Quarenta e cinco anos depois do início da epidemia de HIV, a ciência consegue falar de uma palavra que durante muito tempo pareceu distante: cura.
Ela ainda não existe como um tratamento simples e disponível para quem vive com o vírus. Mas já deixou de ser apenas uma possibilidade teórica. Segundo a Sociedade Internacional de AIDS (IAS, na sigla em inglês), 13 pessoas são consideradas curadas do HIV — todas em situações muito específicas, principalmente após transplantes de células-tronco feitos para tratar cânceres graves.
O desafio agora é outro: conseguir o mesmo resultado sem depender de um transplante de medula, procedimento de alto risco que não é indicado para tratar o HIV.
No Brasil, uma das pesquisas que tentam chegar a esse objetivo é conduzida pelo infectologista Ricardo Diaz, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
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“A gente está mais próximo agora. Então, é possível que a gente ainda consiga, nos próximos anos, observar alguma coisa diferente, que é a cura das pessoas sem precisar de um transplante de medula e começar a aumentar essa escala”, afirma Diaz.
Para entender por que isso ainda é tão difícil, é preciso olhar para uma característica do próprio HIV: a capacidade de se esconder dentro das células do organismo.
Registro de uma transmissão colorizada de numerosas partículas do vírus HIV replicando-se a partir de uma célula T.
NIAID
O vírus que fica escondido
Os medicamentos antirretrovirais disponíveis hoje conseguem impedir que o HIV se multiplique e reduzir a quantidade de vírus no sangue a níveis indetectáveis.
Com o tratamento correto, uma pessoa pode ter boa qualidade de vida e chegar à carga viral indetectável, condição em que o HIV não é transmitido por via sexual.
O tratamento, porém, não elimina todo o vírus.
Parte do HIV permanece dentro de algumas células, principalmente do sistema de defesa, sem se multiplicar. Esses esconderijos são chamados de reservatórios virais.
➡️ Como o vírus está praticamente adormecido, os medicamentos não conseguem atingi-lo da mesma forma que combatem o HIV em atividade.
Por isso, quando o tratamento é interrompido, o vírus que estava escondido pode voltar a se multiplicar.
“O reservatório viral, que é a persistência do vírus, é o grande obstáculo para a cura”, explica Diaz.
Justamente por isso, eliminar ou controlar de forma permanente esse reservatório virou uma das principais frentes da pesquisa mundial sobre cura do HIV.
Células CD4 infectadas pelo HIV passam a ser usadas pelo vírus para produzir novas cópias.
Reprodução/AboutKidsHealth.ca
A prova de que a cura é possível
Os casos já registrados de cura mostraram que eliminar o HIV do organismo é possível. O primeiro deles foi o americano Timothy Ray Brown, conhecido como “paciente de Berlim”.
Ele e os demais pacientes curados precisavam de transplantes para tratar doenças graves, como leucemia ou linfoma. Em alguns desses casos, os doadores tinham uma alteração genética que dificulta a entrada do HIV nas células.
O transplante também substitui grande parte das células do sistema imunológico e pode ajudar a eliminar células que ainda carregavam o vírus.
Mas esse caminho não pode ser reproduzido simplesmente em milhões de pessoas com HIV. O transplante traz riscos importantes e só se justifica quando há outra doença grave que exige o procedimento.
Por isso, os pesquisadores tentam descobrir quais mecanismos levaram à cura nesses pacientes e como reproduzi-los de maneira mais segura.
A infectologista e pesquisadora australiana Sharon Lewin, uma das principais especialistas mundiais em cura do HIV, afirma que provavelmente vários mecanismos atuam ao mesmo tempo nos casos de transplante.
Segundo ela, novas abordagens que reforçam a resposta imunológica já conseguiram fazer alguns participantes de estudos controlar o vírus mesmo depois da suspensão dos antirretrovirais.
“Acho que a cura será possível sem transplante. Ensaios clínicos recentes com anticorpos e também com anti-PD-1 [tipo de imunoterapia que estimula a resposta do sistema imunológico] mostraram que, em alguns participantes, a imunidade natural específica contra o HIV pode ser reforçada o suficiente para permitir que eles controlem a replicação do vírus mesmo sem a terapia antirretroviral”, afirma Lewin.
Em 4 de março de 2019, Timothy Ray Brown foi fotografado em Seattle, nos Estados Unidos
Manuel Valdes/AP
O paciente de São Paulo
Uma dessas tentativas ganhou atenção internacional justamente no Brasil.
Em um estudo liderado por Diaz, um paciente que vivia com HIV recebeu uma combinação de medicamentos e outras intervenções que buscavam atingir o reservatório e fortalecer a resposta do sistema imunológico.
Depois da interrupção dos antirretrovirais, ele ficou cerca de um ano em remissão, sem sinais detectáveis do vírus em exames. O HIV, porém, voltou posteriormente.
O caso ficou conhecido como “paciente de São Paulo”.
Para Diaz, o resultado chamou atenção porque o paciente chegou a apresentar características semelhantes às observadas em pessoas curadas por transplante, apesar de não ter passado pelo procedimento.
O caso, porém, também mostrou uma das dificuldades desse campo: um período sem vírus detectável não significa necessariamente que o HIV desapareceu do organismo. Pequenas quantidades podem permanecer escondidas e voltar a se multiplicar meses ou até anos depois.
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Acordar ou manter o HIV adormecido
Entre as estratégias em estudo, uma tenta “acordar” o HIV escondido para que as células infectadas possam ser eliminadas. Outra busca fazer o contrário: manter o vírus silenciado de forma permanente, mesmo sem os antirretrovirais.
Também são testados anticorpos, terapias celulares e edição genética. Na Unifesp, a equipe de Ricardo Diaz prepara um estudo de fase 2 com cerca de 60 voluntários para testar uma combinação de estratégias.
Nenhuma delas, até agora, resultou em uma cura segura e disponível para a população.
Mas os avanços no tratamento transformaram o HIV em uma condição controlável, e a prevenção também ganhou novas ferramentas, como a PrEP. A cura, porém, ainda exige estudos longos e acompanhamento por anos.
“A gente mostra os casos de sucesso, mas registra os casos que deram errado também. Não é uma coisa que é 100%. Todo esse processo científico é longo”, diz Diaz.
Hoje, a ciência já sabe que o HIV pode ser eliminado ou controlado por longos períodos sem medicamentos em casos raros.
O desafio é transformar esses resultados em uma estratégia segura, duradoura e acessível.
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