Em abril, os principais índices acionários de Wall Street (Dow Jones, Nasdaq e S&P 500) mostraram crescimento robusto. Os três registraram ganhos de mais de 7%, de 15% e de 10%, respectivamente.
Em maio, o ritmo prevalece. Na sexta-feira (8), inclusive, o Nasdaq e o S&P 500 renovaram recordes, fechando com ganhos de 1,71%, a 26.247 pontos, e de 0,84%, a 7.398 pontos, respectivamente.
Apesar da volatilidade geopolítica, com a guerra no Oriente Médio ainda sem um prazo definido para acabar e com o petróleo Brent acima de US$ 100 o barril, tendo chegado a US$ 126 em 30 de abril, o otimismo no mercado parece resistir.
O avanço do Dow Jones no mês passado foi o maior desde novembro de 2024, enquanto o do Nasdaq foi o maior desde abril de 2020. Para o S&P 500, foi o melhor mês desde novembro de 2020. Além disso, o S&P 500 já ganhou cerca de 8% em 2026, enquanto o Nasdaq subiu aproximadamente 13%.
O desempenho foi impulsionado, em parte, pelos fortes resultados corporativos e pelo otimismo em relação ao cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã. O entusiasmo dos investidores pelo boom da inteligência artificial também contribuiu para a alta.
Mas o cenário parece contraditório, com os preços do petróleo cerca de 40% mais caros desde o início da guerra, o que elevou os custos de energia para empresas e consumidores.
O Nasdaq, composto por ações de tecnologia, e o Dow Jones chegaram a entrar em território de correção — quando uma ação ou índice cai 10% ou mais em relação a um pico recente – por conta do conflito.
Mas após o anúncio do cessar-fogo entre EUA e Irã, o movimento de valorização tomou conta. E não porque o noticiário não tem mais peso para os investidores – pelo contrário.
Os preços do petróleo, por exemplo, fecharam em alta na sexta-feira (8), apesar de encerrar a semana no negativo, em um mercado de olho nos desdobramentos da guerra no Oriente Médio.
As cotações reagiram ao aumento de tensões no Estreito de Ormuz, onde Estados Unidos e Irã trocaram ataques na região, mesmo sob um cessar-fogo formalmente em vigor, conforme declarado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na quinta-feira (7).
Mas o foco dos investidores, neste momento, está em outros pontos do mercado.
É o que corrobora Will Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue. “Primeiro, acho que o ponto relevante é que a percepção em relação ao conflito mudou”, disse.
“Se no início havia aquele receio de que esse conflito pudesse virar algo como uma Guerra do Golfo, com todos os países da região em conflito, essa percepção diminuiu”, continuou.
E o que explica essas altas?
Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, aponta que as altas de abril têm como base lucros corporativos sólidos, especialmente em tecnologia e financeiro.
Das 440 empresas do S&P 500 que divulgaram os resultados do primeiro trimestre até agora, 83% superaram as estimativas de lucros dos analistas, de acordo com dados da LSEG.
“Ao mesmo tempo, o mercado passou a acreditar que o choque de energia, embora relevante, ainda não foi suficiente para destruir o ciclo de lucros nem forçar uma virada imediata da política do Fed”, frisa Zogbi.
“Você tem um impulso muito forte de tech. Essa alta é sustentada por revisões de lucros positivas, ou seja, o mercado projetando que os lucros vão ser maiores e isso acaba ajudando positivamente as ações. Essa expectativa de maiores lucros, vem muito por conta do setor de semicondutores, em especial do segmento de memórias”, complementa Will Castro Alves.
Em 29 de abril, o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, manteve as taxas de juros estáveis entre 3,5% e 3,75%.
E para Marink Martins, especialista em temas macroeconômicos globais, a influência do BC americano é mais neutra no contexto atual.
“O Fed não vem ajudando no que diz respeito à expectativa de redução de juros, mas ele também não vem atrapalhando. Então, o mais provável agora é que a taxa básica da economia americana vá se manter estável entre 3,5% e 3,75% por bastante tempo. A expectativa do mercado é que se houver um corte, esse corte vai ocorrer somente em 2027”, analisou.
