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Padre Gallo: quem é o sacerdote italiano que empalhou 12 mil piranhas, exportou para a Europa e usou o dinheiro para obras no Brasil


O sacerdote italiano Giovanni Gallo (1927–2003), integrante da Companhia de Jesus, construiu uma trajetória comunitária e cultural na Ilha do Marajó (PA) a partir da década de 1970.

Atuando de forma multidisciplinar como padre, arqueólogo, museólogo e fotógrafo, Gallo organizou oficinas de capacitação local, financiou obras de infraestrutura rural por meio da exportação de piranhas empalhadas e fundou o Museu do Marajó.

Vocação religiosa e a transferência para a Amazônia

Nascido em Turim, na Itália, em 27 de abril de 1927, Giovanni Gallo ingressou na ordem dos jesuítas e foi enviado para a Amazônia brasileira em 1970. Três anos depois, em 1973, o sacerdote assumiu a paróquia do município de Santa Cruz do Arari e estabeleceu residência na Vila de Jenipapo.

Com a premissa de que o desenvolvimento social dos marajoaras dependia diretamente do fortalecimento da cultura local, o religioso deu início a um projeto de organização comunitária.

Na vila, promoveu cursos de corte e costura, culinária e artesanato, além de viabilizar a estruturação de um posto médico e de um centro comunitário.

A exportação de piranhas e as obras de infraestrutura

Em Santa Cruz do Arari, padre Gallo montou um laboratório comunitário e ensinou moradoras da região a embalsamar piranhas. Mobilizando redes de contato na Europa estabelecidas ao longo de sua formação, o sacerdote organizou a exportação de cerca de 12 mil piranhas empalhadas para a Itália.

A comercialização dos exemplares artesanais permitiu pagar a remuneração das trabalhadoras e custear intervenções de infraestrutura na localidade. Os recursos arrecadados financiaram a construção de 350 metros de pontes com madeira de lei, um trapiche comunitário, uma pista de pouso de 800 metros para aviões e um cemitério adaptado para o período das cheias na ilha.

O Museu do Marajó e o acervo comunitário

O montante remanescente da venda das piranhas empalhadas serviu como capital inicial para a fundação do Museu do Marajó, criado oficialmente em 16 de dezembro de 1981 em Santa Cruz do Arari e posteriormente transferido para o município de Cachoeira do Arari. O acervo da instituição reuniu fragmentos arqueológicos e cerâmicas doadas pelos próprios moradores da região.

No museu, Gallo desenvolveu expografias interativas com objetos cotidianos, entre as quais se destacou o dispositivo denominado “computador caipira”, que permitia a manipulação de painéis, barbantes e manivelas pelos visitantes. Naturalizado brasileiro, o religioso publicou obras sobre a dinâmica regional, como Marajó, a ditadura da água e O homem que implodiu, e viveu no estado do Pará até seu falecimento, em 7 de março de 2003, em Belém.

A reconstituição histórica da atuação de Giovanni Gallo e o mapeamento das redes sociopolíticas que viabilizaram suas obras foram documentados no artigo dos pesquisadores Karla de Oliveira e Luiz Carlos Borges, publicado na revista acadêmica Pesquisa Brasileira em Ciência da Informação e Biblioteconomia.



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