Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) identificou uma taxa recorde de deformações em peixes do litoral norte do Espírito Santo. A pesquisa apontou que 60,5% dos exemplares da espécie Stellifer naso, conhecida como cabeçudo-preto ou tambor-estrela, apresentavam anomalias.
O índice registrado supera os números já descritos em estudos científicos brasileiros. Antes desse levantamento, a maior taxa de deformações encontrada era de 27,1%, observada em bagres da espécie Cathorops spixii.
Publicado na revista científica Ocean and Coastal Research, o trabalho indica que a ocorrência elevada de alterações pode estar associada à contaminação ambiental persistente provocada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), ocorrido em 2015.
Os peixes analisados foram coletados em maio de 2022, quase sete anos após o desastre ambiental, na foz do Rio São Mateus, nas proximidades de Conceição da Barra, no Espírito Santo. Segundo o pesquisador Jonas Andrade-Santos, do Museu Nacional da UFRJ, os resultados ficaram acima da média observada em pesquisas semelhantes realizadas no Brasil.
Os cientistas encontraram alterações nos otólitos sagitais, estruturas localizadas no ouvido dos peixes que desempenham funções relacionadas ao equilíbrio, à orientação espacial e à percepção de sons.
A espécie Stellifer naso vive no fundo do mar, em regiões de águas rasas. Por permanecer em contato com sedimentos onde podem estar concentrados rejeitos da mineração carregados pelo Rio Doce, o peixe pode ter maior exposição a contaminantes presentes no ambiente.
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que o estudo não comprova uma relação direta entre as deformações e o rompimento da barragem. A principal limitação é a ausência de amostras coletadas antes de 2015, que permitiriam uma comparação histórica sobre as condições da espécie antes do desastre.
Pesquisa terá novas etapas
De acordo com Jonas Andrade, a limitação reforça a necessidade de ampliar investimentos em coleções biológicas de referência e em pesquisas de acompanhamento ambiental de longo prazo.
A equipe pretende realizar análises químicas das amostras para identificar minerais acumulados nos otólitos, investigar possíveis alterações externas nos peixes e repetir o monitoramento da região nos próximos anos.
Os pesquisadores avaliam que o acompanhamento contínuo pode ajudar a entender a evolução do ecossistema e identificar possíveis sinais de recuperação ambiental.
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