O perfil da segurança pública em Mato Grosso sofreu uma transformação profunda na última década. Se em 2017 os cidadãos do estado mantinham pouco menos de 20 mil armas de fogo registradas, esse número escalou para 79.808 em 2025. O salto de 299,5% colocou o território mato-grossense na 9ª posição entre as unidades federativas com maior volume de armamento sob posse civil.
Os dados, compilados no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública junto ao Sistema Nacional de Armas (Sinarm), revelam que o fenômeno local superou a própria média nacional — no Brasil, a expansão do mercado foi de 240% no mesmo intervalo.
O movimento é reflexo direto do pacote de flexibilização do acesso a armas e munições vigorado entre 2019 e 2022. Embora as novas concessões tenham freado o ritmo a partir de 2023, analistas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública alertam: o problema agora não é a entrada de novas armas, mas o controle do volume gigantesco que já está nas ruas e residências.
Raio-x do arsenal mato-grossense
As pistolas são as preferidas de quem decide se armar no estado. Elas correspondem a quatro de cada dez armas em circulação regular:
- Pistolas: 33.401 unidades (41,8% do total)
- Revólveres: 17.110 unidades
- Rifles, fuzis e carabinas: 17.097 unidades
- Espingardas: 11.950 unidades
- Metralhadoras e submetralhadoras: 117 unidades
A imensa maioria desse acervo (62.479 armas) está em nome de pessoas físicas, enquanto empresas e pessoas jurídicas respondem por 17.329 registros.
O apagão do controle e a queda nas apreensões
O aspecto mais sensível do relatório não é apenas o tamanho do acervo, mas o risco de perda de rastreabilidade. Mato Grosso fechou o ciclo com 42.363 armas com registro expirado no Sinarm. Na prática, significa que mais da metade do arsenal ativo no estado opera em uma “zona cinzenta” cadastral, sem atualização periódica de endereço, propriedade ou laudos habituais.
Na outra ponta da fiscalização, o recolhimento de armas pelas forças policiais apresentou recuo. Em 2025, o estado apreendeu 2.116 armas de fogo — 9,5% a menos que no ano anterior. O descompasso foi ainda mais visível nas ações da Polícia Rodoviária Federal (PRF) nas rodovias de MT, onde o volume de apreensões despencou 51,8% (de 85 para 41 unidades), embora as operações tenham interceptado mais de 17 mil munições contrabandeadas ou irregulares no mesmo período.
Para os especialistas em segurança, o cruzamento entre estoques civis em alta, cadastros desatualizados e menor índice de apreensões acende o sinal de alerta para o risco de migração do armamento legal para o mercado ilícito e para a criminalidade organizada.
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