*O termo “tecnologia” nunca foi visto como um conceito correlato ou próximo do futebol. Na verdade, nos últimos anos muito se tem evocado o tal do “futebol raiz”, que tenta evocar a nostalgia de uma época em que o esporte era menos profissional e mais “rústico” do que atualmente.
O fato é que nos dias de hoje ferramentas como GPS, câmeras de última geração, big data, fibra ótica e até inteligência artificial (IA) fazem parte do cotidiano não somente de jogadores, mas dirigentes, executivos e torcedores que acompanham a elite do futebol mundial. E esse é o caso da LA LIGA, associação que organiza o principal esporte do mundo na Espanha.
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O TecMundo foi convidado pela liga profissional de futebol espanhola a acompanhar de perto como várias das principais tecnologias da atualidade servem para tornar a disputa nos gramados e a experiência dos fãs em algo único.
Confira, a seguir, como os dirigentes espanhóis enxergam nas soluções tecnológicas um diferencial para despertar a paixão não apenas do mercado local, mas do mundo todo.
Tecnologia feita “em casa”
A aposta na tecnologia na LA LIGA começa nos círculos internos da associação. Entendendo que investir em soluções inovadoras traz além de fãs um bom retorno financeiro, a LA LIGA tem um departamento de tecnologia que recentemente até ganhou um setor específico focado em IA.
Quem comanda esse departamento é Prasanna Kumar, que explicou que a liga tem projetos de IA “em todos os aspectos, desde a organização da competição até para empoderar os funcionários”. “A LA LIGA é uma das poucas empresas [no mundo do futebol] que põe o enfoque todo na tecnologia. [A tecnologia] é parte da nossa estratégia global”, comenta.
O executivo lembra que outro pilar do trabalho é a inovação. Apesar de parcerias com gigantes como a Microsoft, a LA LIGA estimula a criação “dentro de casa”, ou nas “canteras”, como se diz na Espanha. Um dos resultados desse trabalho de desenvolvimento de ferramentas próprias é o Tyche 3.0. O software utiliza aprendizado de máquina para monitorar possíveis casos de manipulação de resultados.
“Nossa organização investe fortemente no combate à fraude. Desenvolvemos diversas ferramentas anti-phishing, anti-manipulação de resultados e de combate a pirataria”, pontua Kumar.
“O feedback que estamos recebendo em relação ao trabalho no setor antifraude é positivo. Nenhuma outra liga está se empenhando tanto para proteger o conteúdo do futebol como a gente”, acrescenta.
Sobre isso, perguntado sobre o principal diferencial da LA LIGA na comparação com outros organizadores de campeonatos europeus, caso da Premie League (Inglaterra), Kumar ressalta justamente o trabalho proprietário. De acordo com ele, realizar os próprios projetos é uma vantagem competitiva que acaba se refletindo até no desempenho esportivo dos clubes.
“O que vejo é que elas [outras ligas de futebol] são muito dependentes do mercado. Se analisarmos do ponto de vista da implementação, por exemplo, nós estamos personalizando nossas soluções, nossas estratégias para nossos clubes e nossos torcedores”.
Democratização das ferramentas
Justamente por pensar nas soluções tecnológicas como algo para melhorar o futebol nacional, a Espanha aplica uma visão de negócios que pode ser descrita como democrática. Além de não pagar para participar da LA LIGA, os clubes recebem de graça praticamente todas as soluções e serviços gerados pela entidade.
Prasanna Kumar conta que os clubes recebem o mesmo suporte porque a ideia é manter certo equilíbrio na competição – por mais que Real Madrid e Barcelona acabem monopolizando o título da primeira divisão.
“E se algum clube não tem capacidade para usar as informações, nós fornecemos consultoria funcional. Se outro clube precisar de ajuda aprofundada para desenvolver suas tecnologias, também o auxiliaremos com nossas capacidades tecnológicas”, destaca.
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Dados dos jogadores
Outra importante – e inovadora – fonte de utilização de tecnologia no futebol espanhol é o Departamento de Performance Esportiva da LA LIGA.
O setor realiza análises detalhadas e minuciosas de todas as partidas com o objetivo de registrar os mais diversos dados. O acompanhamento faz com que os especialistas tenham informações sobre distância percorrida, sprints, velocidade máxima, passes, interceptações, bolas perdidas e uma infinidade de outros detalhes de cada jogador que atua no futebol espanhol.
