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América Latina faz parte da disputa geopolítica entre EUA e China; entenda


O tão esperado encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder chinês, Xi Jinping, tem vários assuntos prioritários na agenda em um momento de conflitos internacionais. Mas a disputa geopolítica entre as duas principais potências mundiais também se desenvolve na América Latina, onde existem múltiplos cenários de confronto nos setores comercial, tecnológico, logístico, entre outros.

Alguns países da região têm um forte compromisso com uma das partes, enquanto outros tentam manter um equilíbrio estratégico entre Washington e Pequim para tentar tirar vantagem de cada uma.

A China, com progresso constante desde o boom das commodities, ultrapassou a União Europeia há alguns anos como segundo parceiro comercial da América Latina e, no caso de vários países, já está acima dos Estados Unidos em volume de comércio. Por sua vez, a Casa Branca adotou uma postura mais coercitiva desde 2025.

A estratégia de segurança nacional que o governo de Donald Trump revelou no final de 2025 estabelece que uma das prioridades dos Estados Unidos é “expandir” a sua presença na região e enfrentar “influências estrangeiras”.

Brasil

O Brasil, a maior economia e o país mais populoso da América Latina, tem o relacionamento mais dinâmico com a China, seu parceiro no bloco Brics. Pequim compra soja, ferro e carne do Brasil, enquanto as empresas chinesas ampliam os investimentos em energia e logística.

Trump, também motivado pela sua aliança com o ex-presidente Jair Bolsonaro, endureceu o seu discurso em relação ao Brasil no ano passado e impôs tarifas ao país. Desde então, parte das taxas foram retiradas e a tensão diminuiu após conversas diretas entre Trump e Lula.

Depois da reunião na Casa Branca, dias antes de Trump viajar a Pequim, Lula afirmou ter dito a Trump que “precisava voltar a olhar para os produtos” brasileiros. A China é atualmente o maior comprador do Brasil.

Um dos focos de interesse dos EUA e da China são os minerais de terras raras, recurso natural que o Brasil precisa de investimentos para explorar  “Não temos preferência sobre quem compra todos os minerais; qualquer pessoa que queira trabalhar conosco para nos ajudar a usar esse recurso natural é bem-vinda para vir ao Brasil”, disse Lula.

Panamá

O Canal do Panamá tornou-se o foco principal do discurso Trump contra a influência da China no hemisfério ocidental. Antes de assumir o seu segundo mandato, Trump acusou Pequim repetidas vezes de “operar” o canal, que é gerido por uma autoridade independente nomeada pelo governo panamenho. A China nega ter interferido nas operações do canal.

Em meio à  pressão de Washington, o Panamá anunciou em 2025 a sua saída da Iniciativa Cinturão e Rota, um programa de infraestruturas chinês que desde 2013 tem sido um símbolo da sua ascensão global.

Mas o canal continua sendo o centro da polêmica, com trocas de acusações entre Washington e Pequim.

O Governo do Panamá, mais alinhado com a Casa Branca, denunciou que a China aumentou a detenção de navios com bandeira panamenha para supostas inspeções, depois de as autoridades locais terem assumido a administração em ambas as extremidades do canal em fevereiro.

A medida das autoridades panamenhas foi motivada por uma decisão judicial que declarou inconstitucional um contrato com a Panama Ports Company e a sua empresa-mãe de Hong Kong, CK Hutchinson Holding, um grupo que operou os terminais durante quase três décadas.

Peru

O porto de Chancay, inaugurado por Xi Jinping em 2024, virou o projeto chinês mais emblemático no Pacífico Sul, como um grande centro logístico que facilitará um volume gigantesco de carga entre a Ásia e a América do Sul.

O terminal, 60% do qual pertence a uma empresa de capital chinês, despertou suspeitas em Washington, que este ano emitiu um alerta sobre a possibilidade de o governo do Peru perder poderes de supervisão.

O embaixador dos EUA em Lima, Bernie Navarro, alertou em fevereiro que o Peru poderia “perder a soberania” sobre esta questão.

De qualquer forma, a China continua avançando com um eixo em Chancay: a empresa chinesa Junefield assinou um contrato para um novo parque industrial em Ancón, localizado entre o terminal e o porto de Callao, com investimentos estimados em mais de US$ 1,2 bilhão para facilitar a movimentação de mercadorias.

Entretanto, o Peru mantém os seus laços com os Estados Unidos, no meio da sua turbulência política. Em abril, as autoridades assinaram um contrato para compra de aeronaves F-16 da empresa americana Lockheed Martin, um processo polêmico que desencadeou a demissão de dois ministros por divergências com o presidente.

Sob o governo do presidente Javier Milei, a Argentina optou por um forte alinhamento com Washington, especialmente em questões ideológicas. No entanto, a China continua a ser um dos principais parceiros comerciais do país sul-americano, concorrendo pelo primeiro lugar com o Brasil, e Milei moderou a sua linguagem em relação a Pequim.

Os Estados Unidos têm realizado exercícios militares no Atlântico Sul, área altamente estratégica, e realizaram diversas visitas de autoridades militares.

O governo Milei, que tem estado muito próximo de Trump e viajou várias vezes aos EUA, conseguiu um acordo financeiro importante de 20 bilhões de dólares em 2025, que permitiu evitar uma crise monetária pouco antes das eleições legislativas.

Mas a Argentina e os EUA têm economias que não se complementam. Os dois países americanos produzem soja, milho, trigo, carne ou óleo, e por isso Washington fica atrás da China, do Brasil e da União Europeia entre os principais parceiros comerciais. Além disso, a estação espacial chinesa em Neuquén e os investimentos estratégicos continuam a gerar suspeitas na Casa Branca.

