendia a diminuir após a divulgação dos resultados das urnas, analistas de segurança alertam que, no cenário atual, o conflito pode começar já no dia da apuração final, caso setores políticos continuem insistindo em narrativas de fraude eleitoral.

Segundo eles, a situação se torna ainda mais delicada com um presidente em exercício participando abertamente do debate político, apesar das proibições expressas da Constituição e de decisões judiciais recentes.

“Isso significa calar um presidente da República eleito pelo voto popular. E alguns juízes ajudam nisso, dizendo que eu não devo falar sobre uma coisa ou outra. O mais recente já afirma que eu não posso falar sobre eleições. Não, senhor, não, senhor! Quero que meus advogados ajam imediatamente. Eu apenas falei de pessoas que estão em campanha porque cometem crimes, e minha obrigação como servidor público é denunciá-las”, afirmou Petro nesta terça-feira, durante uma reunião ministerial transmitida pela televisão para todo o país.

A estabilidade política da Colômbia já não depende apenas de quem obtiver a maioria dos votos nas urnas no próximo domingo, mas também da maturidade e da responsabilidade democrática dos líderes políticos, formadores de opinião e candidatos ao medir o alcance de suas declarações públicas.

Em uma nação marcada por um conflito armado interno que parece não ter fim e por um histórico tão doloroso de violência, alimentar suspeitas de fraude ou se recusar a reconhecer os resultados eleitorais significa colocar em risco a democracia e as instituições do país.



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