A “imprensa lixo” de Rondônia acusa a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) de promover “um ataque armado” que levou à morte um policial civil e deixou outros quatro indivíduos feridos em Nova Mutum Paraná, em 14 de abril. O ataque, que, segundo a delegada Leisaloma Carvalho, contou com a participação de “dez pessoas armadas de fuzis”, ocorreu nas dependências da antiga fazenda NorBrasil, ligada a Antônio Martins, o latifundiário “Galo Velho”, acusado de promover violência contra os camponeses por meio de policiais a soldo e promover grilagem de terras, onde há anos se desenrola uma dura batalha pela terra.
Segundo os portais financiados pelo latifúndio rondoniense, apelidados pelo movimento camponês de “imprensa lixo de Rondônia”, o policial civil aposentado fazia escolta de “funcionários” da NorBrasil. No dia 14 de abril, o grupo saiu de uma caminhonete para almoçar e, ao retornar, foi “surpreendido por homens armados escondidos atrás da residência” da fazenda. No ataque, o policial foi morto e os demais indivíduos, que segundo o latifundiário eram funcionários que cumpriam outros “serviços”, foram feridos.
Em áudio divulgado, um dos indivíduos que “cumpriam serviço” na fazenda diz que foi novamente atacado e clama por apoio a um outro indivíduo, aparentemente “colega” seu, que poderia ajudar na situação de conflito: “Me ajuda cara! Fui atacado mais uma vez, eu não sei dos colega porra! Nós tava tudo dentro de casa, chegamo no pé da porta e foi bala, mano, foi bala, bala, mano, e eu corri. Eu to indo pa… preciso do carro de apoio, mano!”
Tropas do 9° Batalhão da PM-RO, sob comando do tenente-coronel Wesley, foram acionadas pelos funcionários do latifúndio. Porém, ao chegarem no local, encontraram apenas a caminhonete atacada, já totalmente carbonizada. O caso segue em investigação pela Polícia Civil. A polícia apenas declarou ter encontrado um estojo com munições de armas de grosso calibre.
Até o momento, a LCP não se pronunciou sobre a acusação. Em outras oportunidades, respondendo à acusação de “terrorismo” e “organização criminosa”, o movimento declarou que “a LCP não é organização criminosa, muito menos terrorista, é organização classista e combativa dos camponeses pobres do Brasil. Defendemos e lutamos pela Revolução Agrária para extirpar definitivamente o atraso, a miséria, a fome e a brutal exploração secular contra o nosso povo, principalmente camponeses, indígenas e quilombolas! Para acabar com as injustiças de um punhado de biliardários donos de tudo e parasitas da Nação e da imensa maioria sem nada! Lutamos e entregamos a terra aos camponeses pobres sem terra ou com pouca terra. E não abrimos mão da autodefesa armada das massas diante da vossa secular violência reacionária e privilégios de ter nas mãos a força policial do velho Estado”.
Latifúndio ‘Fazenda NorBrasil’ é palco de conflito entre camponeses e latifundiários
Essa não é a primeira acusação contra a LCP promovida pelos latifúndios em Nova Mutum Paraná.
O latifundiário João Martins, sobrinho de “Galo Velho”, e conhecido como o influencer do agro rondoniense e responsável pela contratação ilegal de policiais para serviços de pistolagem, também acusou a LCP de promover uma emboscada em sua caminhonete em novembro de 2025.
Em seu relato desesperado, disse: “Nunca passei um perrengue desse na minha vida, ‘mocado’ dentro do mato à noite com um tiro de fuzil no pé. A caminhonete foi embora. Tomou mais de 100 tiros de fuzil, varou a blindagem e pegou no pé”, alega ele, que depois corrigiu a quantidade de disparos para “200 tiros de fuzil”. “Teve hora que eu quase dei tiro na cabeça, os caras estavam quase me encontrando. Se pega, tortura e faz o caralho. É uma morte muito sofrida, você tá doido”, disse, confirmando estar armado. Ainda segundo a versão, a caminhonete teria sido incendiada por camponeses da LCP, o que não há confirmações.
