Um dos locais mais áridos e famosos dos Estados Unidos foi atingido por uma enchente devastadora durante o fim de semana, deixando pelo menos uma pessoa morta e mais de uma dúzia de desaparecidos, enquanto mais chuva pode atingir o Parque Nacional do Grand Canyon, no Arizona, nesta segunda-feira (31).
O corpo de um homem de 46 anos foi encontrado perto de Crystal Rapids, ao longo do rio Colorado, informaram autoridades do parque na noite de domingo. O nome da vítima não foi divulgado.
Cerca de 15 pessoas podem estar desaparecidas depois que “quase todas as passarelas que atravessavam o Bright Angel Creek foram destruídas, eliminando o acesso dos excursionistas através do riacho”, informou o Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos.
A inundação no fundo do cânion começou na tarde de sábado, depois que fortes ondas de chuva atingiram o Bright Angel Canyon e o Phantom Ranch — a única hospedagem localizada abaixo da borda do Grand Canyon. O rancho só pode ser alcançado a pé, de mula ou por rafting pelo rio Colorado.
A quarta e última onda de chuva, que atingiu a região por volta das 14h30, “foi de longe a mais intensa, produzindo entre 0,50 e 1,00 polegada de chuva em cerca de 30 minutos”, informou o Serviço Nacional de Meteorologia.
Os desaparecidos estavam “em uma rota de viagem pelo interior do cânion ou provavelmente fazendo uma caminhada de um dia na área entre North Kaibab e Phantom Ranch”, disse a porta-voz Joelle Baird ao New York Times no domingo. A CNN entrou em contato com o parque em busca de mais informações.
Até a tarde de domingo, pelo menos 62 pessoas haviam sido retiradas da região, informou o Parque Nacional do Grand Canyon em um comunicado.
Um casal escapou por pouco das águas da enchente enquanto corria para sua cabana. “Enquanto estavam sendo evacuados, eles puderam ver que as pontes pelas quais haviam passado apenas 15 minutos antes tinham sido levadas pela água”, disse um porta-voz da Cruz Vermelha à afiliada da CNN KTVK/KPHO.
Funcionários do Parque Nacional do Grand Canyon e do Departamento de Segurança Pública do Arizona fizeram buscas de helicóptero pela trilha North Kaibab e pelo rio Colorado, desde a foz do Bright Angel Creek até o Deer Creek Narrows, no domingo, mas nenhuma pessoa desaparecida foi encontrada, disse Baird ao Times.
Mais pancadas de chuva e tempestades são possíveis nesta segunda-feira, e um alerta de enchente está em vigor até a noite. Mais chuva pode provocar “fluxos de detritos, queda de pedras e mudanças nas condições das trilhas e do rio”, disseram os guardas do parque.
Uma espera angustiante por respostas
Entre os desaparecidos, segundo o New York Times, estava John Giusti, um quiroprático de 46 anos do Texas. Ele fazia sua primeira caminhada pelo cânion acompanhado de dois amigos, contou sua irmã, Valerie Gibbs, ao Times.
Corredor e praticante assíduo de trilhas, Giusti publicou fotos da aventura na página de seu consultório de quiropraxia no Facebook. Apenas 30 minutos antes de as fortes correntes de água atravessarem o cânion, ele havia entrado em contato com a família, disse Gibbs. Foi a última vez que os parentes tiveram notícias de Giusti.
Em uma publicação separada, que foi apagada posteriormente, sua esposa, Janet Giusti, disse que o grupo de caminhada do marido “está entre os que foram dados como desaparecidos e não foram localizados”, segundo o Times.
“Pedimos à nossa comunidade ChiroHabit que, por favor, mantenha meu marido, seu grupo de caminhada e nossas famílias em seus pensamentos e orações durante este momento”, dizia a publicação.
“Deslizamentos acontecendo por toda parte”
David Gregory, que fazia uma trilha com um pequeno grupo quando a enchente atingiu a região, foi retirado de helicóptero e levado a uma escola secundária local antes de receber acomodação em um hotel para passar a noite.