O México, uma das maiores economias da região, reforçou alguns laços com a China, mas a sua margem de ação é limitada pela sua proximidade geográfica com os Estados Unidos. Washington também é o seu principal parceiro comercial e exerce maior influência no México do que em outros países mais distantes.

A relação com a China deve ser um dos principais pontos de debate quando os países forem negociar a renovação do acordo comercial entre México, EUA e Canadá, já que Washington quer evitar que empresas da Ásia, principalmente chinesas, utilizem o seu vizinho do sul como plataforma para entrar no mercado americano sem pagar tarifas.

Diante desta pressão, o México anunciou em dezembro aumentos nas tarifas sobre as importações vindas da China e de outros países sem acordos de livre comércio, de até 35% sobre centenas de produtos. Em resposta, a China disse que tem o direito de retaliar, embora não tenha anunciado tarifas.

Os investimentos chineses continuam: por exemplo, a montadora GAC ​​confirmou o início das operações de uma montadora no México para o segundo semestre deste ano.

A presidente Claudia Sheinbaum tem repetido que aborda a relação com Trump com “cabeça fria”, enquanto alguns críticos a acusam de “ceder” às exigências da Casa Branca.

O Chile mantém relações fluidas com Washington, ao mesmo que tempo tem um acordo de livre comércio com China e aderiu à Iniciativa Cinturão e Rota, demonstrando capacidade de equilibrar a sua diplomacia entre as duas potências.

O Chile é um território importante pelos seus minerais críticos para baterias e para a transição energética, além de alvo de competição para garantir o fornecimento estratégico de cobre e lítio.

No ano passado, o Chile cancelou a licitação de uma empresa chinesa para a produção de passaportes depois que os EUA ameaçaram cancelar o programa Visa Waiver, que autoriza a entrada sem visto no território americano.

Em fevereiro, antes da mudança de governo no Chile, o Departamento de Estado dos Estados Unidos retirou os vistos de três ​​chilenos que participaram na entrega de uma concessão para a construção de um cabo submarino de fibra ótica que ligasse a China ao país sul-americano. O impasse abalou a transição presidencial e continua em avaliação.

O ultradireitista José Antonio Kast tomou posse em março com um discurso mais parecido com o de Trump, embora sem mudanças radicais na política externa chilena.

A diplomacia do presidente do Equador, Daniel Noboa, é outro exemplo de um delicado equilíbrio entre os dois poderes. A sua gestão tem sido marcada pela luta contra a violência e o crime organizado, razão pela qual reforçou a sua cooperação em segurança com Washington e manifesta a sua proximidade ideológica. Ao mesmo tempo, defende a relação comercial com a China, fundamental para a economia do país.

Washington aumentou a assistência tecnológica, a coordenação militar e as operações conjuntas, e Noboa defende os EUA como parceiro estratégico contra o tráfico de drogas e a insegurança. O presidente participou da cúpula “Escudo das Américas”, convocada por Trump na Flórida, em março, mas deixou claro que não esfriará os laços com Pequim.

Noboa anunciou que pretende viajar para a China em agosto. Ele esteve no país pela última vez em junho do ano passado.

Venezuela

A captura do ditador Nicolás Maduro em janeiro e a mudança do governo chavista para uma postura mais alinhada a Washington abalou os interesses da China na Venezuela. Durante os anos em que as sanções de Washington pressionaram Caracas, Pequim manteve o seu apoio político e reforçou os laços no setor energético, mas a operação de 3 de janeiro mudou a situação.

Embora a China tenha reduzido a sua exposição financeira no país sul-americano, comprou mais de metade do petróleo bruto que a Venezuela exportou, e que é agora amplamente controlado pelos Estados Unidos e pelos seus interesses energéticos.

Assim, a influência de Pequim sobre a Venezuela está sendo reconfigurada diante do papel crescente de Trump, que está limitando as possibilidades da China. Quando o Departamento do Tesouro retirou significativamente as sanções aos bancos públicos venezuelanos, a licença excluiu expressamente as entidades chinesas, bem como as da Rússia, do Irã, da Coreia do Norte e de Cuba. A mesma proibição foi estabelecida quando as sanções ao setor petrolífero foram aliviadas.

No caso do Paraguai, a disputa acontece acima de tudo no plano diplomático: é o único país sul-americano que reconhece Taiwan oficialmente, ponto delicado na rivalidade entre Estados Unidos e China.

O presidente Santiago Peña visitou a ilha na semana passada. A viagem foi criticada por Pequim, que pressiona o Paraguai a romper relações com Taiwan.

A questão é motivo de debate no Paraguai, uma vez que os setores empresariais e os agroexportadores consideram que poderiam se beneficiar de uma melhor relação com a China, mas os Estados Unidos estão interessados ​​em manter essa posição.

Colômbia

A Colômbia, que nas últimas décadas foi um dos aliados mais próximos dos Estados Unidos, principalmente em questões de segurança, aprofundou os seus laços com a China durante o governo do presidente Gustavo Petro.

No ano passado, a Colômbia assinou um acordo de intenções para aderir à Iniciativa Cinturão e Rota depois declarou que a decisão também foi aprovada “porque lá não nos insultaram nem nos ameaçaram”, referindo-se às críticas de Washington. Semanas depois, o governo Trump cancelou a certificação da Colômbia na luta contra o tráfico de drogas, atribuindo a medida ao presidente colombiano.

A China tem ganhado destaque em obras de infraestrutura no país, incluindo a construção da Linha 1 do Metrô de Bogotá e da rodovia Urabá.



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