As Forças Armadas reacionárias do Estados Unidos (EUA) preparam a transferência de drones MQ-9 Reaper atualmente empregados na África para a América do Sul, onde deverão reforçar operações de “combate ao narcotráfico” e “contraterrorismo”. Segundo seis fontes ouvidas pelo monopólio de imprensa ianque CNN, em 18 de setembro, os aparelhos passarão do Comando dos EUA para a África (Africom) ao Comando Sul (Southcom), responsável pelas operações militares ianques na América Latina e no Caribe.
O número de aeronaves ainda não foi definido, mas uma fonte da imprensa ianque afirmou que a transferência poderá envolver a “maioria” dos MQ-9 subordinados ao Africom. Os Reaper são utilizados para “inteligência, vigilância e ataques de precisão”. Parte das operações previstas poderá ocorrer no Equador, ainda segundo a fonte, onde militares ianques ampliaram ações conjuntas com as Forças Armadas locais, traidoras da Nação. O Pentágono não comentou o deslocamento.
A transferência ocorre em meio à ampliação da atividade militar do EUA na região. No último ano, Washington deslocou drones, caças e outras aeronaves para o Caribe e o Pacífico Oriental, enquanto Marco Rubio e Pete Hegseth elogiaram governos latino-americanos, lacaios do EUA, que abriram espaço para operações conjuntas contra organizações chamadas de “narcoterroristas”. A medida também ocorre após o governo Trump enquadrar as organizações brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) no aparato ianque de “combate ao terrorismo”.
Estratégia contrainsurgente a pleno vapor
A movimentação segue diretrizes da Estratégia de Segurança Nacional, publicada pelo governo ianque em 2025. O documento estabelece como objetivo manter o Hemisfério Ocidental “razoavelmente estável e bem governado”, obter cooperação contra “narcoterroristas, cartéis e outras organizações criminosas transnacionais” e impedir que “competidores extrarregionais” (Rússia e China) controlem ativos ou instalem capacidades estratégicas. Em outro trecho, Washington determina “restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental” e reajustar sua presença militar para enfrentar as “ameaças urgentes” existentes na região.
A orientação foi detalhada pela Casa Branca em 7 de março de 2026. Uma proclamação determinou que cartéis e “organizações terroristas estrangeiras” no Hemisfério sejam desmantelados, que sejam “privados de controle territorial” e que o EUA “treine e mobilize” as Forças Armadas dos países parceiros para combatê-los. Logo em seguida, o texto determina manter afastadas “influências estrangeiras malignas de fora do Hemisfério Ocidental”, referência criptografada a Rússia e China. O governo também informou a criação de uma coalizão militar anticartéis com representantes de 17 países.
‘Guerrilha em curso em Rondônia’: bolsonaristas tentam demonizar a LCP para acabar com o direito à luta pela terra – A Nova Democracia
Policial e militar bolsonaristas usam de operação do Bope que assassinou camponês em Rondônia para tentar criminalizar a LCP.
O uso conjunto das categorias de “narcotráfico”, “terrorismo” e “insurgência” possui precedentes claros. Em 1997, o Departamento de Estado colocou as guerrilhas anti-imperialistas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o Exército de Libertação Nacional (ELN), além do Partido Comunista do Peru (PCP, partido marxista-leninista-maoista militarizado chamado por Washington de “Sendero Luminoso”), na primeira lista de “Organizações Terroristas Estrangeiras”. Em 1999, o subsecretário Rand Beers declarou ao Senado que operações antidrogas na Colômbia produziriam “efeitos sobre a contrainsurgência” ao “reduzir recursos das guerrilhas” e afirmou que Washington precisava elevar a capacidade militar colombiana para operar em regiões dominadas pelas FARC. O Plano Colômbia financiaria posteriormente batalhões militares “antinarcóticos”, helicópteros, inteligência e operações no sul do país. Na realidade, foram forças contrarrevolucionárias, que combateram as guerrilhas de inspiração anti-imperialista, justificando sua operação intervencionista e imperialista como “combate ao crime”. As acusações de que as forças revolucionárias tinham vinculação econômica com o narcotráfico sempre foram repudiadas e desmascaradas como grosseiras ilações e mentiras para justificar sua intervenção militar direta.

