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Pesquisadores descobrem como o vírus da gripe sequestra células humanas para se multiplicar



Um estudo internacional liderado por cientistas do Laboratório Europeu de Biologia Molecular (EMBL), na Alemanha, mapeou pela primeira vez, em detalhes, como o vírus influenza A toma o controle de células humanas para se multiplicar dentro do organismo.
Toda célula do corpo tem uma engrenagem própria: fábricas internas que produzem proteínas, sistemas que transportam essas proteínas para onde são necessárias e estruturas que organizam o material genético. O que os pesquisadores descobriram foi como o vírus da gripe se infiltra nessa engrenagem e a usa a seu favor — literalmente sequestrando partes da célula para fabricar mais cópias de si mesmo.
Entender esse processo é considerado um passo essencial para o desenvolvimento de tratamentos e vacinas mais precisos contra a gripe. Os resultados foram publicados na revista científica Nature Microbiology.
Como o vírus ‘invade’ a célula
Quando o vírus da gripe infecta uma célula, ele libera seu material genético (RNA) lá dentro. Esse material contém instruções para produzir proteínas virais, que passam a circular pela célula e a manipular sua estrutura interna. Isso acaba obrigando a estrutura a trabalhar para produzir mais vírus em vez de exercer suas funções normais.
O estudo identificou dois mecanismos usados pelo vírus para isso:
Truque 1: uso de disfarce para ser “aceito” pela célula
Esse passo envolve uma proteína chamada hemaglutinina, que fica na superfície do vírus e é a “chave” que ele usa para se encaixar e entrar nas células humanas.
Para funcionar corretamente, essa proteína viral precisa passar por um processo de “acabamento” dentro da célula — um pouco como uma peça que sai bruta de fábrica e precisa ser lapidada antes de ser usada. Normalmente, esse processo existe para preparar as proteínas da própria célula.
Os pesquisadores descobriram que o vírus se aproveita exatamente dessa linha de produção: ele usa proteínas humanas (algumas das quais nem se sabia para que serviam até agora) para se moldar corretamente e passar despercebido pelo sistema de defesa.
Truque 2: desmontar um “compartimento de segurança” da célula
O segundo mecanismo é ainda mais surpreendente. Dentro do núcleo das células, onde fica guardado o DNA, existem pequenas estruturas chamadas paraspeckles, que são como pequenos compartimentos que armazenam determinadas proteínas.
Os cientistas descobriram que, ao infectar a célula, o vírus da gripe faz esses compartimentos se desmancharem. Com isso, as proteínas que estavam guardadas ali dentro são liberadas — e o vírus passa a usá-las como matéria-prima para se replicar.
“O que mais nos surpreendeu foram os paraspeckles”, disse Iuliia Kotova, primeira autora do estudo, que fez parte da pesquisa no EMBL Hamburgo e hoje está na ETH Zurique, na Suíça. “Observar essas minúsculas estruturas se dissolverem, de forma consistente em todas as linhagens celulares e cepas de gripe que testamos, nos indicou que isso não é um efeito colateral da infecção — pode ser uma estratégia do próprio vírus.”
Jan Kosinski, líder do grupo de pesquisa no EMBL Hamburgo, acrescenta que esse “desmonte” pode ter uma segunda vantagem para o vírus: essas estruturas também parecem ajudar a célula a se defender de infecções, então destruí-las pode enfraquecer a resposta imunológica ao mesmo tempo em que fornece matéria-prima para o vírus se multiplicar.
Como a descoberta foi feita
Até agora, era muito difícil observar esse tipo de interação entre proteínas do vírus e da célula humana. A maioria dos métodos exigia romper a célula antes de fazer as medições. Isso é como misturar as peças de dois quebra-cabeças diferentes depois de já embaralhadas: proteínas que nunca haviam se tocado durante a infecção real acabavam se encontrando artificialmente no tubo de ensaio, enquanto contatos verdadeiros e mais frágeis se perdiam.
A solução veio de uma técnica desenvolvida por Boris Bogdanow e Fan Liu, do Instituto Leibniz de Pesquisa em Farmacologia Molecular (FMP), em Berlim: uma versão adaptada da espectrometria de massa com reticulação (XL-MS), que permite “fotografar” essas interações no exato momento em que acontecem, dentro da célula viva e infectada.
Combinando esses dados com uma versão modificada do AlphaFold — programa de inteligência artificial vencedor do Prêmio Nobel, usado para prever a forma das proteínas —, os pesquisadores conseguiram não só identificar quais proteínas do vírus e da célula se conectam, mas também simular como elas se encaixam fisicamente.



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