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Análise: Batalha contra Fauci mostra que os EUA ainda não superaram a Covid


A pandemia de Covid-19 foi um teste de estresse histórico que revelou que a política americana estava dividida demais para lidar com uma crise nacional.

Seis anos depois, uma nova tempestade política envolvendo o Dr. Anthony Fauci, que já foi o mais proeminente funcionário de saúde pública do país, sugere que essas fraturas estão agora ainda mais tóxicas. E um acerto de contas há muito adiado sobre a pior emergência de saúde pública em 100 anos está mais distante do que nunca.

Um comitê do Senado liderado pelos republicanos votou pela declaração de Fauci em desacato ao Congresso na quinta-feira (6), depois que ele invocou seus direitos garantidos pela Quinta Emenda mais de 100 vezes durante uma tensa audiência na semana passada.

O presidente do comitê, senador Rand Paul, acusou Fauci de obstruir sua investigação sobre as políticas adotadas durante a pandemia. O ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas se recusou a responder às perguntas, acusando seu antigo adversário político do Kentucky de armar uma situação para contornar um perdão que lhe foi concedido pelo então presidente Joe Biden.

A audiência foi um típico drama político de Washington, no qual cada partido se concentra em uma personalidade de grande destaque para alimentar suas disputas ideológicas. E um encaminhamento de desacato pelo comitê ao Departamento de Justiça levantaria questões jurídicas e constitucionais importantes sobre o poder presidencial de conceder perdões.

Mas, mais importante, a nova saga envolvendo Fauci é um momento esclarecedor sobre o legado político ainda poderoso da Covid-19 às vésperas das eleições de 2026 e 2028. O confronto evidencia o colapso do consenso sobre saúde pública entre os republicanos alinhados ao movimento MAGA e os democratas, que acusam seus adversários de ignorarem a ciência.

Também levanta uma questão fundamental: se alguma lição foi aprendida com os intensos conflitos políticos que surgiram sobre as medidas de combate à Covid-19 entre autoridades de saúde de carreira e o primeiro governo Trump, e também entre Washington e líderes estaduais e municipais de saúde e política.

Os Republicanos finalmente veem uma forma de punir Fauci

Líderes republicanos acusam Fauci de ter liderado políticas de lockdown que prejudicaram a economia, a saúde pública e a educação das crianças, além de afirmarem que ele enganou o Congresso sobre pesquisas financiadas pelo governo federal em Wuhan, na China, onde eles defendem que um vazamento de laboratório teria iniciado a pandemia.

De forma mais ampla, eles buscam minimizar a liderança instável e, às vezes, politicamente conveniente de Trump durante a crise em seu primeiro mandato, que contribuiu para sua derrota para Biden em 2020.

O secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., por exemplo, acusou Fauci de “administrar mal a pandemia de Covid” e afirmou que “o presidente Trump queria acabar com os lockdowns” em uma entrevista repleta de informações falsas no programa “State of the Union”, da CNN, com Dana Bash, no domingo (2).

Embora o governo federal tenha oferecido orientações, ele não determinou lockdowns obrigatórios. Essas decisões ficaram sob responsabilidade dos estados.

Republicanos populistas veem Fauci como um exemplo de uma suposta elite do “Estado profundo” de Washington que buscaria restringir liberdades individuais. O senador de Ohio Bernie Moreno exigiu na semana passada que Fauci “peça desculpas às pessoas que prejudicou com suas ações”, enquanto o senador do Missouri Josh Hawley o chamou de “o maior golpista da história americana”.

Os democratas veem uma oportunidade de lembrar o público sobre as falhas de Trump durante a Covid-19 e, apesar dos esforços rápidos de seu primeiro governo para distribuir uma vacina,  associá-las ao que classificam como ataques do segundo mandato do presidente contra orientações de saúde pública, calendários de vacinação e pesquisas acadêmicas.

Um legado em ruínas

A situação de Fauci também representa uma espécie de tragédia de Washington.

Ao longo de quase quatro décadas no NIAID (Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas), ele foi um dos raros funcionários públicos elogiados tanto por republicanos quanto por democratas. Governos estrangeiros o consideravam o padrão de excelência da saúde global, e sua participação nos programas globais de combate ao HIV/AIDS do presidente George W. Bush, o PEPFAR, ajudou a salvar milhões de vidas.

Fauci era um típico influente personagem do poder em Washington. Mas, aos 85 anos, tornou-se um símbolo daqueles que permanecem tempo demais no poder e acabam vendo suas reputações serem prejudicadas.

Trechos de seus diários divulgados pelo comitê mostraram um lado vaidoso e arrogante, à medida que ele parecia se vangloriar de sua cobertura na mídia, fama e interações com celebridades.

Ninguém afirma que Fauci acertou em tudo. Algumas de suas orientações, vistas em retrospecto, parecem ter sido contraditórias ou não apoiadas pela ciência.

Mas a intensa disputa política em torno do famoso médico também pode ser um obstáculo para algo mais importante: uma responsabilização completa em toda a sociedade sobre a pandemia, algo que poderia melhorar a resposta federal diante da próxima emergência.

Nos assustadores primeiros dias da crise da Covid-19, autoridades tomavam decisões rápidas sem ter conhecimento completo sobre as características do vírus, enquanto hospitais ficavam lotados de pacientes gravemente doentes. Erros eram inevitáveis. Mas, em alguns momentos, autoridades deram orientações inconsistentes ou mudaram de posição sobre questões como o uso de máscaras, resultando em uma perda de confiança pública.