‘100 tiros de fuzil’, ‘atentado’ e ‘guerrilha’: imprensa lixo de Rondônia demoniza autodefesa camponesa e omite terrorismo do latifúndio contra famílias camponesas – A Nova Democracia
No afã de demonizar os camponeses, a imprensa lixo de Rondônia revela o que se tenta esconder pelo próprio monopólio de imprensa latifundiário: o grau de militarização e enfrentamento armado existente no campo.
No Peru, documentos ianques já naquela época buscavam justificar sua intervenção militar acusando ter presença do PCP nas zonas cocaleiras. Em seguida, veio a expansão dos programas antidrogas financiados pelo EUA nessas mesmas regiões. Relatórios do Departamento de Estado acusavam que organizações classificadas como “terroristas” (na realidade, revolucionárias), como o PCP, poderiam “interferir nas missões de erradicação” e repressão, enquanto Washington fornecia inteligência, treinamento, aeronaves e apoio a operações policiais e militares. Assim justificavam combater a Revolução, quando, na verdade, esse era o único objetivo fundamental. Tanto na Colômbia quanto no Peru, políticas formalmente apresentadas como “antidrogas” desenvolveram-se em territórios onde o velho Estado semicolonial-semifeudal também conduzia campanhas contra organizações revolucionárias ou anti-imperialistas.

‘LCP porta fuzil em Rondônia’: tiete bolsonarista Bruno Scheid reencena ‘pesadelo’ de ‘camponeses armados com fuzis e pistolas’ para atacar a luta pela terra – A Nova Democracia
“Vocês conhecem a LCP tão bem quanto eu”: autoproclamado “05” do clã Bolsonaro, Scheid revive sua suposta “história de superação” de 2018, chama a LCP de “facção criminosa” e prega cadeia para camponeses pobres.
Brasil na mira da intervenção contrainsurgente ianque
No Brasil, a linguagem de “segurança nacional” do imperialismo ianque já alcança explicitamente as chamadas “facções”, como fizeram os ianques com os “cartéis” na Colômbia e no Peru para combater as guerrilhas.
Em julho de 2026, o Tesouro classificou o PCC como “ameaça significativa à segurança nacional” e aplicou contra sua rede dispositivos jurídicos usados tanto no combate ao narcotráfico quanto ao terrorismo.
Curiosamente, no mesmo mês em que ampliou a intervenção no Brasil e enquanto o faz no Equador, Peru e Colômbia a pretexto de combater o “narcoterrorismo”, o secretário Scott Bessent declarou, numa reunião ministerial convocada por Marco Rubio, que havia um ressurgimento do “terrorismo político” de “doutrina de extrema esquerda”, sobretudo no Hemisfério Ocidental (continente americano), que exigiria “resposta internacional coordenada”, poucos meses após a realização de um Congresso Mundial de fundação da Liga Anti-imperialista Internacional, na Colômbia, que proclamou a necessidade de unir as lutas armadas de libertação nacional ou antifeudais com as lutas proletárias e populares pela Revolução Proletária. Em agosto, o Tesouro aplicou sanções antiterrorismo a organizações que classificou como “integrantes de redes da extrema esquerda violenta”. O próprio aparato oficial ianque, portanto, já articula repressão ao narcotráfico e combate a organizações anti-imperialistas, de caráter político.

Cadetes ianques de West Point realizam exercícios na Amazônia visando futuras operações de contrainsurgência – A Nova Democracia
A presença de militares ianques no Brasil, sob o pretexto de cooperação, é o primeiro passo para o estabelecimento da doutrina de Guerra de Baixa Intensidade, que visa o desgaste e a repressão sistemática de qualquer organização que defenda a terra e a soberania nacional.
Onde está a ‘insurgência’ brasileira, segundo a estratégia contrainsurgente ianque e de seus lacaios locais
No Brasil, o objetivo da intervenção ianque e sua estratégia contrainsurgente não são, estrategicamente, as chamadas “facções”, como não foram e não são os “cartéis” na Colômbia, Peru e Equador.
Em agosto de 2025, o coronel reformado Fernando Montenegro, ex-oficial de inteligência do Destacamento de Contraterrorismo do 1º Batalhão de Forças Especiais, classificou o movimento camponês combativo, Liga dos Camponeses Pobres (LCP), como uma “insurgência” e afirmou que a organização estaria “transitando perigosamente de uma primeira etapa, de preparação, para uma fase de início propriamente dito das ações de guerrilha”. Montenegro descreveu áreas camponesas como “bases de guerrilha”, falou em “guerra irregular” e “guerra híbrida” e afirmou que o objetivo seria constituir “áreas liberadas”, controlar territórios e estabelecer leis próprias.