Em seus relatos à imprensa reacionária do estado, disse que teria se aproximado da região que separa a sede da fazenda NorBrasil e as áreas camponesas e que, nesse momento, foi alvejado quando deu ré com sua caminhonete. João não explicou, em sua versão, desmentida pelos camponeses, por qual razão teria ido àquela área, onde ele mesmo admitiu contratar policiais para repelir as tomadas de terras camponesas, que sabidamente são conflagradas. Em um dos relatos, disse: “Sorte que era blindada [a caminhonete], senão tinha morrido todo mundo”, indicando a presença de mais pessoas em seu veículo, o que se choca com a versão dele mesmo de que estava sozinho. Os camponeses afirmam que, com João, estavam paramilitares que atacaram a área camponesa. João disse ainda que rastejou por mais de um quilômetro, com o ferimento, no meio do mato, ficando escondido por 12 horas.
Autodefesa camponesa responde a ataque de bando paramilitar em RO; latifundiário João Martins é alvejado no pé – A Nova Democracia
No acampamento, a pistolagem acompanhada de João Martins iniciou um ataque a tiros, disparando na direção de homens, mulheres e crianças que ali vivem. Em resposta, os camponeses defenderam-se da maneira que podiam e, segundo os camponeses, o latifundiário João Martins chegou a ser baleado no pé. “A autodefesa armada dos camponeses repeliu vitoriosamente mais um ataque armado naquela região”, relatou à redação um camponês, em condição de anonimato.
João Martins e ‘Galo Velho’: responsáveis pela fazenda NorBrasil
João Martins é sobrinho de Antônio Martins, conhecido como “Galo Velho”, que alega ser proprietário da fazenda NorBrasil, localizada no distrito de Nova Mutum Paraná, Porto Velho, Rondônia. A fazenda é acusada de uma série de irregularidades e, por isso, é palco de conflitos há anos, sobretudo depois que a LCP conquistou a área Tiago Campin dos Santos nas imediações do latifúndio.
“Galo Velho”, tio do João e pilar central das disputas e conflitos com os camponeses pobres pela posse da terra, tem uma extensa lista de acusações pelas quais responde legalmente. Ele é investigado e denunciado por uma série de crimes, segundo os próprios órgãos de repressão e investigação, como o Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal (PF).
Em 2020, o MPF deflagrou a operação “Amicus Regem”, na qual denunciou Antônio Martins como o líder de uma organização criminosa que conseguiu lucrar mais de R$ 330 milhões em grilagem de terras e fraudes no estado de Rondônia entre 2011 e 2015. Com base nesse processo, a PF lançou, dois anos depois, a “Operação Lamassu”. Nela, a PF alegou ter desarticulado um grupo paramilitar rural composto por policiais civis e militares e apontou, em relatório, segundo vários jornais de Rondônia, que Antônio Martins tinha o controle absoluto da fazenda NorBrasil/Arco-Íris, chegando a “contratar inúmeros policiais para o exercício de funções de segurança privada, sem as devidas autorizações de chefias imediatas, com a utilização de viaturas e armas de fogo pertencentes à corporação, pagando-lhes quantias em dinheiro para realização de rondas”. Em 2023, “Galo Velho” constava como foragido da justiça, com um mandado de prisão em aberto e um habeas corpus negado pelo Supremo Tribunal de Justiça (STJ).
Antônio Martins, em entrevista a repórter de AND admitiu a prática de contratação de policiais para segurança privada:
— Eu contratar policiais para proteger meu patrimônio não é crime — disse Antônio Martins por telefone à reportagem de AND
— Então o que vocês fazem é contratar policiais para proteger a fazenda? — questionou o AND.
— Na verdade, é isso que nós fizemos, mas a gente nem fala isso nos processos, né? A verdade que eles alegaram é isso. Como a gente ‘tá respondendo isso e é uma perseguição, a gente não fala que a gente contrata, né? — admite João.
