Eu estava aqui em Milão, esperando minha manicure terminar a cutícula enquanto folheava relatórios de mobilidade urbana, sim, porque perua informada lê relatório de mobilidade, quando minha fonte do agronegócio me mandou a história do Rota77. Um aplicativo de transporte nascido no Mato Grosso, com dois ex-motoristas cansados de pagar comissão para americano, que está chegando em 130 cidades sem fazer barulho de startup. Eu parei a manicure, pedi o uísque energético e li tudo duas vezes.
O modelo é o seguinte, claro e sem rodeio: o motorista paga uma mensalidade fixa, que varia de R$ 105 a R$ 460 conforme o porte da cidade, e fica com o valor integral de cada corrida. Uber e 99 cobram porcentagem por viagem, o Rota77 cobra um valor fixo mensal e sai da equação depois disso. Os fundadores, Oséias Santana e Carlos Henrique de Araújo, eram operador de máquinas e metalúrgico antes de virar motorista de app, perceberam o problema por dentro e resolveram criar a solução com recurso próprio, em cidade pequena, sem acelerador nem investidor gringo na foto de lançamento.
No ambiente de negócios, o movimento que chama atenção é o crescimento por indicação. A expansão para São Borja, no Rio Grande do Sul, em 2020, foi Carlos levando o aplicativo no carro, literalmente. Cada cidade tem um gestor local, e o modelo de licenciamento começa em R$ 900, o que explica por que a base de motoristas cresceu de forma orgânica sem campanha nacional. Ninguém no LinkedIn das grandes consultorias estava falando disso, e esse sumiço do radar é parte da estratégia.
Minha leitura de boteco com verniz de consultoria: o interior do Brasil tem uma relação com confiança e proximidade que aplicativo nacional de capital aberto nunca vai comprar com campanha. O Rota77 entendeu que gestor local que conhece o prefeito, o dono do posto e o vereador vale mais do que algoritmo de onboarding. A operação enxuta em cidade pequena é o laboratório perfeito para testar modelo antes de entrar em mercado competitivo, e os 61,48% de crescimento em 2025 indicam que o laboratório deu resultado.
E cá entre nós, a história de dois ex-motoristas fundando concorrente das maiores plataformas do mundo a partir de Nova Mutum é exatamente o tipo de narrativa que vira case de Harvard cinco anos depois, com palestra de R$ 80 mil, consultoria e livro. Oséias e Carlos, se isso acontecer, me chamem para o lançamento.

