Um novo rali do Ibovespa no início da última semana voltou a aproximar o principal índice da bolsa brasileira na marca inédita dos 200 mil pontos, com a retomada do fôlego dos ativos de risco em meio ao otimismo de que Estados Unidos e Irã possam chegar a um acordo para encerrar a guerra no Oriente Médio.
A performance tem encontrado suporte no fluxo de estrangeiros, que veem a América Latina como um porto seguro entre os mercados emergentes — e o Brasil como o mais bem posicionado na região.
De acordo com dados da B3, o saldo de capital externo está positivo em R$ 14,4 bilhões em abril até o dia 13, totalizando R$ 67,8 bilhões no ano.
Especialistas ouvidos pelo CNN Money disseram que após atingir os 200 mil pontos, o próximo alvo do Ibovespa está na casa dos 220 mil — a depender de fatores domésticos e internacionais.
Para Luan Aral, especialista da Genial Investimentos, do ponto de vista técnico e, principalmente, da entrada de fluxo de capital na bolsa, sobretudo estrangeiro, atingir a marca dos 200 mil pontos não é o final do movimento de alta.
Um dos motivos para a manutenção do gás está na expectativa de novos cortes na taxa de juros, atualmente em 14,75%, explica.
“No curto prazo, após esses 200 mil pontos, eu vejo um alvo técnico relevante na casa dos 210 mil e muito próximo dos 220 mil pontos, considerando algumas projeções de tendência e também de extensão de fluxo estrangeiro que ainda viram ao Brasil”.
Para o fim do ano, Aral trabalha com o cenário base próximo dos 220 mil pontos, com possibilidade de alta, caso o ciclo de juros acelere e a entrada de fluxo estrangeiro permaneça.
Já Fernando Benavenuto, especialista em investimentos da Anvex Capital, é mais otimista e analisa que, após superada a barreira dos 200 mil pontos, a faixa de 220 mil a 250 mil é o próximo nível de referência, caso o cenário seja propício.
Para ele, o movimento de alta vai ser sustentado por dois pilares, que precisam se consolidar simultaneamente: expansão consistente dos lucros corporativos e fechamento da curva longa de juros.
“Enquanto os títulos públicos indexados à inflação seguirem oferecendo retornos reais elevados, a competição entre renda fixa e renda variável permanece acirrada, o que limita naturalmente a expansão de múltiplos na bolsa. O upside existe, mas precisa ser construído, não apenas herdado por fluxo [estrangeiro]”, avalia.
Benavenuto acredita que o Ibovespa pode encerrar 2026 na faixa de 220 mil a 235 mil pontos, mas o segundo semestre será decisivo com o posicionamento fiscal do cenário eleitoral.
“Uma sinalização crível de equilíbrio das contas públicas teria capacidade de comprimir os juros longos e liberar um re-rating relevante da bolsa. Sem esse catalisador, o intervalo de 220 a 230 mil pontos já representa um resultado robusto e tecnicamente consistente com os fundamentos atuais de valuation.”
Apesar do cenário construtivo, o especialista levanta um ponto de atenção que pode trazer volatilidade ao mercado: a saída do capital estrangeiro da bolsa.
O rali recente do Ibovespa foi sustentado pelo fluxo estrangeiro por uma combinação de fatores que tornou o Brasil atrativo para o capital estrangeiro. No entanto, na avaliação de Benavenuto, o fluxo tem uma característica frágil.
“Ele chegou rápido, está concentrado em não-residentes e ainda não foi acompanhado pelo investidor institucional doméstico e pela pessoa física, o que torna o mercado mais suscetível a reversões abruptas diante de choques externos.”
Bolsa em nova fase
A diretora da Oz Câmbio, Raissa Florence, avalia que depois de atingir os 200 mil pontos, o Ibovespa vai entrar em uma fase mais seletiva, com altas mais comedidas.
“Daqui para frente o jogo é outro, o mercado fica um pouco mais seletivo e agora podemos começar a olhar para o Ibovespa com um crescimento mais moderado, mostrando que o índice pode buscar algo entre 210 e 220 mil pontos nos próximos meses, se o cenário continuar da forma como está.”
Segundo Florence, para a bolsa chegar aos 230 mil e 240 mil pontos é preciso um crescimento muito forte e acelerado, e para isso “é necessário um ambiente global mais favorável”.
“Depois dos 200 mil pontos, o Ibovespa deixa de ser um ‘trade de valuation’ e vai ser um trade mais de confiança. Ou seja, temos que olhar muito mais estruturalmente para o que sustenta o Ibovespa a partir de agora. É isso que vai ditar o nosso desempenho para os próximos ciclos”, analisa a especialista.
Aral, da Genial, avalia que alta do Ibovespa deve se expandir para ações de empresas menores, as small caps, após as blue chips capturaram boa parte da entrada de fluxo estrangeiro.
“Os gringos gostam muito de empresas parrudas, mas eu vejo um potencial muito grande em small caps, que ainda negociam com desconto bem relevante. Elas acabaram não acompanhando na mesma proporção essa alta recente do Ibovespa”, analisa.
Para o especialista, depois do rali inicial, o mercado tende a migrar o capital para empresas menores.
“É o que chamamos de ‘boca de jacaré’, o mercado acaba absorvendo as small caps. O investidor que olhar para essas ações pode ver um potencial maior. Já o que aportar nas Blue Chips pode estar chegando no final da festa.”











