Há exatos 526 anos, em 22 de abril de 1500, a chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral ao território brasileiro foi registrada na história como tendo ocorrido em Porto Seguro, na Bahia.
A versão foi consolidada ao longo dos séculos e ensinada nas escolas como o marco inicial do Brasil. Um novo estudo, no entanto, volta a questionar essa narrativa.
A pesquisa dos físicos Carlos Chesman, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e Cláudio Furtado, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), aponta que o primeiro contato pode ter ocorrido no litoral do Rio Grande do Norte.
O trabalho foi publicado no Journal of Navigation e utiliza dados da carta de Pero Vaz de Caminha, além de simulações de ventos, correntes marítimas e profundidade do oceano. A CNN Brasil foi até o local para entender melhor essa história.
Metodologia científica e simulações
Para chegar até o resultado da hipótese, os pesquisadores cruzaram informações históricas com dados físicos e matemáticos. A análise incluiu:
- Conversão das “braças” descritas na carta para metros;
- Estudo da batimetria (profundidade do oceano);
- Simulações com softwares como QGIS;
- Análise de correntes marítimas e ventos do Atlântico.
Além disso, a equipe realizou expedições reais em alto-mar, navegando cerca de 30 km da costa para reproduzir a visão descrita pelos portugueses.
Segundo o pesquisador Carlos Chesman, a investigação seguiu o método científico tradicional:
Eu sou mais da física. da matemática. Então a gente usa essencialmente o método científico, que é a observação, a hipótese, testar.
Ele explica que os dados da carta foram analisados sob uma perspectiva técnica: “A gente pegou esses números e fez uma interpretação física. E a partir dessa interpretação física, a gente foi para o campo fazer medidas.
O pesquisador destaca que não há uma única prova definitiva sobre o assunto: “Qual é a maior prova? É o tempo que vai procurar responder isso. Mas a nossa contribuição foi científica em termos das ciências da natureza, física e matemática.”
Papel da rota marítima
Um dos principais pontos do estudo é a análise das correntes marítimas. Segundo os pesquisadores, a rota natural das embarcações no século XV favoreceria a chegada pelo litoral do Rio Grande do Norte — e não pela Bahia.
As simulações indicam que seguir os ventos levaria a frota a fazer uma trajetória em “S”, chegando ao local que hoje corresponde ao município de São Miguel do Gostoso, localizado à cerca de 100km de Natal.

“Se eu sigo essa trajetória que segue os ventos, faz uma espécie de uma perna de um S e chega no litoral do Rio Grande do Norte”, apontou Chesman.
Já a rota em linha reta, que levaria a Porto Seguro, não seria compatível com a navegação da época:
Se for em linha reta, dá em Porto Seguro. Mas as embarcações são movidas, na época, ao vento.
Locais citados no estudo
A pesquisa aponta uma sequência de pontos no litoral potiguar que corresponderiam à descrição da carta:
- Maxaranguape: possível ponto de avistamento de um monte (associado ao atual Monte Serra Verde)
- Praia do Zumbi (Rio do Fogo): primeira aproximação da frota
- Barra do Punaú: possível foz de rio citada na carta
- Praia do Marco (Touros): local de ancoragem e desembarque
- Cabo de São Roque: referência geográfica e ponto estratégico de navegação
- Barreira do Inferno (Natal): possível correspondência às “grandes barreiras vermelhas”
No caso do monte descrito por Caminha, o estudo sugere que não se trata do Monte Pascoal (BA), mas do Monte Serra Verde (RN).
Interpretação histórica e popular
Para o professor e historiador Laécio de Jesus, ouvido pela CNN Brasil e um local próximo ao Cabo de São Roque, fatores naturais reforçam a hipótese.

Ele cita a localização estratégica do litoral potiguar e segundo ele, características geográficas também influenciaram a navegação: “Ao chegar aqui à nossa costa, eles encontraram o que nós chamamos de beachwalks, né, ou baixinhos do São Roque. São elevações rochosas e elas ficavam muito sinuosas no mar”.
O historiador afirma que isso pode ter dificultado a aproximação direta das caravelas, exigindo embarcações menores. Ele também destaca o impacto cultural da teoria na população local:
Eu costumo dizer que uma ideia é plantar o pertencimento. Essa identidade, essa reafirmação: ‘Eu sou potiguar, o Brasil começou aqui’.
A hipótese também encontra está memória popular da região. O pescador Luiz Antônio, conhecido como “Fefeu”, relatou, em um barco que simulava o que seria a visão dos portugueses, à reportagem:
“Pois é, como eu estava falando com você, o descobrimento foi aqui. meu avô me falou, minha mãe também, entendeu? Aqui tinha só uma barraquinha de palha. Aí eu marco o original foi pra Natal, levaram pra lá.”

Como a história impacta o local
O tema já faz parte do debate educacional em algumas escolas do Rio Grande do Norte. O professor de história Thalysson Diogo afirma que os alunos são apresentados a diferentes versões:
“Então, como nós trabalhamos aqui na escola especificamente com o projeto, a gente apresenta mais de uma versão. A versão tradicional, ela é apresentada. E a gente bota o contraponto a isso.”
Ele explica que a proposta, além da polêmica, é estimular o pensamento crítico. Segundo o professor, a análise comparativa faz parte do processo de aprendizado.
“A história é uma ciência humana. Ela está em constante mudança, em constante discussão, constante debate”, afirmou.
Turismo cresce
Além do campo acadêmico, a discussão sobre o local do descobrimento também envolve interesses ligados ao turismo. A disputa por narrativas históricas pode impactar diretamente o fluxo de visitantes e a valorização da região.
No litoral do Rio Grande do Norte, cidades como São Miguel do Gostoso já começam a sentir esse movimento. O município tem recebido turistas interessados não apenas pelas praias, mas também pela possibilidade de conhecer os locais associados à nova hipótese sobre a chegada dos portugueses.
O número de turistas estrangeiros no estado teve alta de 159,13% no primeiro trimestre de 2026, colocando o Rio Grande do Norte como a unidade da federação com maior aumento percentual de visitantes internacionais, segundo dados da Embratur, em conjunto com o Ministério do Turismo e a Polícia Federal.
Empresários locais já começam a adaptar passeios e roteiros turísticos para incluir a narrativa histórica. Experiências de barco, visitas guiadas e explicações sobre os pontos citados na pesquisa passaram a ser incorporadas.
Debate segue aberto
Apesar dos pontos apresentados, a teoria não substitui oficialmente a versão tradicional ensinada nos livros didáticos. O próprio pesquisador Carlos Chesman reconhece que a validação definitiva depende do tempo e de novos estudos. A pesquisa, no entanto, retoma uma linha de investigação que já vinha sendo discutida por outros autores, como o escritor Lenine Pinto.
*O repórter viajou ao Rio Grande do Norte à convite da Emprotur (Empresa Potiguar de Promoção Turística).











