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Veja pontos turísticos que foram 'engolidos' pelo comércio de Cuiabá




Veja pontos turísticos que foram ‘engolidos’ pelo comércio de Cuiabá
Mesmo com papel fundamental na formação da capital, pontos históricos como a Bica da Prainha, a Praça da Mandioca e a Primeira Igreja Presbiteriana de Cuiabá têm perdido visibilidade ao longo dos anos, ofuscados pelo avanço do comércio e pela ausência de políticas de preservação.
O g1 entrou em contato com a Prefeitura de Cuiabá e com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem.
Espalhados pelo Centro, esses espaços resistem ao tempo e ao esquecimento, guardando histórias que ajudam a compreender como a capital se formou e se transformou:
🚰 A Bica da Prainha, que já foi essencial para o abastecimento de água, também funcionava como ponto de encontro da população, mas hoje é vista apenas como a fachada de um estabelecimento comercial;
🪘A Praça da Mandioca, que no passado serviu como pelourinho, atravessou o tempo e se reinventou: tornou-se espaço de comércio e, hoje, resiste entre a preservação da memória cultural e o abandono de um centro que já foi pulsante.
⛪ A Primeira Igreja Presbiteriana de Cuiabá, por sua vez, marca a chegada do protestantismo e revela a relação entre fé e crescimento urbano. Hoje, vive cercada pelo movimento intenso de uma das ruas mais movimentadas do comércio cuiabano.
Mesmo cercados pelo comércio e pela pressa cotidiana, esses locais seguem como marcos da memória e da identidade cuiabana. É nesse contexto de transformação que o sociólogo e economista Mauricio Munhoz explicou ao g1 quando Cuiabá começou a se consolidar como uma cidade de comércio estruturado.
“A integração ao agronegócio e com a economia nacional nacional transformou muito a cidade. Ela deslocou a lógica de sociabilidade para uma lógica de mercado. E como consequência, espaços centrais, como a Praça Mandioca, a Bica da Prainha e a igreja, perderam o protagonismo. Não porque elas não têm importância, mas porque a capital, ela tem uma outra organização. E isso promove o apagamento da cultura, o apagamento simbólico desses locais”, comentou Mauricio.
Bica da Prainha
Conheça a Bica da Prainha, uma das principais fontes de água de Cuiabá
Construída no século XVIII, a Bica da Prainha foi uma das principais fontes de água de Cuiabá em um período sem abastecimento regular, chegando a abastecer cerca de 5 mil pessoas. A cidade tinha cerca de sete bicas, e essa era uma das mais importantes.
Segundo a historiadora Cristina Soares, o local reunia moradores diariamente, principalmente pela manhã, quando buscavam água para atividades básicas. Com o tempo, o espaço deixou de ser apenas funcional e se tornou ponto de encontro.
“As conversas variavam entre notícias da cidade, relações pessoais, comentários sobre o cotidiano e até questões políticas, o que nos permite compreender a bica também como um espaço de circulação de informações. É importante destacar que grande parte das pessoas que realizavam esse trabalho eram indivíduos escravizados”, explicou.
Além de garantir o abastecimento, a bica influenciou a ocupação da cidade, com ruas e moradias sendo organizadas ao redor desses pontos.
“Muitas vezes, as pessoas transitam pelo local sem reconhecer sua importância histórica. Esse distanciamento revela, em grande medida, um processo mais amplo de apagamento da memória urbana. […] A intensificação do fluxo de pessoas, as mudanças na ocupação dos espaços e a reorganização do comércio acabam alterando a forma como esses locais são percebidos”, afirmou.
Bica da Prainha funciona hoje como ornamentação de uma loja de cabelos, ao lado do comércio local.
Fernanda Deamo
Hoje, espremida entre avenidas movimentadas e o vai e vem apressado do comércio, a bica quase desaparece da paisagem urbana. Para muitos que passam, ela não é mais do que um detalhe, facilmente confundida com a fachada ornamentada de uma loja (veja imagens abaixo).
O g1 entrou em contato com o proprietário da loja, mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem.
Ali, onde antes havia significado, resta apenas um vestígio silencioso. A única identificação visível é o nome da construtora responsável pela intervenção no espaço. O nome da bica, sua história e a importância que um dia carregou não são mencionados.
