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Fúria esbanja brasilidade e homenageia o MMA em nova série da Netflix


Com cinco Copas do Mundo nas costas, vários jogadores famosos espalhados pelo mundo e lar do icônico Pelé, não há dúvidas: o Brasil é o país do futebol – mesmo que tenha perdido o caneco do esporte este ano. Porém, uma nova série da Netflix chega para mostrar ao mundo outro esporte em que o nosso país é referência: o MMA (artes marciais mistas).

Lançada nesta quarta-feira (29) no streaming com seis episódios, a série Fúria acompanha a história de um lutador misterioso que perde a memória e vê no octógono a chance de reconstruir a sua vida e ajudar as pessoas que ama. Além disso, a produção também serve como uma homenagem ao MMA do país, bem como uma propaganda do “estilo de vida brasileiro” para a audiência internacional da Netflix.

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Criada por Igor Verde e Gustavo Bragança, com direção geral de José Henrique Fonseca (Bom Dia, Verônica), a série é protagonizada por Vinicius Neri e reúne nomes como Fábio Lago, Alice Carvalho, Bianca Comparato, Cláudia Raia, Eduardo Moscovis, Babu Santana e MC Cabelinho. A produção ainda aposta na participação especial do ex-campeão do UFC Anderson Silva, reforçando o compromisso em aproximar a ficção do universo das artes marciais.

Confira a crítica da produção realizada após assistirmos aos seis episódios da série, disponibilizados antecipadamente pela Netflix.

Uma história brasileira que até parece quadrinho

Fúria é uma série bem pé no chão, mas durante todo o tempo que passei com a produção, fiquei com a impressão de que estava vendo uma história de um herói desconhecido da Marvel ou da DC. Produção original da Netflix em parceria com a Zola Filmes, a história é 100% original, mas traz pontos que parecem retirados de quadrinhos de heróis que focam em narrativas mais urbanas e realistas.

Logo nos primeiros momentos, a série já mostra a que veio com muita ação. Um homem misterioso foge de dois perseguidores e, após levar um tiro na cabeça, acaba perdendo completamente a memória.

No dia seguinte, ele é encontrado entre o lixo por Antônio Patada, personagem interpretado por Fábio Lago. Ex-lutador e treinador de uma pequena academia de MMA localizada na comunidade fictícia da Trindade, ele decide acolher o desconhecido e lhe dá um novo nome: Marcelo Lázaro, vivido por Vinicius Neri.

Sem qualquer lembrança da própria identidade, Marcelo passa a conviver com os moradores da comunidade e encontra na academia uma oportunidade de recomeçar. Ao mesmo tempo, flashes de memória começam a surgir aos poucos, indicando que seu passado está longe de ser tão simples quanto ele imaginava.

Com essa premissa, o espectador acompanha o protagonista trilhando um caminho como lutador, enfrentando adversários como Júnior Malamute, interpretado por MC Cabelinho. Enquanto tenta conquistar espaço dentro do octógono, Marcelo também precisa desvendar uma teia de crimes, conspirações e segredos que ameaçam sua nova família.

A própria sinopse oficial resume bem essa dualidade ao apresentar Marcelo como um homem dividido entre a esperança de construir um novo futuro e um passado que insiste em voltar para assombrá-lo. Felizmente, a série consegue equilibrar bem essas duas frentes narrativas durante boa parte da temporada.

A estrutura garante uma experiência de maratona de qualidade, algo que a Netflix já domina muito bem. Enquanto diversos mistérios são apresentados logo de cara, a produção desenvolve as linhas narrativas com competência durante os seis episódios, deixando ganchos que fazem cada capítulo terminar com vontade de assistir ao próximo.

Também chama atenção a maneira como o roteiro mistura diferentes gêneros. Em alguns momentos, Fúria funciona como um drama esportivo clássico; em outros, assume o formato de thriller policial recheado de conspirações, aproximando a série de produções internacionais voltadas para o suspense e a ação.

Em alguns momentos, no entanto, o roteiro acaba sendo previsível e conveniente demais, o que tira parte da força da narrativa construída. Algumas revelações podem ser antecipadas com facilidade, enquanto determinados acontecimentos forçam a barra e são pouco críveis para a pegada realista da série.

Entre erros e acertos, a produção entrega uma história divertida de acompanhar.

Ainda assim, entre erros e acertos, a produção entrega uma história divertida de acompanhar. Talvez Fúria não seja uma obra revolucionária dentro do catálogo da Netflix, mas entende muito bem o tipo de entretenimento que pretende oferecer e executa essa proposta com bastante competência.

Elenco bem escolhido valoriza o drama e as lutas

Além da história engajante, a produção se destaca por reunir um elenco bastante diverso e que combina muito bem com a proposta da série. Vinicius Neri entrega uma atuação contida como Marcelo Lázaro, mas consegue transmitir com naturalidade a confusão de alguém que perdeu completamente a própria identidade e precisa reaprender quem é.

A atuação é tão convincente que, particularmente falando, eu não consigo mais “desver” o personagem quando encontro publicações do ator nas redes sociais. Existe uma sinceridade na interpretação que ajuda bastante o público a comprar a jornada do protagonista.

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Eterno Baiano de Tropa de Elite, Fábio Lago rouba praticamente todas as cenas em que aparece. Seu Antônio reúne características muito brasileiras, transitando entre religiosidade, frustrações profissionais, problemas com alcoolismo e o carinho quase paternal pelos jovens da comunidade, tornando-se facilmente um dos personagens mais interessantes da temporada.