A professora de Princeton Frances Lee, coautora do livro “In Covid’s Wake” (“Na Esteira da Covid”, em tradução livre), escrito com seu colega Stephen Macedo, destaca que Fauci disse à CNN em janeiro de 2020 que, embora a China tivesse interrompido viagens para tentar conter o surto, ele não conseguia “imaginar fechar Nova York ou Los Angeles”. Ele acrescentou: “Historicamente, quando você fecha as coisas, isso não tem um grande efeito”.

No entanto, semanas depois, altos funcionários da área de saúde recomendavam aos governadores o fechamento de escolas e empresas.

“Como isso aconteceu? E não apenas o fato de estarmos fechando tudo, mas o homem que havia declarado que a abordagem de Wuhan provavelmente não teria sucesso agora estava recomendando isso”, disse Lee em uma entrevista.

A pandemia foi uma experiência tão traumática que a maioria das pessoas simplesmente quis seguir em frente. Mas esse desejo, segundo Lee, reduziu a possibilidade de uma avaliação profunda por parte de autoridades públicas e médicas sobre aquele período.

“Analisando agora, o que fizemos certo? O que fizemos errado? Eu não vejo esse tipo de reflexão interna”, afirmou.

Mais controvérsias continuam cercando as restrições adotadas durante a pandemia. Essas medidas são complexas de avaliar, pois dependiam da duração dos lockdowns, da intensidade da disseminação do vírus, das variantes em circulação em cada momento e da qualidade dos sistemas locais de saúde.

Mas uma análise completa e despolitizada do Congresso sobre a pandemia poderia investigar o sucesso relativo dos estados governados por republicanos, que reabriram mais cedo, em comparação com estados governados por democratas, que permaneceram fechados por mais tempo.

Esse estudo também poderia abordar questões sobre o custo humano de decisões como o fechamento de escolas, que deixou impactos educacionais, psicológicos e emocionais duradouros.

Alguns críticos também acreditam que altos funcionários da saúde pública estavam tão concentrados na missão de combater o vírus que ignoraram todo o conjunto de consequências. Eles, e os veículos de imprensa que divulgavam suas mensagens, talvez também tenham dado mais atenção ao sofrimento dos trabalhadores de setores operacionais, que, ao contrário dos trabalhadores de escritório, não podiam simplesmente se conectar de casa para trabalhar remotamente.

Mas o Dr. Ashish Jha, que foi coordenador da resposta à Covid-19 na Casa Branca durante o governo Biden, disse à CNN, em entrevista a Dana Bash no domingo, que Fauci “deu orientações”.

“Algumas pessoas seguiram essas orientações. Outras não”, afirmou Jha, acrescentando que “a responsabilidade precisa estar com nossos líderes políticos, não com os cientistas que estão fornecendo aconselhamento”.

A audiência sobre Fauci também reacendeu o debate sobre a origem do vírus.

Na época, Trump abraçou a ideia de que ele teria surgido em um laboratório chinês,  aparentemente para desviar a atenção de suas falhas na condução da crise. No entanto, a maioria dos estudos acadêmicos e dos dados epidemiológicos reunidos desde então indica que uma origem zoonótica, ou seja, quando uma doença surge naturalmente em animais e passa para seres humanos, é a explicação mais provável para a origem do SARS-CoV-2, o vírus que causa a Covid-19, e que as primeiras transmissões estavam associadas a um mercado de animais vivos em Wuhan.

A ex-diretora de Inteligência Nacional de Trump, Tulsi Gabbard, acusou Fauci em junho de financiar pesquisas de laboratório no Instituto de Virologia de Wuhan que teriam causado o vírus. No entanto, os documentos divulgados por ela não comprovaram essas alegações, e Fauci as nega.

Ainda assim, Jha disse à CNN no domingo que mudou sua própria opinião sobre como o vírus surgiu.

“Com base nas informações que aprendi e nas informações que analisei, cheguei à conclusão de que é mais provável que tenha sido um vazamento de laboratório”, afirmou Jha.

Como a questão envolve a China, um Estado autoritário que se recusou a atender às exigências internacionais por mais transparência sobre a Covid-19, respostas definitivas talvez nunca sejam obtidas. Mas um processo conduzido pelo Congresso com mais foco na busca imparcial por respostas poderia trazer algum esclarecimento.

Disputa sobre Fauci pode mudar a resposta dos EUA à próxima crise

Nenhuma autoridade pública deveria estar acima de prestar contas por decisões tomadas em cargos de confiança pública. Os críticos de Fauci o veem como alguém arrogante e resistente ao escrutínio, mesmo enquanto minimizam as falhas de Trump, que frequentemente disseminou uma enxurrada de informações falsas e tratamentos sem comprovação durante a emergência.

Mas, se um funcionário tão respeitado quanto Fauci não está imune à difamação pessoal e agressiva por parte de líderes nacionais, outros servidores públicos menos conhecidos podem escolher seguir outra carreira, deixando os Estados Unidos mal preparados para a próxima crise.

“Esses ataques contra o Dr. Fauci não são apenas sobre ele”, disse o senador democrata Andy Kim, de Nova Jersey, durante a audiência da semana passada. “Eles estão enviando sinais para outras pessoas… nossos cientistas, nossos médicos, nossos profissionais de saúde, nossos pesquisadores. (É) uma tentativa de mostrar a eles que, se vocês não se alinharem com a política, também poderão estar sujeitos a ataques.”



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