O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, acusou Israel de permitir conscientemente que grãos roubados pela Rússia sejam descarregados em portos israelenses, ameaçando impor sanções a qualquer pessoa envolvida nos carregamentos, que, segundo Kiev, continuaram apesar dos múltiplos apelos às autoridades israelenses.
O alerta de Zelensky nesta terça-feira (28) reflete um aprofundamento da tensão entre os dois países, que chegou ao auge com a chegada em águas israelenses de um navio chamado Panormitis, que entrou na Baía de Haifa na semana passada e está atualmente ancorado ao largo, aparentemente aguardando um local para atracar.
A Ucrânia afirma que o navio transporta trigo roubado de territórios ucranianos ocupados e que este seria o segundo carregamento desse tipo a atracar e descarregar em Haifa neste mês.
“Em qualquer país normal, comprar mercadorias roubadas é um ato que acarreta responsabilidade legal. Isso se aplica, em particular, aos grãos roubados pela Rússia”, escreveu Zelensky em publicação na rede social X.
“Isso não é – e não pode ser – um negócio legítimo. As autoridades israelenses não podem desconhecer quais navios estão chegando aos portos do país e qual carga transportam”, afirmou o presidente ucraniano.
Em uma série de respostas contundentes, o Ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, acusou a Ucrânia de praticar “diplomacia do Twitter”, afirmando que o país não apresentou provas para sustentar sua alegação de que os grãos foram roubados.
Ele também ressaltou que o controverso navio Panormitis ainda não havia atracado em Haifa, acrescentando que as autoridades fiscais israelenses estavam examinando o caso.
Desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, há mais de quatro anos, Kiev tem acusado consistentemente Moscou de saquear sistematicamente seus recursos agrícolas – cuja verdadeira origem, segundo o país, fica oculta quando os grãos roubados são vendidos nos mercados mundiais.
Segundo uma reportagem investigativa do jornal israelense Haaretz, pelo menos quatro carregamentos de grãos ilegais atracaram em Israel este ano. A reportagem acrescentou que essas entregas vêm ocorrendo desde 2023, totalizando mais de 30.
Após a reportagem do Haaretz e a chegada do navio Panormitis, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, convocou na terça-feira o embaixador israelense em Kiev para protestar contra o que chamou de “falta de resposta adequada de Israel”, acrescentando que isso “prejudicou as relações bilaterais”.
Um funcionário israelense, falando à CNN sob condição de anonimato, disse que Israel não pode apreender os carregamentos sem o devido processo legal, observando que existe um “protocolo de assistência jurídica mútua estabelecido”, segundo o qual o procurador-geral da Ucrânia precisaria apresentar um pedido de assistência jurídica, fornecer provas e coordenar com a polícia israelense para deter o navio.
Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia rejeitou essa afirmação, dizendo à CNN durante uma coletiva de imprensa em Kiev nesta terça-feira que a Ucrânia havia “esgotado todos os canais fechados e pedidos diplomáticos oficiais”.
O porta-voz acrescentou que Israel não estava sozinho na importação de grãos ilegais, afirmando que a Ucrânia viu evidências de uma “prática sistemática” que demonstra a “facilitação deliberada de atividades econômicas ilegais” ligadas à ocupação russa de partes da Ucrânia.
A UE (União Europeia) também se manifestou, solicitando informações adicionais às autoridades israelenses sobre o assunto e alertando que poderá impor sanções aos envolvidos.
“Condenamos todas as ações que ajudam a financiar o esforço de guerra ilegal da Rússia e a contornar as sanções da UE, e permanecemos prontos para punir tais ações, incluindo indivíduos e entidades em listas de sanções em países terceiros, se necessário”, disse um porta-voz da UE à CNN.
As relações entre Israel e Ucrânia têm permanecido tensas desde a invasão em larga escala pela Rússia em 2022. Os líderes israelenses têm procurado manter canais de comunicação abertos com Kiev e Moscou, limitando a assistência militar à Ucrânia principalmente à ajuda humanitária não letal e rejeitando a pressão para transferir sistemas de armas e armamentos de fabricação israelense para Kiev.
Mais recentemente, a Ucrânia se posicionou como um provedor de segurança regional no Oriente Médio, oferecendo parcerias e experiência, especialmente em defesa contra drones, após Israel e os Estados Unidos iniciarem sua guerra contra o Irã.
O próprio Zelensky visitou a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Catar e a Jordânia no mês passado, mas não fez uma parada em Israel.
(Com informações de Victora Butenko e Kosta Gak, da CNN, em Kiev)











