O Brasil dispõe de uma estrutura avançada para monitorar as cadeias produtivas da soja e da carne bovina, porém ainda precisa integrar melhor os instrumentos existentes para ampliar a eficiência da rastreabilidade socioambiental. Essa é uma das principais conclusões de um estudo divulgado nesta terça-feira (28), que analisou 21 iniciativas voltadas ao acompanhamento dessas cadeias produtivas.
Intitulado Rastreando a Responsabilidade: fortalecendo o monitoramento do desmatamento nas cadeias de suprimento de soja e carne bovina do Brasil, o levantamento foi elaborado pela organização ambiental WRI Brasil com o objetivo de avaliar a capacidade do país de atender às crescentes exigências do comércio internacional.
Ao todo, dez iniciativas relacionadas à soja e 11 voltadas à produção de carne bovina foram avaliadas. Os mecanismos analisados atuam principalmente no monitoramento e na verificação dos processos produtivos nos biomas Amazônia e Cerrado.
Com base na comparação entre os sistemas existentes, os pesquisadores elaboraram dez recomendações para aprimorar os instrumentos de controle e contribuir para a formulação de políticas públicas.
Principais recomendações
- Adotar a propriedade rural como unidade de monitoramento;
- Utilizar bases de dados oficiais e cientificamente validadas;
- Verificar o cumprimento do Código Florestal Brasileiro e a inexistência de violações relacionadas ao trabalho forçado;
- Implementar auditorias independentes e publicar relatórios de transparência;
- Expandir o monitoramento para todos os biomas brasileiros;
- Garantir que não tenha ocorrido desmatamento ilegal conforme o Marco Temporal de 2008;
- Promover o desmatamento zero após agosto de 2020, em alinhamento com compromissos nacionais e exigências internacionais;
- Monitorar toda a cadeia de suprimentos, incluindo fornecedores indiretos;
- Criar mecanismos para reintegrar fornecedores após regularização comprovada;
- Estabelecer uma supervisão participativa e multissetorial para aperfeiçoar os sistemas.
Impacto no comércio exterior
Segundo a diretora do Programa de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil, Mariana Oliveira, o fortalecimento da rastreabilidade pode incentivar um modelo de desenvolvimento mais sustentável no campo.
Os pesquisadores também avaliam que a integração dos diferentes agentes envolvidos pode ampliar a responsabilidade compartilhada e facilitar a adoção de critérios comuns para o monitoramento das cadeias produtivas.
Mariana destaca que instituições financeiras brasileiras já utilizam bases de dados oficiais e não oficiais para avaliar riscos socioambientais. Na avaliação dela, esse modelo pode ser ampliado para bancos de desenvolvimento e investidores internacionais.
O estudo cita a China como um exemplo de parceiro que pode se beneficiar de protocolos mais estruturados de rastreabilidade. Em 2024, o país importou do Brasil US$ 44,6 bilhões em soja e carne bovina.
De acordo com os pesquisadores, a integração das bases de dados e a harmonização dos critérios técnicos podem oferecer maior transparência aos países compradores na avaliação dos riscos socioambientais. Por isso, defendem que o Brasil amplie a cooperação com mercados estratégicos, como o chinês.
Para Mariana Oliveira, sistemas mais eficientes de rastreabilidade não apenas atendem às exigências comerciais, mas também podem impulsionar um modelo de desenvolvimento que gere benefícios socioeconômicos, empregos, renda, qualidade de vida no campo e mais inovação para os produtores rurais.
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