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Irã aposta no custo da guerra para Trump e joga com o tempo, diz professor


Os iranianos anunciaram a retirada da mesa de negociação após ações militares de Israel no Líbano, enquanto o presidente americano, Donald Trump, afirmou que “não poderia ligar menos” para um possível acordo, mesmo negociando de forma indireta com o Hezbollah por meio do presidente libanês.

Para o cientista político e professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) Feliciano de Sá Guimarães ao WW, a postura iraniana faz parte de uma estratégia deliberada.

“O anúncio de que eles se retirariam da negociação por conta dos ataques ao Hezbollah faz parte da estratégia iraniana de postergar a negociação ao máximo possível”, afirmou Feliciano.

Estratégia de desgaste

Segundo o especialista, Teerã conta com três fatores para enfraquecer a posição americana: a impaciência de Trump, a aproximação das eleições americanas de meio termo e o custo doméstico da guerra para os Estados Unidos.

“O Irã busca um ganho de tempo para melhorar suas fichas de barganha à medida que a negociação caminha”, explicou Feliciano.

Na avaliação dele, os ataques americanos continuam, mas sem a mesma envergadura registrada nos meses anteriores.

Feliciano elencou os temas que considera já consolidados nas tratativas.

Entre eles estão uma reabertura gradual do Estreito de Ormuz com normalização do tráfego marítimo, uma redução ou suspensão parcial do bloqueio naval americano, algum alívio econômico para Teerã — seja por meio de flexibilização de sanções ou do descongelamento de ativos iranianos no sistema financeiro internacional — e a retomada das exportações iranianas a níveis próximos aos anteriores à guerra.

Por outro lado, Teerã busca sistematicamente a retirada das tropas americanas do entorno geográfico do Irã, o que, segundo Feliciano, não deve acontecer.

Os Estados Unidos, por sua vez, seguem pressionando pela resolução da questão nuclear, que inclui o destino dos 400kg de urânio enriquecido que o Irã já possui — se seriam retirados por tropas americanas, transferidos para outro país ou destruídos dentro do próprio território iraniano.

Derrota estratégica para EUA e Israel?

Feliciano alertou que uma normalização do Estreito de Ormuz com algum controle remanescente do Irã sobre a via marítima — algo que não existia antes da guerra — já representaria “uma derrota estratégica para os Estados Unidos e para Israel também”.

Além disso, sem a resolução da questão nuclear, que seria postergada para o futuro, será difícil para Trump vender esse resultado internamente, caso essa tendência se confirme nas negociações.



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