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Netanyahu teria sido avisado antes de ataque de 7 de outubro, diz jornal


O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, enfrentou uma forte reação política nesta terça-feira (8) devido a uma reportagem segundo a qual o presidente dos Emirados Árabes Unidos o havia alertado de uma grande operação do Hamas dias antes do ataque de 7 de outubro de 2023.

O Gabinete do Primeiro-Ministro classificou a reportagem como uma “mentira absoluta”. No entanto, com as eleições israelenses de outubro a menos de dois meses de distância, os rivais de Netanyahu aproveitaram a notícia como mais uma evidência do que descrevem como uma lista crescente de alertas ignorados por ele.

Os líderes dos quatro partidos de oposição — Gadi Eisenkot, Naftali Bennett, Avigdor Lieberman e Yair Golan — divulgaram uma rara declaração conjunta exigindo “uma investigação imediata e minuciosa” sobre as “falhas e o mau funcionamento” de Netanyahu.

“O público israelense tem o direito de saber: o que Netanyahu sabia, quando soube, por que não informou o aparato de segurança e por que não agiu para proteger os civis israelenses?”, dizia a declaração.

O ex-primeiro-ministro Naftali Bennett afirmou que a reportagem é “verdadeira”, escrevendo na rede social X que o suposto descaso do primeiro-ministro com os alertas equivale a “negligência criminosa”.

O aliado político de Bennett, o ex-primeiro-ministro Yair Lapid, disse que também havia alertado publicamente sobre um ataque antes de ele ocorrer, assim como fizeram altos funcionários de segurança de Israel e autoridades egípcias. “Se Netanyahu tivesse cumprido seu papel, o massacre teria sido evitado”, disse Lapid em um comunicado.

A reportagem, publicada no jornal Haaretz, baseou-se em informações de um livro a ser lançado pelos jornalistas israelenses Shlomi Eldar e Ruti Yuval.

O texto relatava que o presidente dos Emirados Árabes Unidos, xeique Mohammed bin Zayed, ligou para Netanyahu cerca de 10 dias antes de 7 de outubro e, durante uma conversa de 45 minutos, alertou-o de que o líder do Hamas em Gaza, Yahya Sinwar, estava planejando uma grande ação contra Israel que poderia causar derramamento de sangue e desestabilizar a região.

A reportagem citou uma mensagem que Sinwar transmitiu aos Emirados Árabes Unidos e a Israel por meio de um mediador palestino, em meados de setembro de 2023, alertando sobre um iminente “terremoto”.

O Haaretz informou que Netanyahu reagiu “relativamente com calma” às informações e garantiu a Bin Zayed que Israel estava preparado para qualquer cenário.

O Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos emitiu um comunicado na noite desta terça-feira afirmando que “não comenta notícias da mídia ou especulações sobre conversas entre líderes governamentais”, mas não negou a realização da ligação. “Quando necessário, todas as informações de inteligência relevantes foram e continuam sendo comunicadas entre as entidades competentes”, dizia a nota.

Uma fonte israelense a par do assunto afirmou que o gabinete de Netanyahu tentou fazer com que os Emirados Árabes Unidos negassem a reportagem do jornal Haaretz, mas o país concordou apenas em divulgar um comunicado sobre o compartilhamento de informações de inteligência.

O Gabinete do Primeiro-Ministro negou veementemente a reportagem, afirmando que Netanyahu “não falou com o presidente dos Emirados Árabes Unidos durante o período em questão e não recebeu nenhum aviso dele”.

A responsabilização como questão eleitoral

A reportagem surge num momento em que os rivais de Netanyahu trabalham para transformar a responsabilização pelos eventos de 7 de outubro — o ataque mais letal da história de Israel, durante o qual mais de 1.200 pessoas foram assassinadas e mais de 250 sequestradas para Gaza — em um tema central da campanha.

Netanyahu permanece no cargo há mais tempo do que quase todos os membros da cúpula de segurança de Israel daquela época. Desde o ataque, o ministro da Defesa, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e os diretores da Inteligência Militar, do Mossad e do Shin Bet renunciaram, foram afastados ou encerraram seus mandatos.

Gadi Eisenkot, apontado pelas pesquisas como o principal adversário de Netanyahu, disse que a reportagem  mostra que o atual primeiro-ministro “conduziu Israel às cegas” em direção às falhas de 7 de outubro e reiterou sua promessa de criar uma comissão de inquérito estatal caso seja eleito.

Quase três anos após o ataque, Netanyahu tem resistido às exigências de famílias enlutadas e sobreviventes de 7 de outubro para a criação de uma comissão independente que investigue as falhas de segurança e inteligência que permitiram ao Hamas realizar a operação.

Em vez disso, ele e seus aliados têm promovido uma narrativa que culpa os chefes de segurança por não o terem acordado na noite anterior ao ataque, apesar de haver indícios de inteligência de que uma ofensiva do Hamas era iminente.

No mês passado, sua esposa, Sara Netanyahu, sugeriu que Yair Golan — major-general da reserva e líder do partido de esquerda Democratas, que se dirigiu por conta própria à fronteira com Gaza em 7 de outubro para resgatar sobreviventes — tinha conhecimento prévio do ataque. Em entrevista ao Canal 14, emissora alinhada ao governo, ela questionou como Golan já estava “vestido e pronto” na madrugada daquele dia para seguir para o sul, “enquanto outros não sabiam de nada, inclusive o primeiro-ministro”.

Golan exigiu um pedido de desculpas pelo que classificou como uma “teoria da conspiração vil” e afirmou que moveria uma ação judicial por difamação, descrevendo a alegação como parte da tentativa de Netanyahu de “reescrever” os acontecimentos de 7 de outubro e se eximir de responsabilidade.

Após a reportagem do Haaretz, Golan escreveu no X que a narrativa do primeiro-ministro de que “não o acordaram” chegou ao fim. “Ele sabia, ele foi avisado.” Ele classificou o episódio não como um erro de julgamento, mas como um “abandono consciente e criminoso”.

Horas mais tarde, o partido Democratas intensificou sua campanha eleitoral contra Netanyahu, instalando um outdoor gigante sobre a principal rodovia de Tel Aviv com a seguinte frase: “O dossiê dos 1.200 assassinados – Causar a morte por negligência”.



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