Para desvendar esses ancestrais fantasmas, os pesquisadores desenvolveram um novo método computacional, chamado TRACE, que consegue buscar em genomas humanos contemporâneos pistas deixadas por populações há muito perdidas.
“Nossos genomas são mosaicos de pequenos fragmentos de DNA de todos os nossos ancestrais, e, portanto, em diferentes partes do nosso genoma, temos uma árvore genealógica diferente”, explicou Moorjani. Alguns ramos dessas árvores genealógicas são relativamente recentes, enquanto outros se estendem muito mais para o passado. O DNA herdado de parentes antigos, como os neandertais, por exemplo, está localizado nesses ramos mais remotos. O TRACE busca, em todo o genoma, linhagens muito antigas que possam indicar ancestralidade de populações anteriormente desconhecidas.
Os pesquisadores testaram o TRACE em mais de 500 genomas humanos modernos de populações atuais da África, Europa e Ásia. Eles encontraram vestígios da ancestralidade fantasma mais recente em todas as populações estudadas, apontando para uma linhagem que deve ter contribuído com DNA para os ancestrais dos humanos modernos antes da grande migração da nossa espécie para fora da África.
“Se pensarmos além dos humanos, o fluxo gênico e a mistura entre grupos são bastante comuns em todas as populações, então não é muito surpreendente que tenhamos DNA de diferentes grupos de hominídeos”, disse Moorjani. “Acontece que, até recentemente, não era viável extrair esse DNA de pessoas que viveram no passado.”
Embora os pesquisadores ainda não possam afirmar a quais populações de hominídeos essas linhagens pertenciam, eles restringiram os possíveis candidatos com base em quando as linhagens divergiram na árvore genealógica dos hominídeos. O tempo estimado de divergência de uma das linhagens é consistente com as populações de Homo do Pleistoceno Médio na África, sugerindo que poderia ser o Homo heidelbergensis, escreveram os pesquisadores no estudo.
O Homo heidelbergensis viveu entre 700.000 e 200.000 anos atrás na África e na Europa. A outra linhagem, muito mais antiga, especula os pesquisadores, pode estar relacionada ao Homo erectus da Eurásia. Até o momento, não foi possível recuperar DNA de nenhum dos dois grupos de hominídeos.
“Essa descoberta superarcaica é particularmente empolgante porque revela contribuições genéticas de uma linhagem humana que viveu há mais de um milhão de anos, apesar da ausência de qualquer DNA sequenciado dessa população”, disse Arjun Biddanda, pesquisador de pós-doutorado da Universidade Johns Hopkins e um dos primeiros autores do estudo, em um comunicado.
Os genomas humanos modernos são em grande parte semelhantes, mas variam de indivíduo para indivíduo em pequena parte devido a essas linhagens ancestrais profundas, que contribuíram com algumas diferenças raras, porém perceptíveis, aos genomas, explicou John Hawks, paleoantropólogo e professor da Universidade de Wisconsin-Madison. Hawks não participou do novo estudo.
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“Hoje em dia, temos a tendência de focar em diferenças entre as pessoas que parecem grandes, mas que na verdade são superficiais — como a cor da pele ou a aparência facial”, disse Hawks em um e-mail. “Essas diferenças entre as pessoas vivas são, na verdade, muito pequenas em comparação com os ancestrais dos quais todos nós evoluímos, e esses ancestrais encontraram maneiras de interagir e sobreviver uns com os outros. Essa é a nossa herança, e é uma herança que importa ainda mais do que nunca.”
A descoberta da linhagem fantasma mais jovem “situa o período de miscigenação bem antes da miscigenação com os neandertais e mostra que isso afeta todas as populações que vivem hoje”, acrescentou Hawks.
Os pesquisadores afirmaram que esperam que o método TRACE revele mais linhagens ocultas em nossa espécie, bem como em outras espécies animais. No entanto, concordam que as melhores novas evidências virão do DNA extraído diretamente de fósseis antigos.
Por enquanto, porém, as pistas deixadas no DNA moderno são o mais perto que os cientistas conseguem chegar desses ancestrais há muito perdidos.
“Aleatoriamente, duas pessoas do mundo podem herdar o mesmo fragmento de DNA de um ancestral que desconhecíamos, mas que agora conhecemos”, disse Yulin Zhang, coautora principal do estudo e doutoranda em biologia computacional na UC Berkeley. “Desse ancestral misterioso, temos algo em comum sob outra perspectiva.”