Se você assistiu à série Bebê Rena, que conquistou público e crítica na Netflix, e ficou incomodado(a) com os personagens da trama, prepare-se. Richard Gadd, ator e roteirista da icônica obra, está de volta com a série Pela Metade, que chega no dia 23 de abril, quinta-feira, no HBO Max.
Apesar de ter mudado de serviço de streaming, o trabalho de Gadd segue no mesmo estilo – e, na verdade, ainda mais cru. Em sua nova série, que brilha em qualidade técnica e narrativa, o criador de Bebê Rena entrega uma produção ainda mais brutal e incômoda, com personagens que vão te tirar do sério.
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O Minha Série teve a chance de assistir, de maneira antecipada, os seis episódios da obra, que será lançada semanalmente no HBO Max. Confira, a seguir, a crítica completa e sem spoilers.
Qual a história de Pela Metade?
A série Pela Metade acompanha a história de dois “irmãos de mães diferentes”, que passam a morar juntas, contada em duas linhas do tempo. No começo e no final de cada episódio, vemos o casamento de Niall Kennedy, interpretado por Jamie Bell, a partir da chegada do seu “irmão de outra mãe” Ruben Pallister, que estava na prisão e claramente não era bem-vindo na cerimônia.
Durante o decorrer de cada capítulo, acompanhamos os 30 anos de história que levaram até a rivalidade entre a dupla no casamento. Voltando aos anos 80, a narrativa mostra as mães dos jovens dividindo uma casa com o tímido Niall, interpretado por Mitchell Robertson, e o bad boy adolescente Ruben, vivido pelo ator Stuart Campbell.
A produção se passa na Escócia, terra natal de Richard Gadd, e aborda temas tão pesados quanto os vistos em Bebê Rena. Durante os seis episódios, o público acompanha um retrato cru e brutal sobre sexualidade, masculinidade tóxica, violência e abuso – e como todos esses fatores afetam jovens e adultos durante a vida.
No entanto, narrativamente falando, a parte mais interessante são as surpresas. Enquanto a série pode assustar com suas cenas chocantes, o desenvolvimento dos personagens é primoroso, com reviravoltas que podem deixar o público irritado, mas extremamente curioso com o andar da carruagem.
Série combina mistério com retrato gráfico sobre masculinidade
Apesar de trazer saltos entre presente e passado, a série conta com uma linha narrativa fácil de ser compreendida. Enquanto os primeiros episódios acompanham a juventude de Ruben e Niall, os capítulos finais dão destaque para sua vida adulta, culminando no fatídico casamento que começa e termina os episódios.
No miolo dos episódios de aproximadamente uma hora, acompanhamos o crescimento dos personagens na escola e seu caminho para a vida adulta. Já a cerimônia que acontece três décadas depois serve como um grande gancho que movimenta toda a narrativa e cria expectativa para o próximo episódio, garantindo doses de mistérios constantes para os lamçamentos semanais.
Afinal, por que Niall e Ruben brigaram? Qual o motivo da prisão do irmão mais velho? Esses gatilhos servem muito bem para deixar o espectador engajado e podem movimentar as redes sociais sem precisar do “binge watching” que tornou Bebê Rena um sucesso.
E a boa notícia é que as respostas sempre chegam. A série conta com um roteiro que trabalha muito bem cada um dos episódios, trazendo um alto nível de qualidade individualmente, além de uma história amarrada e que só cresce a cada capítulo.
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Com o andamento da narrativa, a série mostra não só o que levou ao grande conflito entre os dois irmãos, mas como a codependencia da dupla é danosa e autodestrutiva. Com essa temática, Richard Gadd entrega um retrato cru e realista sobre masculinidade na adolescência e na vida adulta, o que conversa muito bem com outras obras contemporâneas que tratam o tema.
Um detalhe curioso é que Gadd escreveu o primeiro episódio da série antes mesmo do lançamento de Bebê Rena, em 2019. De acordo com o ator e roteirista, o piloto passou por algumas alterações desde sua concepção, mas manteve a mesma essência. “Eu adoro um intervalo de quatro anos entre roteiros”, brincou o ator, em coletiva de imprensa com a participação do Minha Série.
“Quando você está imerso no projeto, às vezes não consegue enxergar nada ao seu redor. Eu voltei a trabalhar nele e fiquei surpreso com o quanto gostei, na verdade”, explicou o ator, que já previa Pela Metade como seu próximo grande projeto após Bebê Rena.
Uma série que exige estômago para ser assistida
Seguindo os passos de seu hit na Netflix, a série de Richard Gadd acerta em cheio ao abordar temas importantes, mas a qualidade técnica e narrativa vem como um murro no estômago. Assim como em Bebê Rena, Pela Metade não poupa nos detalhes sórdidos da vida de seus personagens.
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A adolescência de Niall e Ruben é marcada por abusos e violência, e isso é retratado de maneira brutal na minissérie, o que pode resultar em gatilhos no público. Sexo, bullying e espancamentos são retratados sem rodeios e com cenas gráficas, o que torna a produção indicada somente para adultos.
Sexo, bullying e espancamentos são retratados sem rodeios e com cenas gráficas, o que torna a produção indicada somente para adultos.
Na fase adulta dos personagens, o ciclo de abuso e violência também segue presente. Com o passar do tempo, a dupla de protagonistas fica ainda mais autodestrutiva enquanto lida com temas como sexualidade, paternidade e responsabilidade financeira.
Em seu retorno como roteirista, Richard Gadd mostra que segue mestre na arte de criar personagens com muitas camadas. Isso faz com que ninguém seja totalmente inocente nas atrocidades que rolam na narrativa, mas todo comportamento traz um grau de justificativa, mesmo que ele seja criminoso ou altamente questionável.
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Com esse canteiro adubado com crueldade, as atuações entregues na série florescem com primor. Além de Richard Gadd aparecer muito diferente, Jamie Bell entrega um trabalho excepcional e que entra para a lista de melhores performances de sua carreira.
A série também mostra o poder de fogo dos jovens atores Stuart Campbell e Mitchell Robertson, que entregam atuações convincentes e que vão te deixar com muita raiva de seus personagens. Quem também merece destaque é Neve McIntosh, que interpreta a mãe de Niall e garante uma atuação cheia de camadas e emoções ao lado da britânica Marianne McIvor.
Vale a pena assistir Pela Metade?
Se você gostou da série Bebê Rena e estava esperando para ver o que Richard Gadd tinha em sua manga como próxima obra, Pela Metade com certeza vai te agradar. Em um conto sobre violência e sexualidade, o ator e roteirista entrega uma obra ainda mais brutal que sua produção que viralizou na Netflix.
Além das atuações de ponta, a narrativa conta com ganchos perfeitos para engajar o público com o lançamento semanal, que acontecerá toda quinta-feira. Com seis capítulos de uma hora, a produção ainda traz um desenvolvimento que causa uma combinação intoxicante de raiva e curiosidade.
Para alcançar esse nível de excelência em atuação e narrativa, no entanto, a série Pela Metade utiliza muitas cenas gráficas e não poupa nos temas pesados, incluindo bullying, violência sexual e abuso, o que pode causar gatilhos para o público. Ou seja, se você está curioso para assistir, é recomendado tirar as crianças da sala, preparar o psicológico e marcar a terapia para o dia seguinte.











