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Inteligência artificial é um câncer, diz criador de Monkey Island e Death By Scrolling


Poucos nomes carregam tanto peso na história dos videogames quanto Ron Gilbert. Responsável por revolucionar os jogos adventures com a LucasArts e mente por trás de clássicos como Maniac Mansion e os dois primeiros Monkey Island, o desenvolvedor continua criando jogos mais de quatro décadas após iniciar sua carreira.

Em 2025, o desenvolvedor lançou Death By Scrolling, um RPG roguelike ambientado em uma versão burocrática do Purgatório, o que garantiu uma oportunidade para conversar com o Voxel sobre a evolução da indústria dos games. Além de comentar sua trajetória, o designer compartilhou opiniões sobre marketing, desenvolvimento independente, Steam e inteligência artificial.

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Entre todas as respostas, uma delas chamou atenção pela objetividade. Questionado sobre o futuro da inteligência artificial na criação de jogos, Gilbert foi direto: “IA é um câncer“. A declaração resume a visão crítica de um dos desenvolvedores mais influentes da indústria em um momento em que ferramentas de inteligência artificial generativa ganham cada vez mais espaço nos estúdios e no mercado de games.

Ron Gilbert dispara contra inteligência artificial

Perguntado sobre como enxerga o impacto da inteligência artificial no desenvolvimento de jogos nos próximos anos, Ron Gilbert não elaborou uma análise extensa nem tentou encontrar um meio-termo. Sua resposta foi curta e contundente: “IA é um câncer”.

Embora não tenha aprofundado os motivos da declaração durante a entrevista, a fala reforça um movimento que vem crescendo entre desenvolvedores veteranos e profissionais criativos. Nos últimos meses, diversos desenvolvedores demonstraram preocupação com o uso de IA para substituir processos artísticos, roteiros, programação e outras áreas tradicionalmente conduzidas por pessoas.

A discussão acontece justamente em um período em que grandes empresas do setor investem em ferramentas de IA para acelerar produção e reduzir custos. Além disso, cada vez mais desenvolvedores independentes utilizam a tecnologia para fazer jogos rápidos e de baixa qualidade.

O maior desafio dos games mudou completamente

Ao refletir sobre as quatro décadas de carreira, Gilbert afirmou que a maior transformação da indústria dos games não foi tecnológica. Para ele, a principal mudança foi a expansão gigantesca do público consumidor.

Segundo o desenvolvedor, videogames deixaram de ser um hobby de nicho para se tornarem uma forma de entretenimento praticamente universal. “Todo mundo joga videogame hoje”, resumiu. Na visão dele, esse crescimento também permitiu o surgimento de uma enorme variedade de estilos e gêneros.

Essa mesma expansão, porém, trouxe um novo problema para quem produz jogos independentes. Atualmente, centenas de games são lançados semanalmente, o que torna a competição no setor alta e cada vez mais desafiadora.

Steam tornou descobrir jogos muito mais difícil

Questionado sobre os milhares de lançamentos anuais na Steam, Gilbert explicou que o desafio enfrentado pelos estúdios mudou completamente em comparação aos anos 1980 e 1990. No passado, segundo ele, o problema era conseguir colocar um jogo nas prateleiras das lojas físicas.

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Hoje, por outro lado, a dificuldade está em fazer com que o público descubra um título em meio à enorme quantidade de lançamentos disponíveis nas plataformas digitais. O desenvolvedor admite que não possui uma solução definitiva para esse cenário.

Na sua avaliação, por mais frustrante que isso possa parecer para novos criadores, existe um componente de sorte no processo. “As pessoas odeiam ouvir isso, mas tudo depende de sorte”, afirmou.

“Faço os jogos que eu gostaria de jogar”

Mesmo tendo criado alguns dos adventures mais importantes da história, Gilbert nunca se sentiu preso a um único gênero. Segundo ele, existe um princípio que permanece inalterado desde Maniac Mansion até Return to Monkey Island e, agora, Death By Scrolling.

“Eu faço os jogos que gostaria de jogar”, explicou. O desenvolvedor afirma que nunca buscou seguir tendências do mercado e prefere criar experiências alinhadas aos seus próprios interesses como jogador.

Essa filosofia também explica a mudança para um RPG roguelike de ação, bastante diferente dos adventures narrativos que marcaram sua carreira. Gilbert conta que simplesmente gosta desse tipo de jogo e decidiu desenvolver algo que ele próprio gostaria de experimentar.

Death By Scrolling satiriza o mundo corporativo

O novo projeto de Ron Gilbert leva os jogadores para um Purgatório administrado como se fosse uma grande empresa. No universo do game, até mesmo a vida após a morte foi transformada em um sistema burocrático, onde é preciso pagar uma taxa absurda ao Barqueiro para seguir viagem.

Segundo Gilbert, a ideia nasceu justamente da sensação de que grandes corporações estão cada vez mais presentes em todos os aspectos da sociedade. Para ele, imaginar empresas assumindo o controle até mesmo do além-vida parecia o próximo passo lógico para uma sátira.

Além da temática bem-humorada, Death By Scrolling mistura progressão típica de RPG, elementos roguelike e uma mecânica curiosa: a tela sobe constantemente, obrigando o jogador a avançar sem parar enquanto foge do Ceifador e enfrenta monstros pelo caminho.

Lançado em outubro de 2025, o game conta com reviews positivas na Steam e pode ser comprado por menos de R$ 20 em promoção. O título também conta com legendas em português brasileiro.

Ron Gilbert dá conselho para novatos

Mesmo depois de décadas criando videogames, Gilbert afirma que Death By Scrolling trouxe aprendizados inéditos. Segundo ele, o desenvolvimento mostrou o quanto jogadores gostam de entender profundamente estatísticas, atributos e sistemas internos dos RPGs.

O designer brinca dizendo que deveria ter percebido isso muito antes, especialmente após passar anos jogando World of Warcraft. A experiência reforçou como parte da comunidade aprecia analisar números, comparar equipamentos e descobrir quais combinações oferecem o melhor desempenho possível.

“Divirta-se e não espere ficar rico.”

Além disso, Ron Gilbert também deixou uma mensagem para quem pretende lançar o primeiro jogo na Steam em 2026. Em vez de incentivar a busca por sucesso financeiro imediato, o designer recomenda que novos criadores desenvolvam projetos pelos quais realmente sintam paixão.

Para ele, fazer jogos deve ser algo divertido, e não apenas uma tentativa de enriquecer rapidamente. “Divirta-se e não espere ficar rico.”

Por fim, Gilbert também ressaltou que o fracasso faz parte do processo de aprendizado no mercado de games. “Você vai fracassar dez vezes antes de ter sucesso. Então comece a fracassar”, aconselhou o experiente desenvolvedor.



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