A meta do Governo Federal de chegar a 266 mil famílias incluídas na reforma agrária até o final do atual mandato coloca Mato Grosso no centro de uma discussão que envolve não apenas distribuição de terras, mas regularização de assentamentos antigos, infraestrutura, produção e capacidade de permanência das famílias no campo.
No Estado, dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) mostram que processos de seleção para projetos de assentamento voltaram a ocorrer nos últimos anos. Um levantamento preliminar feito pelo DIÁRIO nas relações públicas do órgão identifica centenas de vagas abertas entre 2024 e 2026, distribuídas por diferentes regiões de Mato Grosso.
O número de vagas, entretanto, não pode ser confundido com o de novas famílias efetivamente assentadas. Para entrar oficialmente no Programa Nacional de Reforma Agrária, os beneficiários passam por seleção e precisam ter sua inclusão homologada pelo Incra. A própria autarquia mantém uma Relação de Beneficiários com a data de homologação e a situação de cada família.
É justamente essa diferença que precisa ser considerada para responder à principal questão em Mato Grosso: quantas famílias efetivamente passaram a integrar a reforma agrária desde 2023?
2026 TEM NOVAS SELEÇÕES – Neste ano, o Incra abriu processos de seleção em pelo menos três projetos de Mato Grosso.
No PDS Macaco, em União do Sul, foram oferecidas 120 vagas. As inscrições ocorreram em abril e o resultado final foi publicado em 22 de junho.
No PDS Gama I, em Nova Guarita, são outras 95 vagas, com inscrições realizadas em junho.
Há ainda o assentamento Bojui, em Diamantino, com 100 vagas. Neste caso, a seleção ainda não foi concluída: as inscrições estão programadas para ocorrer entre 1º e 15 de setembro.
Somados, os três processos representam 315 vagas, mas encontram-se em diferentes estágios e, portanto, não equivalem a 315 famílias já incorporadas ao programa.
Essa distinção é importante porque uma das formas de expansão da reforma agrária ocorre justamente pelo preenchimento de lotes vagos em projetos já existentes, e não necessariamente pela criação de novos assentamentos.
VAGAS EM ASSENTAMENTOS ANTIGOS – O movimento já aparecia em 2025.
Naquele ano, o Incra realizou ou abriu processos de seleção para projetos em Primavera do Leste, Cáceres, Nova Mutum, Novo Mundo e Jaciara.
Foram disponibilizadas 30 vagas no PA Rio Café, em Primavera do Leste; 40 no Monte Alegre Salobra, em Cáceres; oito no XV de Novembro, em Nova Mutum; 74 no Novo Mundo; e 198 no PA Mestre, em Jaciara.
Somadas, são 350 vagas relacionadas aos processos registrados pelo Incra naquele ano.
Em alguns casos, a homologação atravessou o ano. No Rio Café, por exemplo, as inscrições ocorreram no final de 2025, enquanto a relação de beneficiários foi publicada em janeiro de 2026.
O histórico reforça a necessidade de separar três números: vagas oferecidas, candidatos selecionados e famílias efetivamente homologadas.
PROCESSOS DESDE 2024
A retomada pode ser observada também nos registros de 2024.
Naquele ano, aparecem seleções para o PA Raimundo Vieira III, em Nova Guarita, com 12 vagas; PA Ricaville, em Luciara, com 25; Reassentamento Beckhauser, em Sinop, com 28; e PDS Boa Esperança, em Novo Mundo, com 101.
Também houve processo para o PA Mestre, em Jaciara, inicialmente com 235 vagas, mas a seleção acabou cancelada. Por isso, essas vagas não devem entrar na conta de famílias efetivamente incorporadas ao programa.
Parte das seleções abertas em 2024 só chegou à etapa de definição dos beneficiários no ano seguinte, outro fator que dificulta a construção de uma estatística apenas com base no ano de publicação do edital.
MAIS QUE ENTREGAR TERRA
A reforma agrária, entretanto, não termina com a seleção de uma família.
O próprio Incra define os assentamentos como conjuntos de unidades agrícolas instaladas em imóveis rurais. Cada lote é destinado a uma família que deve residir e desenvolver atividades produtivas na área. A capacidade de cada projeto considera fatores como disponibilidade de água, viabilidade econômica e condições para geração de renda.
Isso abre uma segunda frente de investigação para Mato Grosso.
Além de descobrir quantas famílias receberam lotes desde 2023, é necessário saber em que condições essas famílias vivem e produzem.
Estradas, água, energia, moradia, assistência técnica, crédito rural, escolas e atendimento de saúde determinam se a política consegue transformar acesso à terra em produção e renda.
O Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/27 prevê R$ 85,2 bilhões para operações do Pronaf em todo o país e inclui assentados da reforma agrária entre os públicos atendidos.
O desafio é verificar quanto desse crédito efetivamente chega aos assentamentos de Mato Grosso.
ASSENTAMENTOS ANTIGOS TAMBÉM EXIGEM REGULARIZAÇÃO
Outro problema aparece nos próprios atos administrativos do Incra.
Somente em 2026, a superintendência regional publicou notificações envolvendo assentamentos localizados em municípios como Várzea Grande, Acorizal, Juruena, Comodoro, Juscimeira, Canarana, Rosário Oeste, Aripuanã, Santo Antônio de Leverger, Nova Lacerda, Mirassol D’Oeste, Confresa, Cáceres, Vila Bela da Santíssima Trindade e Primavera do Leste.
As notificações não significam necessariamente irregularidade de todo o assentamento ou de todas as famílias. Elas mostram, porém, que a gestão dos lotes antigos continua sendo uma frente ativa da política fundiária estadual.
O programa nacional possui hoje 9.964 assentamentos criados ou reconhecidos, abrangendo 140,9 milhões de hectares e mais de 1,1 milhão de famílias homologadas. Os dados são de março de 2026.