O mercado de trabalho americano também deu sinais de força na sexta-feira (8), com a divulgação do Payroll. O país criou 115 mil empregos em abril, um resultado acima do esperado pelo mercado. A taxa de desemprego se manteve em 4,3% no período.
O mercado pode estar subestimando os riscos?
A resposta é sim.
Como exportador de energia, os Estados Unidos têm resistido melhor até agora do que outras economias. O país, porém, que é o maior produtor mundial de petróleo, tem sentido o choque histórico da commodity.
O preço médio nacional do galão de gasolina nos EUA estava em US$ 4,53 no sábado (9), ante uma média de US$ 2,98 por galão antes do início da guerra, de acordo com a Associação Automobilística Americana. Por conta do bloqueio de Ormuz, o nível voltou a ficar acima de US$ 4 pela primeira vez desde julho de 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, e o valor atual marca um aumento de mais de 50% desde o início do conflito com o Irã.
“Boa parte dessa alta tem um fundamento no que diz respeito à lucratividade dos Estados Unidos. No entanto, caso essa guerra se intensifique e as pressões inflacionárias advindas de um petróleo mais alto e problemas no que diz respeito a fertilizantes e outros itens que acabam sendo impactados diretamente pela guerra, a gente pode, de fato, ter uma mudança no mercado. Ainda não é o cenário base, mas há certamente estes riscos”, alertou Marink Martins.
Paula Zogbi argumenta que, se a escalada atingir mais diretamente a oferta de petróleo e mantiver o choque energético por mais tempo, “o efeito pode voltar via inflação, margens corporativas, consumo e múltiplos de ações, potencialmente levando a um cenário de estagflação”.
“O mercado parece estar precificando um cenário em que o conflito continua “administrável”, sem ruptura maior da oferta global, mas o aspecto mais sensível é o de energia: qualquer dano adicional a rotas como o Estreito de Ormuz pode recolocar a discussão sobre choque de oferta e reaceleração inflacionária”, destacou a estrategista-chefe da Nomad.
Zogbi apontou ainda que o mercado americano está voltado a poucos nomes e temas.
“Apenas 3 companhias foram responsáveis por 71% do crescimento dos lucros do S&P500 entre os resultados divulgados na semana retrasada. Essa concentração também deixa o índice mais sensível ao noticiário relacionado ao segmento de tecnologia e IA, e potencialmente mais volátil. Ao mesmo tempo, o índice pode subir muito sem que necessariamente o crescimento seja pulverizado na economia de forma ampla”, pondera Zogbi.
E o Brasil?
Um petróleo mais alto influencia diretamente os preços dos combustíveis, pressiona a inflação e, consequentemente, as taxas de juros.
“Por isso o Ibovespa caiu em vários trechos de abril quando o mercado reprecificou inflação e Selic. Ao mesmo tempo, o Brasil também pode se beneficiar em parte via exportadoras e petroleiras, mas esse ganho costuma ser insuficiente para compensar a piora do apetite a risco quando a geopolítica volta a piorar, especialmente porque o fluxo estrangeiro vem sendo o grande motor da bolsa doméstica”, explica Paula Zogbi. Além disso, ela destaca que uma leitura de inflação mais alta reduz a margem para cortes mais agressivos do Copom.
“A gente tem um certo desarranjo global. O preço do petróleo subiu, isso é bem positivo para Petrobras, mas traz diversas consequências negativas para o Brasil”, avalia Marink Martins.
Ele comparou ainda que, caso a guerra se intensifique ou continue, o Brasil sentirá as consequências, mas um pouco menos do que a Ásia, por exemplo, que é mais vulnerável do ponto de vista energético e também do ponto de vista de commodities agrícolas.
Vale destacar que a Europa também é uma região fortemente dependente do Oriente Médio para o fornecimento de petróleo e, por sua vez, tem registrado níveis abaixo do período pré-guerra.