“Percebemos que o riacho perto do acampamento estava preto de detritos e correndo rapidamente”, contou à CNN.
Parth Desai correu para uma área com cactos depois que seu colega gritou “para cima, para cima, para cima, para cima” quando uma parede de detritos de cerca de 1,2 metro avançou em direção a eles na região do Phantom Ranch. O grupo foi posteriormente resgatado de helicóptero.
“Vimos o riacho transbordar, cachoeiras surgindo do nada, pedras enormes, lama, deslizamentos acontecendo por toda parte”, disse Desai à Associated Press.
Christopher Dry, do Arizona, fazia uma trilha em um terreno mais elevado com o filho quando viu um raio seguido de chuva e “visibilidade zero” poucos minutos depois. “As nuvens realmente (se formaram) abaixo e subiram rapidamente pelo cânion”, contou à CNN.
O Serviço Nacional de Parques pede que qualquer pessoa que tenha informações sobre excursionistas ou mochileiros que possam ter estado na área afetada entre em contato com a linha de denúncias da agência.
Principal tubulação de água que abastece turistas fica fora de operação
A enchente também tirou de operação uma tubulação de água que abastece os turistas do parque nacional, deixando a região com recursos hídricos limitados, informou o parque. Isso limitará significativamente a atividade de visitantes no parque às vésperas do fim de semana do feriado do Dia do Trabalho.
A tubulação afetada fornece água potável e abastecimento para combate a incêndios para todas as instalações da margem sul, uma área com grande concentração de trilhas, mirantes, hospedagens e serviços para visitantes.
As fortes águas da enchente também alargaram o leito do riacho, formando o que parecia ser uma nova corredeira, informou a AP.
A Bright Angel Trail é a trilha mais popular para entrar no cânion, segundo o Serviço Nacional de Parques.
O rio Colorado foi fechado para o tráfego de embarcações no domingo devido a estruturas metálicas e detritos que estavam sendo carregados pela correnteza.
“Continuei o mais rápido que pude”
Wieke De Boer decidiu voltar ao acampamento depois que começou a chover durante sua caminhada no início da manhã de sábado, contou à CNN. Um riacho ao lado da trilha estava correndo rapidamente, e a água barrenta descia pelas pedras e avançava sobre seu caminho.
De Boer se abrigou em sua barraca e usou o pé para impedir que ela fosse levada pelo vento enquanto a água entrava e a tempestade passava pelo acampamento, contou.
“Quando saí para avaliar os danos e ver se poderia movê-la ou prendê-la melhor, os guardas vieram me dizer para evacuar”, disse De Boer.
PJ Hennigan, que fazia a trilha South Kaibab por volta das 4h de sábado, percebeu relâmpagos e trovões além do cânion, contou à CNN.
Ao nascer do sol, Hennigan estava em um “ponto de observação” de onde podia ver uma tempestade se formando, disse. Enquanto continuava caminhando, viu parte da trilha ser levada pela água e se viu em “água corrente na altura dos tornozelos”.
“Continuei o mais rápido que pude”, disse ele, “e, finalmente, a chuva diminuiu e consegui chegar ao topo.”
O Grand Canyon tem cerca de 1,6 quilômetro de profundidade, e o parque nacional abrange 447 quilômetros do rio Colorado, segundo o Serviço Nacional de Parques. O parque é conhecido por sua paisagem geológica e erosiva icônica, com rochas de até 1,8 bilhão de anos e depósitos vulcânicos de cinco milhões de anos.
O parque recebeu mais de 400 mil visitantes no mês passado, e mais de 4,4 milhões de pessoas o visitaram em 2025, segundo a agência federal.
Holly Yan, Chris Dolce, Laura Sharman e Karina Tsui, da CNN, contribuíram para esta reportagem.










