O coronel José Hélio Cysneiros Pachá voltou ao comando da Secretaria de Estado da Segurança, Defesa e Cidadania (Sesdec) de Rondônia. A recondução foi formalizada no início de abril pelo governo estadual chefiado pelo bolsonarista Marcos Rocha e já aparece na página oficial da secretaria, que o lista novamente como secretário de Estado da Segurança, retornando, assim, ao posto que já havia ocupado anteriormente.
Pachá volta ao cargo enquanto seguem sem arquivamento nem denúncia pública as apurações da chamada Operação “Ben-Hur”. Segundo o Diário da Amazônia, a investigação, conduzida pela Polícia Federal (PF) com acompanhamento do Ministério Público de Rondônia (MP-RO), continua em curso e sob sigilo, envolvendo contratos de locação de viaturas firmados quando ele já comandava a Sesdec. A mesma reportagem afirma que não houve decisão judicial de arquivamento e que os contratos sob análise somam cerca de R$ 33 milhões, em apuração que envolve suspeita de fraude na contratação pública, favorecimento dirigido da empresa contratada e prejuízo aos cofres públicos.
Absolvido pelo velho Estado, condenado pelo Tribunal Popular
Pachá é conhecido pelo movimento camponês como o “carniceiro de Santa Elina” pelo sinistro papel que cumpriu no episódio chamado pelos monopólios de imprensa de “Massacre de Corumbiara”, em 1995, que os camponeses caracterizam como Batalha de Santa Elina ou Heroica Resistência Camponesa Armada de Corumbiara. Na ocasião, cerca de 300 homens, entre policiais e pistoleiros, atacaram famílias camponesas que ocupavam a fazenda Santa Elina, no sul de Rondônia. O saldo oficial foi de oito lavradores assassinados, 20 desaparecidos, cerca de 350 feridos e dois policiais mortos. Pachá comandava um dos batalhões da Polícia Militar de Rondônia (PM-RO) envolvidos na operação e acabou absolvido pelo júri em agosto de 2000.
Se no velho judiciário burocrático-latifundiário Pachá encontrou impunidade, na justiça popular recebeu condenação. Nos dias 28 e 29 de março, ele foi condenado no Tribunal Popular contra os Crimes do Latifúndio, realizado em Porto Velho (RO). O encontro, que tem por objetivo elucidar ao público a ilegalidade e crimes cometidos contra o povo sob as leis do próprio regime reacionário, reuniu camponeses, indígenas, quilombolas, apoiadores da luta pela terra e organizações populares. Ao final, os jurados condenaram simbolicamente o latifúndio e seus serviçais, entre eles o ex-comandante-geral da PM-RO, Régis Braguin, e o próprio José Hélio Cysneiros Pachá, responsabilizados no Tribunal pela repressão no campo e pelo extermínio de camponeses.
Tribunal Popular ouve sobreviventes e responsabiliza policiais por extermínio em acampamentos de Rondônia – A Nova Democracia
O Tribunal de Popular Contra os Crimes do Latifúndio condenou o conluio de grileiros que ao longo de décadas, resultando em mortes de indígenas, camponeses e de um advogado.
A recondução do carniceiro ao comando da segurança estadual coincidiu também com um novo movimento das velhas instituições em torno dos crimes agrários em Rondônia. Em 14 de abril, a PF e o Ministério Público Federal (MPF) deflagraram operação para investigar a morte de oito camponeses e dirigentes em contexto de conflito agrário. Segundo a própria PF, foram cumpridos mandados em Porto Velho, Candeias do Jamari e Ji-Paraná, em apuração sobre crimes cometidos entre 2009 e 2016 em diferentes municípios do estado. O AND registrou que a operação ocorreu dias após o Tribunal Popular e ouviu organizadores que a apontaram como resultado de anos de luta pela federalização dessas investigações.
O mesmo Pachá que retorna agora ao comando da Sesdec já aparecia, em 2021, nas denúncias sobre operações repressivas contra áreas camponesas em Rondônia. Em novembro daquele ano, enquanto secretário estadual de Segurança, coordenou a chamada Operação “Nova Mutum”, lançada contra as áreas Tiago Campin dos Santos, Ademar Ferreira e Dois Amigos, em Nova Mutum Paraná. Meses antes, em abril, articulou o cerco militar contra o Acampamento Manoel Ribeiro, em Chupinguaia, erguido sobre terras da antiga Santa Elina.