A bica da Prainha fica na fachada de uma loja de cabelos. A única identificação visível é o nome da construtora responsável pela intervenção no espaço.
Fernanda Deamo
Praça da Mandioca
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A Praça da Mandioca reúne diferentes fases da história de Cuiabá. No período colonial, o local foi usado como espaço de punição, com a instalação de um pelourinho, e está ligado a um passado de violência, principalmente contra pessoas negras escravizadas.
Com o tempo, a área foi transformada em espaço de comércio e convivência, com feiras de alimentos, o que deu origem ao nome popular da praça. Para quem não conhece a história da praça, pode lembrar do local apenas como um ponto de encontro, um local para encontrar os amigos, mas a história do local é muito mais profunda.
A praça é um ponto cultural e símbolo de resistência e valorização da cultura negra na cidade. Segundo Cristina, a praça mostra como o espaço foi ressignificado ao longo do tempo.
“É necessário reconhecer a praça como um marco fundamental da história da cidade e, sobretudo, da história da população negra cuiabana. Valorizar esse espaço é, também, valorizar as trajetórias, os saberes e as experiências que foram historicamente silenciados”, reforçou a historiadora.
Antonieta Costa, representante da Casa das Pretas e moradora da região desde o nascimento, contou ao g1 que a história da comunidade cuiabana com o espaço se estende por décadas e tem se transformado ao longo do tempo. Ela lembra que o carinho pela praça vem desde a época de seus avós e se estende a diversos outros moradores, que viviam o local, que inclusive, abrigava, anos atrás, a tradicional feira marcou a vida dos moradores do entorno.
“Era uma feirinha pequena, mas muito significativa para as pessoas do Araés e do próprio centro-norte. Até gente da Lixeira e Baú vinham. O entorno da praça é muita família, tanto que hoje tem muitos idosos ainda morando aqui”, afirmou
Para Antonieta, a praça não é apenas um espaço, é um território de acolhimento e memória comunitária, que vem tendo a história e visibilidade ameaçadas pelo apagamento de tradições e atividades culturais tradicionais do local ao longo dos anos.
“O legal da praça é isso, é poder receber, nós estamos com um processo de apagamento, e não é só apagamento histórico, mas apagamento da visibilidade. Por exemplo, o próprio Carnaval, não teve uma atividade aqui, não teve uma banda para tocar, uma bandinha que tinha tinha a marchinha para as crianças”, contou.
Para ela, fortalecer um espaço é também reviver a história e garantir que ela seja mantida.
“Quando se fortalece um espaço, você também fortalece a história, você também reaviva a história, você também faz com que aqueles personagens, aquelas pessoas que viveram, que vivem ali, ganhem vida. Porque o que é histórico não pode não é um não é um resumo morto”, destacou.
Conheça a história da Praça da Mandioca
Primeira Igreja Presbiteriana de Cuiabá
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Localizada no Centro Histórico, a Primeira Igreja Presbiteriana de Cuiabá é tombada pelo Iphan e representa a diversidade religiosa da capital.
O g1 entrou em contato com a administração da Igreja e com o Iphan, mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem.
Maurício Munhoz explica que o surgimento da capital, está diretamente ligado à influência da Igreja Católica. A cidade se organizava ao redor da igreja matriz, que funcionava como centro urbano, social e até político. Era ali que se definiam valores, comportamentos e normas da sociedade.
“Já a partir do século XIX, com a chegada de missionários protestantes, principalmente presbiterianos, há uma mudança importante. Essas igrejas passam a incentivar a alfabetização, a leitura da Bíblia e a educação formal, além de valores como disciplina, organização e trabalho. Isso cria uma nova dinâmica social e cultural na cidade”, explicou o sociólogo.
Hoje, a Igreja funciona ao lado de um dos maiores centros comerciais da capital. Para Cristina Soares, além da importância religiosa, a igreja também revela a relação entre fé, modernização e crescimento urbano.
“O local, com sua arquitetura marcante e sua relevância histórica, permanece como um testemunho desse passado, mas sua visibilidade acaba reduzida diante da intensidade do comércio ao seu redor”, afirmou a historiadora.
Conheça a Primeira Igreja Presbiteriana de Cuiabá na Rua 13 de junho
Conheça os pontos da Bica da Prainha, a Praça da Mandioca e a Primeira Igreja Presbiteriana de Cuiabá
Fernanda Deamo



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