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Sistema soja-milho aumenta produtividade e rentabilidade, aponta estudo


O cultivo sequencial de soja e milho aumenta a produtividade, reduz o custo relativo com fertilizantes e melhora a rentabilidade da produção. Isso é o que aponta um estudo conduzido pela Agroicone, Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e Fundação Mato Grosso.

A pesquisa acompanhou 15 safras consecutivas, entre 2008/09 e 2022/23, em uma área experimental localizada em Itiquira (MT). Os pesquisadores compararam cinco sistemas de produção: soja em monocultura com plantio direto, soja em monocultura com plantio convencional e soja em sucessão com milho, braquiária ou milheto.

Ao longo do período, a produtividade média da soja cultivada após o milho chegou a 65,89 sacas por hectare. O resultado ficou acima dos 52,15 sacas por hectare registrados na monocultura em plantio direto e das 54,36 sacas no plantio convencional.

A sucessão com braquiária apresentou desempenho semelhante, com média de 66,47 sacas por hectare. Segundo os pesquisadores, além de elevar a produtividade média, os sistemas de sucessão apresentaram menor oscilação entre as safras.

A diferença foi mais evidente em períodos de estresse hídrico. Nas safras 2014/15 e 2020/21, marcadas por déficit de chuvas, a produtividade da monocultura caiu para menos de 20 sacas por hectare em parte dos blocos experimentais, enquanto os sistemas de sucessão mantiveram resultados próximos de 50 sacas.

O maior rendimento de toda a série também foi registrado no sistema soja-milho com 91,74 sacas por hectare na safra 2018/19.

“Além da média mais alta, os sistemas de sucessão também oscilaram menos ano a ano ao longo das quinze safras, uma estabilidade que ajuda a proteger o produtor da variação climática entre uma safra e outra”, afirma Sofia Arantes, pesquisadora da Agroicone.

Fertilizantes

O estudo também identificou uma redução no custo de fertilizantes por unidade de soja produzida nos sistemas de sucessão. Embora a mesma dose de fertilizante tenha sido aplicada em todos os sistemas durante o experimento, o custo médio ficou em US$ 9,28 por saca no sistema soja-milho e em US$ 9,25 na sucessão soja-braquiária.

Na monocultura, o custo médio chegou a US$ 10,22 por saca no plantio direto e a US$ 10,07 no sistema convencional. Na safra 2014/15, o plantio convencional registrou o maior custo da série, de US$ 16,26 por saca.

De acordo com os pesquisadores, o resultado está relacionado à capacidade das culturas de sucessão de reciclar nutrientes e melhorar as condições físicas e biológicas do solo. As raízes do milho e da braquiária podem absorver nutrientes em camadas mais profundas, que posteriormente retornam à superfície com a decomposição dos resíduos.

A maior cobertura do solo também reduz perdas por erosão e evaporação e favorece a infiltração e o armazenamento de água.

“Esses processos elevam a eficiência no uso de água e nutrientes e aumentam a produtividade da soja em sucessão. Assim, mesmo com a aplicação da mesma quantidade de fertilizante, os sistemas diversificados apresentam menor custo por unidade de soja produzida e maior retorno econômico”, explica Luciane Chiodi Bachion, pesquisadora e sócia da Agroicone.

Rentabilidade

O sistema soja-milho também apresentou o melhor desempenho econômico entre os modelos avaliados. Em três das 15 safras analisadas, 2011/12, 2020/21 e 2021/22, o retorno superou US$ 30 por saca.

A vantagem está associada à possibilidade de realizar duas colheitas comerciais na mesma área dentro do ano agrícola. Além de contribuir para a produtividade da soja, o milho gera uma segunda fonte de receita e permite diluir custos fixos relacionados a máquinas, mão de obra e financiamento da terra.

A diferença ficou mais evidente em anos de condições climáticas adversas. Na safra 2014/15, por exemplo, enquanto os demais sistemas praticamente zeraram o retorno financeiro, o soja-milho conseguiu manter margem com a receita obtida com a comercialização do milho.

Já a braquiária e o milheto, utilizados como culturas de cobertura, não geram receita direta com a venda de uma segunda colheita. Ainda assim, segundo o estudo, essas culturas contribuíram para elevar a produtividade da soja e, consequentemente, a receita por hectare.

Potencial para biocombustíveis

O sistema também apresenta potencial para ampliar a produção de biocombustíveis sem necessidade de expansão da área cultivada.

Considerando as produtividades registradas nos experimentos, um hectare de soja-milho teria potencial para gerar mais de 4 mil litros de biocombustíveis, somando biodiesel produzido a partir da soja, etanol de milho e óleo técnico de milho.

Segundo o estudo, o volume é quase sete vezes superior ao potencial de produção de biodiesel obtido a partir de um hectare de monocultura de soja.

Para os pesquisadores, o resultado reforça o papel da diversificação agrícola na oferta de matéria-prima para a indústria de biocombustíveis e na utilização mais eficiente da terra.

Solo e resiliência

Os efeitos da sucessão também se acumulam ao longo do tempo. A alternância de culturas favorece a ciclagem de nutrientes, aumenta a matéria orgânica e melhora a estrutura e a capacidade de infiltração de água do solo, além de estimular a atividade de microrganismos.

O sistema também pode ajudar a interromper ciclos de pragas e doenças associados à monocultura, reduzindo a pressão sobre as lavouras.

“Quando diferentes culturas ocupam a área ao longo dos anos, o solo passa a funcionar de forma mais eficiente, armazenando melhor água e nutrientes e oferecendo condições mais favoráveis para o desenvolvimento da planta”, afirma Luís Guilherme, pesquisador envolvido no estudo.

Os pesquisadores avaliam que esses efeitos são especialmente relevantes em períodos de seca, quando solos mais estruturados e biologicamente ativos podem aumentar a capacidade das plantas de suportar o estresse hídrico.

“As evidências que reunimos confirmam que a diversificação no campo é uma estratégia eficaz para otimizar o uso da terra, aumentar o rendimento financeiro, a produtividade, a resiliência e a eficiência no uso de fertilizantes, apoiando o movimento de transição para uma economia de baixo carbono”, conclui Sofia Arantes.



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