— A verdade é isso, a gente não tem quem fique na fazenda. Eles [a LCP] atacam com uns 30 homens, 15 a 20 homens. Quem é que vai lá? Ninguém vai. Você tem que contratar profissionais para proteger seu patrimônio, não é verdade? — diz Martins, e continua:
— E outra: o juiz, o desembargador Jorge Leal, na própria liminar dele colocou que a gente contratar, a gente usar nosso recurso para proteger nossa fazenda, não é crime. Se tiver crime, não é crime — tenta explicar João, numa lógica um tanto peculiar. — Se tiver alguma coisa ilegal, é problema dos policiais na Corregedoria deles, né? Não é problema meu, eu tô protegendo o meu patrimônio. Se tem alguém errado é quem está fazendo bico — dispara, responsabilizando os policiais por eventuais crimes.
Para João Martins, isso não é crime de constituir “milícia” – ou, melhor dizendo, grupo paramilitar. “Milícia é eu contratar civis, mais de três, para roubar e para cometer crime. Isso é milícia. Agora, eu contratar policiais para proteger meu patrimônio não é crime”. Na verdade, o artigo 288A do Decreto-lei nº 2.848 do Código Penal, de 7 de dezembro de 1940, define milícia privada: “constituir, organizar, integrar, manter ou custear organização paramilitar, milícia particular, grupo ou esquadrão com a finalidade de praticar qualquer dos crimes previstos neste Código”.
“Galo Velho”, no entanto, não é apenas acusado de contratar policiais, o que agora foi admitido por seu sobrinho. Ele é investigado e denunciado por uma série de crimes supostamente cometidos, segundo os próprios órgãos de repressão e investigação, demonstrando que, para o Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal (PF), a contratação de policiais para “segurança” se insere num contexto muito mais abrangente para cometimento de crimes.
Na fazenda NorBrasil, estão instaladas mais de 600 famílias camponesas em vários acampamentos, cujo central é a área Tiago Campin dos Santos. A luta pela terra, na localidade, é longa e teve um pico em 2020-2021. Nesse período, os camponeses pobres travaram grandes batalhas contra policiais militares e “seguranças privados” (segundo os camponeses, pistoleiros) em defesa das Áreas Tiago Campin dos Santos, Ademar Ferreira e Dois Irmãos, organizadas pela LCP. Em 2021, a LCP denunciou o cerco policial, a tortura de camponeses e a execução de pelo menos seis moradores das áreas em Nova Mutum Paraná: Amarildo, Amaral e Kevin, fuzilados na Área Ademar Ferreira, construída nos latifúndios fazenda Santa Carmem e Boi Sossego, e de Rafael Gasparini e Gedeon José Duque, assassinados na área Dois Amigos. Mesmo assim, os camponeses resistiram e permaneceram nas terras.

Exclusivo: ‘Se tem algo ilegal, é com a Corregedoria deles’, diz sobrinho do ‘Galo Velho’ ao admitir contratação de policiais contra camponeses – A Nova Democracia
Em resposta, LCP diz que a violência contra a luta pela terra não vai parar o campesinato e dispara: “Autodefesa armada de massas nunca foi terrorismo, senhores, é um direito legítimo diante de vossa violência secular e desbragada”.
Camponeses acusam João de ser ‘chefe de pistolagem’
Segundo vários relatos de camponeses à reportagem de AND que visitou a área Tiago Campin dos Santos em novembro de 2025, João Martins é responsável por chefiar ataques contra as famílias camponesas.
Os camponeses dizem que João Martins esteve pessoalmente envolvido na explosão de uma balsa e na destruição de uma ponte na área Tiago Campin dos Santos, há alguns dias. A ponte foi construída pelos camponeses com seus próprios equipamentos e madeiras. A destruição foi gravada e publicada nas “redes sociais”, de acordo com os relatos. “Era uma ponte importante porque facilitava o acesso à BR-364. Muitas pessoas usavam para trabalhar e levar os filhos para a escola”, conta um camponês, que não quis revelar o nome por questões de segurança. “Agora, não temos mais”.
O ataque contra a balsa foi feito no dia 21/11, segundo a versão dos camponeses. “Veio a Polícia Militar, o Bope, junto com João Martins e outros rapazes dele e tacaram fogo na balsa, jogaram as pranchas todas fora. Eles não deixavam a gente se aproximar”, contou uma camponesa, em condição de anonimato.

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