Análise: Operações do EUA na Venezuela são parte da estratégia para combater a Revolução no subcontinente e dissuadir rivais; Brasil está na mira – A Nova Democracia
O discurso da “guerra ao narcoterrorismo” abre a possibilidade de que, em caso de intensificação da luta popular no Brasil ou sob a justificativa do “combate ao tráfico de drogas”, o país seja tratado como alvo de intervenções. Como visto, o risco não é abstrato e está inscrito nos próprios documentos estratégicos de Washington.
Essa não foi a primeira vez que a LCP foi difamada com epítetos de “terrorismo”.
No mesmo mês e ano, o então comandante-geral da PM-RO, Régis Braguin, classificou uma área associada à LCP como “território de guerrilha”, afirmou que o grupo utilizava “técnicas de guerrilha” e vinculou um dos homens perseguidos pela polícia ao CV. Em 2026, já candidato, Braguin afirmou ter utilizado táticas e operações “contraguerrilha” nas ações contra a LCP e divulgou propaganda colocando, lado a lado como alvos, as siglas CV, PCC e LCP. Em 2023, a 15 de março, o deputado federal extremista de direita, Marcos Pollon, apresentou o Requerimento de Informação nº 487/2023, dirigido à Casa Civil do governo oportunista de Luiz Inácio, perguntando quais medidas o governo adotava para “combater o grupo terrorista” LCP.
Antes, em 2020, depois da morte de dois policiais militares numa área de conflito agrário em Nova Mutum Paraná (RO), a Polícia Civil afirmou que os responsáveis pertenciam à LCP e desencadeou, juntamente com a PM, a “Operação Ordo”, inicialmente com 17 mandados de prisão preventiva e oito de busca e apreensão. A delegada responsável declarou então que os investigados formariam uma “organização criminosa fortemente armada”. A LCP negou participação nas mortes e denunciou que a acusação estava sendo utilizada para justificar o cerco à Área Tiago dos Santos. Reportagem da Repórter Brasil registrou posteriormente que o cerco policial à Liga se intensificou a partir daquele episódio e que policiais que patrulhavam a região passaram a descrevê-la aos jornalistas como área de uma “guerrilha”, advertindo à necessidade de cuidados especiais, promovendo censuras e perseguição aos jornalistas. Em seguida, em maio de 2021, numa apresentação oficial à Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa de Rondônia, o então comandante-geral da PM, coronel Alexandre Almeida, declarou que grupos relacionados à LCP estavam levando “terrorismo ao campo” e se desencadeou a “Operação Nova Mutum”, em outubro, “a maior operação policial” de Rondônia, segundo as “autoridades”, que contou com complexa integração entre operativos “contraterrorismo” do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), Choque, Batalhão de Fronteiras, Força Nacional de Segurança, unidades de policiamento aéreo, dezenas de drones, outros aparatos policiais de Rondônia e de estados vizinhos, o que levou à eliminação física do dirigente da LCP, Gedeon José Duque, amado pelas massas camponesas, e o respeitado militante da LCP, Rafael Gasparini Tedesco, por comandos do BOPE.

ASSISTA: ‘Ressurgimento do comunismo’ põe imperialismo ianque em alerta; AND explica em reportagem especial – A Nova Democracia
Reportagem especial mostra como o país Estados Unidos (EUA), depois de proclamar o “fim do comunismo”, articula agora uma política contrarrevolucionária preventiva internacional contra comunistas, anti-imperialistas e movimentos populares.
A construção do “inimigo terrorista” no Brasil, compaginado agora com a Estratégia contrainsurgente ianque, não começou na presente década.
A associação entre a LCP, “guerrilha” e narcotráfico, contudo, é anterior à atual ofensiva norte-americana. Em setembro de 2008, o major da Polícia Ambiental de Rondônia Josenildo Nascimento acusou publicamente a Liga de “manter vínculos com as FARC” e de “comprar armas com dinheiro da cocaína”, acusação que a LCP negou e desafiou o oficial a comprovar. Meses antes, o secretário-adjunto de Segurança de Rondônia, Cezar Pizzano, havia afirmado em audiência na Câmara dos Deputados, em Brasília, que a organização recebia “orientação e treinamento” das FARC e do PCP, associado ao nome “Sendero Luminoso”. Na mesma audiência, porém, o delegado Marcelo Salvio Rezende Vieira, representante do Ministério da Justiça, afirmou que a Polícia Federal não possuía indícios que confirmassem as verborrágicas acusações.
No entanto, a acusação chegou diretamente aos aparelhos diplomáticos do EUA. Um telegrama secreto enviado a Washington pelo então embaixador Clifford Sobel registra que, em março de 2008, o então presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, Heráclito Fortes, alertou a embaixada sobre uma suposta força guerrilheira “similar às FARC” operando em Rondônia e identificou nominalmente a LCP. O documento foi classificado sob a rubrica de terrorismo e dizia que Heráclito Fortes suspeitava de apoio estrangeiro à LCP; Sobel registrou, porém, que a embaixada não dispunha de informações suficientes para avaliar a exatidão e a gravidade das acusações. Ou seja: quase duas décadas antes da atual política de Washington contra organizações classificadas como “narcoterroristas”, a LCP já aparecia em comunicações oficiais destinadas ao governo ianque sob o enquadramento de possível guerrilha com supostas conexões internacionais.

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