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De Jorge Ben Jor ao cinema: como Ogum influencia a cultura brasileira


Uma das figuras centrais nas religiões afro-brasileiras, Ogum ultrapassa os terreiros e se firma como uma presença marcante na cultura brasileira. Associado à guerra, ao ferro e à tecnologia, o orixá também simboliza, para os adeptos, caminhos abertos, proteção e resistência — elementos que atravessam a música, o cinema, a literatura e o imaginário popular.

Sincretizado em diversas regiões do Brasil com São Jorge, Ogum compartilha com o santo o dia 23 de abril como data de celebração. A escolha remete à morte de Jorge de Lida, um soldado romano que se recusou a renunciar à fé cristã e acabou condenado à execução pelo imperador Diocleciano, no ano de 303.

Cultuado especialmente no Candomblé e na Umbanda, Ogum é também associado à coragem e à abertura de caminhos, sendo visto como a força que impulsiona o enfrentamento dos desafios. Ligado ao ferro e aos instrumentos de trabalho, o orixá também carrega um simbolismo conectado ao progresso e à transformação, o que ajuda a compreender por que sua imagem atravessa diferentes manifestações culturais no Brasil.

A força de Ogum na música brasileira

Na música, Ogum ganha voz e ritmo. Artistas como Jorge Ben Jor e Zeca Pagodinho ajudaram a popularizar referências ao orixá em canções que misturam samba e espiritualidade. Em suas letras, elementos da cultura afro-brasileira aparecem de forma natural, celebrando identidade, fé e ancestralidade.

Outro exemplo é Clara Nunes, cuja carreira foi profundamente marcada pela valorização das religiões afro-brasileiras. Seu repertório inclui diversas homenagens aos orixás, contribuindo para levar esses símbolos a um público mais amplo e diverso.

Nomes como Mano Brown e Emicida também incorporam referências a Ogum e à ancestralidade africana em suas composições, conectando tradição e contemporaneidade.

Do terreiro às telas: Ogum no cinema

O cinema brasileiro também dialoga com a simbologia de Ogum, seja de forma direta ou indireta. Produções que abordam a religiosidade afro-brasileira ou a identidade negra frequentemente recorrem à figura do orixá como símbolo de luta, resistência e proteção.

Um dos exemplos mais emblemáticos é “O Amuleto de Ogum” (1974), dirigido por Nelson Pereira dos Santos. O longa acompanha a trajetória de um jovem ligado à espiritualidade e à figura do orixá central, explorando temas como fé, destino e violência. A obra se tornou um marco ao trazer elementos das religiões afro-brasileiras para o centro da narrativa, em um período em que essas representações ainda eram pouco exploradas no audiovisual.

Filmes como “Besouro” (2009) também exploram o universo da capoeira e das tradições afro-brasileiras, onde a espiritualidade desempenha papel fundamental. Já em documentários e produções independentes, Ogum costuma surgir como metáfora para a superação e a força coletiva, reafirmando sua potência simbólica dentro e fora das telas.

Tradição à mesa

Em muitas regiões do Brasil, a feijoada dedicada a Ogum se consolidou como uma tradição que vai além do aspecto religioso e ganha contornos culturais e comunitários. Servida em terreiros, festas e encontros, a chamada “feijoada de Ogum” reúne pessoas em torno da partilha e da celebração.

Essa prática, no entanto, seria uma adaptação brasileira dos rituais de culto ao orixá. No continente africano, as oferendas a Ogum costumam incluir alimentos como o inhame-cará, o que evidencia como as tradições se transformam ao longo do tempo e dos territórios.

Nesse contexto, a escolha da feijoada também dialoga com a própria história do prato no Brasil. Popularmente associada aos povos escravizados, a receita teria surgido a partir do aproveitamento de partes menos valorizadas do porco, combinadas ao feijão — ingredientes acessíveis que, com o tempo, deram origem a um dos símbolos da culinária nacional.

Ainda que historiadores apontem diferentes versões para essa origem, a narrativa permanece como um importante marcador de resistência e criatividade das populações negras durante o período da escravidão.



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