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Mato Grosso cria tribunal de conciliação para evitar que “guerra de bilhões” do agro pare na Justiça


As disputas comerciais que envolvem o setor mais rico da economia de Mato Grosso ganharam uma rota de fuga dos lentos e custosos corredores do Poder Judiciário.

O Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) oficializou a criação do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania do Agronegócio (Cejusc do Agronegócio), uma estrutura desenhada exclusivamente para fazer com que gigantes do setor, cooperativas, bancos e produtores rurais sintonizem a mesma frequência e fechem acordos amigáveis.

A engrenagem começou a rodar oficialmente após a publicação da Portaria nº 05/2026. Embora o quartel-general da nova junta de conciliação fique na capital, o atendimento será descentralizado: por meio de videoconferências e sessões virtuais, produtores de qualquer canto do estado poderão resolver seus impasses sem precisar gastar anos em litígios tradicionais.

Conhecimento técnico contra o “gargalo” dos tribunais

A criação do Cejusc do Agro atende a um pleito antigo do próprio setor produtivo. A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) já havia batido à porta do TJMT para formalizar esse pedido. A justificativa da entidade é pragmática: o mercado da soja, do milho e da pecuária ficou complexo demais, movimentando cifras bilionárias que exigem um nível de conhecimento técnico que nem sempre o rito judicial comum consegue acompanhar com agilidade.

A grande cartada do novo centro é a preservação dos laços comerciais. No campo, as parcerias entre quem planta, quem financia e quem compra costumam durar décadas. Uma briga judicial convencional pode azedar esses contratos para sempre, enquanto a mediação busca um meio-termo que estanque o prejuízo e mantenha o negócio ativo. Quando o calo apertar e o caso for complexo demais, o Cejusc poderá convocar peritos de fora — especialistas em logística, agronomia, veterinária e mercado futuro — para ajudar a desenhar o acordo.

O que entra na mesa de negociação?

O leque de atuação do centro de conciliação é amplo e cobre praticamente todas as dores de cabeça burocráticas que tiram o sono do produtor rural. A estrutura está autorizada a mediar:

  • Contratos da terra: Disputas sobre arrendamentos e parcerias rurais;

  • Crédito e Finanças: Renegociação de dívidas com bancos, tradings e fundos de investimento;

  • Títulos do agro: Impasses envolvendo as Cédulas de Produto Rural (CPRs);

  • Insumos e grãos: Desavenças na compra de sementes/defensivos e na entrega de commodities;

  • Sociedades e Meio Ambiente: Briga entre sócios de fazendas e passivos ecológicos.

Remédio preventivo e validade de lei

O Cejusc do Agronegócio vai operar em duas frentes. A primeira é a preventiva: as partes que estão se desentendendo podem procurar o centro por livre e espontânea vontade, antes mesmo de protocolar qualquer processo. Se houver aperto de mãos e o acordo for assinado, o juiz responsável homologa o documento, que passa a valer como um título executivo judicial — ou seja, tem força de lei e precisa ser cumprido.

A segunda frente é para o estoque de processos: ações que já estão travadas na Justiça comum, acumulando poeira digital nas comarcas do interior, podem ser resgatadas e enviadas para a mesa do Cejusc, desde que os advogados de ambos os lados deem o sinal verde ou que o juiz do caso enxergue uma chance real de conciliação. Como o próprio tribunal reforça, a ideia não é fechar as portas da Justiça, mas sim abrir uma janela para o bom senso.

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