Ricardo Resta, diretor de Football Intelligence da LA LIGA, conta que a área foi fundada em 2010 tendo em mente a possibilidade de reunir “experts em futebol” para orientar os departamentos de futebol dos clubes. Com a evolução dos softwares e principalmente a chegada da IA, o setor atualmente tem uma plataforma online.
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“A plataforma não se limita a ser tecnológica, mas também se configura como um conjunto de soluções adaptadas às diferentes necessidades da equipe técnica, do treinador, do preparador físico, do auxiliar técnico, do treinador de goleiros e dos demais envolvidos [no futebol]”, explica Resta.
Ele complementa dizendo que essa quantidade gigantesca de dados serve para evoluir o esporte na Espanha e garantir que as equipes possam atender as exigências individuais e coletivas da LA LIGA, que é um dos campeonatos mais competitivos do mundo.
A plataforma utilizada pelos especialistas e clubes se chama Performance e foi desenvolvida pela Sportian, uma empresa de tecnologia subsidiária da LA LIGA. Criada em 2021, a marca se chamava LA LIGA Tech e atualmente oferece soluções para outras competições e modalidades.
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O app Performance é utilizado, por exemplo, pelos treinadores e comissão técnica durante os jogos, tudo para que seja possível em tempo real obter informações de problemas táticos e técnicos do time. O acesso é realizado principalmente nos tablets que ficam presos nos tripés na beira do campo.
“Recentemente, também criamos um ambiente que chamamos de Sandbox. Ele é um ambiente analítico de dados que permite aos clubes acessar todos esses dados brutos com máquinas virtuais de alta capacidade computacional”, acrescenta Resta.
Big data da bola
O departamento de Football Intelligence da LA LIGA conta com soluções em três pilares: partida, transmissões ao vivo e pós-partida. Enquanto o software Performance auxilia nos primeiro e no último, há também plataformas utilizadas pelas emissoras que exibem o campeonato espanhol.
“Temos trabalhado em estreita colaboração com elas [emissoras] em aspectos como computação gráfica para televisão. Nosso objetivo é tornar o produto audiovisual cada vez mais atraente e interessante para o torcedor em termos de percepção visual. Nosso papel é garantir que os gráficos realmente ajudem o espectador a obter informações sobre os aspectos mais relevantes, como, por exemplo, se um time está recuperando mais bolas em uma área específica do campo do que sua média normal”, diz Ricardo Resta.
Nesse trabalho mais voltado ao torcedor, a LA LIGA também oferece ferramentas de TV como mapas de calor e estatísticas dos jogadores, por exemplo. Tudo isso aparece ao vivo e ajuda a tornar a experiência ainda mais imersiva.
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Fabio Nevado, analista de Futebol da LA LIGA, comenta que o gigantesco acervo de dados da competição conta com jogos completos gravados desde meados de 2017, que estão completamente acessíveis para os clubes. E apesar de os times não terem acesso, o departamento tem ainda gravações em vídeo de partidas desde 2010.
Os especialistas dizem que a IA ajuda a cruzar esse big data para auxiliar em praticamente qualquer necessidade que os times tenham. “Não fazemos isso [análise de dados] de maneira retrospectiva porque entendemos que ainda não é relevante. No entanto, como trabalhamos sob demanda dos clubes, se um clube nos pede para replicar esse relatório para temporadas anteriores porque querem comparar dados, nós faremos”, sustenta Nevado.
Questionado sobre se o departamento de Football Inteligence monitora clubes de outros países, o analista explica que a lógica é a mesma do que no caso de dados antigos. Se os times espanhóis quiserem informações esportivas para jogar a Champions League, eles precisarão pedir para a LA LIGA e pagar por isso.
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“Nesta temporada, Atlético de Madrid, Real Madrid e Barcelona usaram todas as informações em seus jogos da Liga dos Campeões. Até mesmo se algumas equipes adversárias de outros países quiserem, nós também trocamos informações”, diz.
“Por exemplo, com o Bayern de Munique neste ano houve troca de informações. Temos, inclusive, muita trocas com a Bundesliga (Campeonato Alemão) por similaridade de sistemas”, finaliza.
E todo esse trabalho mirando o futuro já dá frutos no presente. Nos últimos vinte anos, clubes espanhóis venceram a UEFA Champions League por dez vezes. Na história, a Espanha é a maior campeã do torneio com vinte títulos, contra quinze da Inglaterra e doze da Itália.
*O jornalista viajou para a Espanha a convite da LA LIGA.











