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Recuo em plano de investimentos amplia crise de Infantino na Fifa


O presidente da Fifa, Gianni Infantino, até então considerado intocável no comando da entidade máxima do futebol mundial, sofreu um duro golpe nesta sexta-feira (31). A tentativa ousada de atrair investimentos de fundos privados chegou ao fim após uma forte reação contrária no cenário internacional.

Em comunicado atribuído a Infantino, a Fifa reconheceu que a proposta de criar uma empresa comercial para administrar a Copa do Mundo e outros torneios — com a venda de 20% da participação a investidores privados — provocou divisões e não teria continuidade.

A decisão encerrou três dias de uma espécie de guerra civil no futebol.

A crise atingiu o ponto máximo quando a Uefa, a mais rica e influente das seis confederações regionais da modalidade, anunciou que boicotaria todos os eventos da Fifa até que o projeto fosse retirado.

O plano era uma iniciativa pessoal de Infantino. O fracasso da proposta, menos de duas semanas após a realização da Copa do Mundo mais lucrativa da história, deixou o dirigente suíço de 56 anos isolado no topo de uma organização que ele pretendia comandar por mais quatro anos e meio.

“Há uma semana, Infantino estava em alta e era quase certo que seria reeleito com ampla vantagem, porque havia comandado um torneio tão bem-sucedido financeiramente”, disse à Reuters Victor Matheson, professor de Economia do College of the Holy Cross, em Massachusetts. “Agora, tudo isso está em risco.”

Antes da Copa do Mundo, a reeleição de Infantino para um quarto mandato, durante o Congresso da Fifa, marcado para março, no Marrocos, parecia praticamente garantida. Não havia candidatos rivais no horizonte.

O cenário mudou radicalmente após três dias de crise, período em que até as confederações mais fiéis ao presidente demonstraram indignação com a falta de consultas sobre a proposta. Infantino também passou a ser acusado de colocar em risco a essência do futebol.

Na sexta-feira, a Fifa reforçou inicialmente a defesa do projeto em um comunicado que reiterava a promessa de destinar milhões de dólares em novos recursos às federações nacionais. Mesmo assim, alguns dos aliados mais próximos de Infantino passaram a se distanciar da iniciativa.

O assessor sênior Carlos Cordeiro pediu demissão em protesto e classificou a proposta como “um mau negócio para o futebol”. Já o diretor de Operações da Fifa, Kevin Lamour, afirmou que os funcionários haviam sido “enganados” por Infantino e definiu o projeto como uma “iniciativa de uma única pessoa”.

Liderança gera desgaste

Infantino assumiu a presidência da Fifa em 2016, depois que um escândalo de corrupção encerrou os 17 anos de mandato de Sepp Blatter. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, o estilo independente de liderança do dirigente suíço frequentemente causou desgaste entre pessoas próximas.

Até então, porém, sua autoridade e a capacidade de manter os cofres da Fifa abastecidos haviam sido suficientes para que ele superasse erros e recuasse diante de pressões.

Em 2018, Infantino abandonou um plano que prometia atrair 25 bilhões de dólares em investimentos privados para a Copa do Mundo de Clubes após enfrentar forte oposição da Uefa.

Ele também superou uma onda de indignação provocada pela defesa do Catar como sede da Copa do Mundo de 2022 e pelo discurso incomum feito antes do torneio, quando declarou: “Hoje, eu me sinto gay. Hoje, eu me sinto uma pessoa com deficiência. Hoje, eu me sinto um trabalhador migrante.”

A iniciativa apresentada nesta semana, no entanto, teve um efeito contrário e provocou uma reação de grandes proporções.

Infantino não conseguiu construir consenso em torno do projeto. Além disso, importantes envolvidos no futebol mundial não sabiam da proposta até o anúncio apressado feito pela Fifa na terça-feira, depois que detalhes do plano vazaram para jornais.

As partes interessadas foram mantidas sem informações enquanto Infantino se reunia com investidores e escolhia a Thrive Capital, empresa fundada por Joshua Kushner e com laços familiares próximos ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para liderar o grupo de investidores previsto no projeto.

Para a Confederação Asiática de Futebol (AFC), a condução do processo representou um desrespeito “totalmente inaceitável” aos protocolos tradicionais. Nesta sexta-feira, a entidade, formada por 47 membros, pediu reformas institucionais na Fifa.

Relação próxima com Trump

A relação de Infantino com Donald Trump já vinha sendo questionada desde que a Fifa concedeu ao presidente dos Estados Unidos o primeiro Prêmio da Paz da entidade, em dezembro passado.

Jim Boyce, ex-vice-presidente da Fifa que conheceu Infantino quando o suíço trabalhava na Uefa, sugeriu que a proximidade com o poder político poderia ter influenciado o comportamento do dirigente.

“Acho que o que aconteceu foi que a fama parece ter subido um pouco à cabeça de Gianni, e a relação dele com Donald Trump durante aquela Copa do Mundo foi simplesmente impressionante”, afirmou o norte-irlandês à BBC nesta semana.

Durante a Copa do Mundo, Trump disse ter ligado para Infantino para pedir que a suspensão do jogador norte-americano Folarin Balogun, expulso com cartão vermelho, fosse anulada para que ele pudesse disputar uma partida do mata-mata.

Balogun acabou liberado após uma decisão do órgão disciplinar independente da Fifa. O episódio, porém, não foi suficiente para afastar a percepção de que Trump estaria interferindo em questões do futebol por meio de Infantino.

“Não ajudou o fato de haver um Kushner envolvido em toda essa situação”, afirmou à Reuters o analista de marketing esportivo Bob Dorfman.

“Especialmente depois de tudo o que aconteceu durante a Copa do Mundo envolvendo Balogun e Trump. Ter um parente de Trump envolvido nisso apenas tornou toda a situação muito pior.”

Trump afirmou nesta sexta-feira que não conversou com Infantino sobre a proposta de venda de participações comerciais relacionadas à Copa do Mundo.

Ainda é cedo para descartar Infantino

Embora seja praticamente certo que candidatos rivais surjam antes da eleição presidencial, ainda pode ser cedo para descartar a permanência de Infantino, mesmo após o desgaste provocado pela crise, caso ele decida concorrer.

A proposta de venda de participação na nova empresa sempre teve como principal público as 211 federações nacionais que terão direito a voto. Muitas delas dependem dos recursos da Fifa para manter as contas em dia e foram beneficiadas pela política de distribuição de verbas adotada durante a gestão de Infantino.

Para ampliar o mandato até 2031, Infantino precisaria obter dois terços dos votos no primeiro turno ou maioria simples nas etapas seguintes. Segundo Dorfman, uma demonstração de arrependimento poderia ajudar o dirigente a recuperar apoio.

“Sei que não faz parte do jeito dele agir, mas talvez ele tenha de começar a pedir um pouco de desculpas e dizer: ‘Talvez eu tenha conduzido isso da maneira errada’.”



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