Alice Carvalho, que já havia chamado atenção em produções como Cangaço Novo e O Agente Secreto, também brilha ao interpretar uma ex-atleta tentando reencontrar seu espaço dentro e fora do esporte. Sua personagem acrescenta novas camadas ao universo das lutas e ajuda a mostrar que o MMA também pode ser um caminho de reconstrução pessoal.

O elenco de apoio também merece elogios. MC Cabelinho entrega um antagonista bastante físico como Júnior Malamute e demonstra que o período de treinamento para as cenas de luta fez diferença no resultado final, deixando os confrontos mais convincentes e intensos.

A produção ainda conta com nomes experientes como Bianca Comparato, Cláudia Raia, Eduardo Moscovis e Babu Santana, que ajudam a ampliar a escala da narrativa. Além deles, a participação especial de Anderson Silva chama atenção não apenas pelo peso histórico dentro do MMA, mas também pela maneira como sua presença reforça a homenagem que a série presta ao esporte brasileiro.

Estética brasileira transforma o país em um personagem da série

A produção também chama a atenção por alimentar algo que já vem crescendo na cultura pop: a chamada “estética brasileira”. Ambientada em um bairro do Rio de Janeiro, Fúria parece um grande jogo de RPG em determinados momentos, reunindo personagens de diferentes etnias, origens, profissões e personalidades para construir um retrato bastante diverso do país.

Esse talvez seja um dos maiores acertos da série. Ao invés de apostar apenas em cartões-postais ou em uma visão estereotipada do Brasil, a produção utiliza a comunidade da Trindade como ponto de partida para mostrar diferentes realidades, criando um ambiente que parece vivo e cheio de identidade.

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A série também passeia por espaços mais luxuosos, como grandes academias de treinamento equipadas com tecnologia de ponta e arenas profissionais, e pelo interior – mostrando que o universo do MMA brasileiro vai muito além das comunidades. Esse contraste ajuda a construir um cenário mais completo e evita que a narrativa reduza o país a um único retrato.

Ao mesmo tempo, a direção de José Henrique Fonseca aposta em cenas de luta bastante dinâmicas, valorizando o impacto físico dos golpes sem abrir mão do drama dos personagens. A experiência do diretor em produções como Bom Dia, Verônica aparece principalmente na maneira como ação e suspense caminham juntos ao longo dos episódios.

Uma homenagem ao MMA brasileiro

Apesar do suspense envolvendo a identidade de Marcelo ser o fio condutor da história, fica claro que Fúria também funciona como uma grande carta de amor ao MMA brasileiro. A modalidade, que revelou nomes históricos como Anderson Silva, José Aldo, Amanda Nunes e Charles do Bronx, ganha espaço como parte importante da identidade esportiva do país.

Isso aparece tanto nas lutas quanto na maneira como a série retrata os bastidores das academias. Existe um cuidado em mostrar a disciplina, o treinamento intenso e a relação entre mestres e atletas, elementos que ajudam a diferenciar Fúria de produções que utilizam esportes apenas como pano de fundo.

A participação especial de Anderson Silva reforça essa proposta. Um dos maiores nomes da história do UFC aparece em um papel relevante dentro da trama e chama atenção com um visual bastante diferente daquele que os fãs do esporte estão acostumados a ver, algo que certamente deve gerar comentários entre o público.

Mais do que servir como uma simples participação especial, sua presença ajuda a aproximar a ficção da realidade e funciona como uma espécie de selo de autenticidade para quem acompanha o universo das artes marciais.

Mistério prende até o fim e deixa portas abertas

Parte do mistério da série também envolve uma linha narrativa que lembra produções como Round 6. Conforme Marcelo descobre mais sobre seu passado, a história amplia sua escala e revela uma rede de crimes, interesses e disputas que ultrapassa o universo do esporte.

Essa escolha deixa evidente que Fúria foi pensada não apenas para o público brasileiro, mas também para dialogar com a audiência internacional da Netflix. A mistura entre ação, conspiração e drama familiar segue uma fórmula bastante conhecida da plataforma, mas recebe um tempero nacional que ajuda a diferenciar a produção.

É válido ressaltar, também, que a série fecha os principais pontos de sua primeira temporada. Ainda assim, intencionalmente, a produção deixa algumas pontas soltas que claramente podem ser exploradas em novos episódios ou até mesmo em derivados focados em outros personagens.

Com isso em mente, dependendo da recepção do público, não seria difícil imaginar Fúria dando origem a um universo maior ambientado no Brasil – principalmente após o fim de Cobra Kai e Round 6. A própria riqueza do cenário construído pela série mostra que existem histórias suficientes para continuar explorando esse mundo.

Vale a pena dar o play?

Fúria chega como mais uma série brasileira promissora no catálogo da Netflix. Mesmo com alguns problemas de roteiro e momentos previsíveis, a produção funciona muito bem como entretenimento, ao mesmo tempo em que presta uma homenagem sincera ao MMA brasileiro e abre espaço para talentos nacionais brilharem diante de uma audiência global.

A série não reinventa o gênero das histórias de ação e mistério, mas entrega exatamente aquilo que promete. Se a Netflix decidir renovar a produção, existe material de sobra para aprofundar esse universo e desenvolver ainda mais seus personagens, que já demonstram bastante potencial nesta primeira temporada.

Enquanto isso não acontece, fica uma boa primeira impressão. Com personalidade própria, um elenco inspirado e uma paixão evidente pelo universo das artes marciais, Fúria mostra que o Brasil ainda tem muitas histórias capazes de conquistar o público mundial — e prova que o país pode ser conhecido não apenas pelo futebol, mas também por grandes narrativas ambientadas dentro e fora do octógono.



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