Pugnas reacionária em torno da questão agrária
A nomeação também se dá em meio às pugnas entre o governo rondoniense infestado de elementos bolsonaristas e da extrema direita latifundiária e o governo federal sob o gerenciamento oportunista de Luiz Inácio (PT), pressionado em ano de farsa eleitoral e temeroso de uma maior repercussão dos crimes do latifúndio e da luta pela terra.
Em novembro de 2025, a PM-RO cercou uma reunião entre camponeses despejados de assentamentos em Machadinho D’Oeste e representantes do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), obrigando os presentes a se identificar. À época, os camponeses denunciaram a ação como intimidação e criminalização da luta pela terra, enquanto o próprio representante do MDA afirmou que a PM impediu o prosseguimento do encontro e tratou a reunião institucional “como uma operação de cerco”.
A exoneração do coronel Régis Braguin do comando-geral da PM-RO, em janeiro, também entrou nesse mesmo quadro. O AND noticiou que Braguin caiu após a repercussão de registros de violência doméstica e infrações de trânsito (dirigir carro oficial embriagado), mas destacou que sua gestão foi marcada pelo aumento da letalidade policial e pelo terrorismo contra áreas camponesas e os pobres do campo. Em nota divulgada em 16 de abril, a LCP sustentou que Braguin foi “defenestrado” não apenas pelo escândalo público, mas também porque veio à tona, às vésperas do ano eleitoral, a denúncia de sua carreira de crimes.
Extrema direita latifundiária arma nova campanha contra a LCP
A intensificação das denúncias públicas contra os crimes do latifúndio e as investigações sobre assassinatos no campo vieram acompanhadas de nova ofensiva de demonização e criminalização contra a Liga dos Camponeses Pobres (LCP).
No mais recente capítulo da campanha de criminalização contra a luta camponesa em Rondônia, a Comissão Nacional das LCP divulgou, em 16 de abril, nota negando autoria do ataque à sede da ex-fazenda NorBrasil e acusando diretamente o chamado “bando do Jed” de ter praticado a ação. Segundo a organização, o episódio foi usado pela “imprensa lixo” de Rondônia para tentar jogar a culpa sobre a Liga e criminalizar a resistência camponesa na área Tiago Campin dos Santos.

LCP nega autoria de ataque à sede da NorBrasil e acusa grupo armado ligado ao latifúndio – A Nova Democracia
Em declaração oficial divulgada em 16 de abril, a Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres afirma que a ação foi usada para “criminalizar a sagrada luta dos camponeses pobres pela terra e demonizar a LCP” e atribui o ataque ao chamado “bando do Jed”, utilizado pela polícia e pela extrema direita latifundiária em Rondônia.
Na nota, a LCP afirma que “a trampa para criminalizar a sagrada luta dos camponeses pobres pela terra e demonizar a LCP foi orquestrada pela extrema direita latifundiária de Rondônia, com a participação do defenestrado comandante geral da PM, o matador de pobres Coronel Braguin”. A Liga também apontou como objetivo da armação “desviar o foco das investigações em curso de seus próprios crimes”, justamente no momento em que PF e MPF avançavam sobre assassinatos de camponeses ocorridos entre 2009 e 2016.
Ainda segundo a LCP, a armação envolve grileiros, o “bando do Jed”, setores do aparato policial e figuras do velho Estado empenhadas em expulsar famílias camponesas da área e transformar novamente a Liga em ré. A organização também vinculou o caso ao reaparecimento público de Braguin e ao funcionamento de grupos de extermínio contra camponeses pobres.
A recondução de Pachá, a retomada das investigações sobre assassinatos no campo e a nova campanha de criminalização contra a LCP se dão, assim, no mesmo quadro político em Rondônia: de um lado, cresce a exposição dos crimes do latifúndio e de seus bandos armados; de outro, o governo Marcos Rocha volta a colocar na chefia da Segurança Pública um nome ligado, há décadas, à repressão contra os pobres do campo.

Calendário 2026 – Liga dos Camponeses Pobres (LCP)
Como forma de apoio à luta pela terra em nosso país, temos a alegria de fornecer calendários 2026 temáticos produzidos pela Liga dos Camponeses Pobres (LCP)….









