Em meio à onda do retorno do movimento nostálgico, em 2026, o cenário da maquiagem testemunha um afastamento das produções ultrapolidas e editadas que dominaram a última década para dar lugar a algo mais humano, tátil e direto. O retorno do “esfumado sexy” dos anos 1990 é a prova definitiva dessa transição: trata-se de uma estética que celebra o “imperfeito”, trazendo de volta o olhar dramático, misterioso e levemente borrado que definiu uma geração.
Diferente das técnicas que exigem horas de precisão e transições de cores milimétricas, a tendência noventista preza pela despretensão. Para entender como esse visual se adaptou aos novos tempos e por que ele se tornou o favorito das passarelas e do street style este ano, a reportagem ouviu Talita Bovi, mestre em Engenharia Biomédica, cosmetóloga e professora na Universidade de Taubaté (UNITAU). De acordo com a especialista, a força desse visual reside na sua capacidade de transmitir sensualidade sem esforço aparente.
“É aquele olho marcante, levemente borrado, com acabamento mais ‘cru’ e sensual”, define Talita. Ela explica que o segredo não está na perfeição, mas no efeito que a maquiagem gera no conjunto do rosto. “Normalmente é feito com sombras escuras, como preto, marrom e grafite, com o lápis bem esfumado rente aos cílios e um ar despretensioso. A ideia é parecer naturalmente sedutora, quase um efeito de ‘acordei assim'”, afirma.
O movimento por trás do resgate estético
A volta dessa tendência em 2026 não acontece por acaso. Ela acompanha um movimento cultural mais amplo de valorização da autenticidade. Após anos de filtros de redes sociais e maquiagens “instagramáveis” que exigiam camadas pesadas de produtos, o consumidor atual busca agilidade.
“A beleza é cíclica, e os anos 90 estão super em alta na moda e na maquiagem. Além disso, existe um movimento atual que valoriza looks mais simples, rápidos e com menos perfeição. O esfumado noventista encaixa perfeitamente nisso, pois traz atitude sem exigir uma técnica super elaborada”, explica a professora.
Esse resgate também bebe da fonte do “grunge”, mas com um polimento contemporâneo. O foco não é parecer descuidada, mas sim portar uma maquiagem que parece ter uma história, como se tivesse sido retocada ao longo do dia. É uma estética que sobrevive bem ao calor, ao movimento e às longas jornadas, o que justifica sua popularidade em um ano onde a vida urbana retomou seu ritmo mais frenético.
Cores, acabamentos e a transição para o moderno
Para quem deseja aderir ao visual, a paleta de cores é sóbria e clássica. O objetivo é criar profundidade e mistério, evitando elementos que tragam excesso de brilho, o que desviaria a atenção da proposta “crua” do look. “As cores que traduzem melhor essa tendência são o preto, marrom, café, grafite, ameixa e até um vinho mais fechado”, orienta Talita. Quanto aos acabamentos, a regra é clara: o opaco domina. “O acabamento deve ser opaco ou levemente acetinado. Deve-se evitar muito brilho ou glitter, pois o sexy dos anos 90 é mais fosco e misterioso”, completa.
Entretanto, usar uma maquiagem de trinta anos atrás sem nenhuma adaptação pode resultar em um visual datado. O segredo para trazer o esfumado dos anos 90 para 2026 está no equilíbrio com a pele.
“Para atualizar o look, deixe a pele mais leve e natural. O uso de produtos cremosos ou multifuncionais garante um efeito mais moderno”, sugere a especialista. Talita também recomenda trazer um leve glow nos pontos altos do rosto e combinar o olho pesado com sobrancelhas mais naturais e apenas penteadas, criando um contraste entre a força do olhar e o frescor do restante da face.
Erros comuns e a compensação no visual
Apesar de parecer simples, o esfumado sexy possui armadilhas que podem “pesar” a fisionomia se não forem evitadas. O erro mais frequente é a falta de controle sobre a intensidade do pigmento escuro. “Exagerar no preto sem esfumar bem é um erro comum. Outra falha é levar a sombra muito escura até a sobrancelha ou carregar demais na pele junto com o olho pesado”, adverte a especialista. A cosmetóloga explica que a falta de transição de cores pode deixar o visual “chapado”, perdendo a dimensão que o esfumado deve proporcionar.
Para não errar na dose, a chave é o que os maquiadores chamam de lei da compensação. Se os olhos são o centro das atenções, o restante do rosto deve recuar. “A chave é o equilíbrio: se o olho está intenso, vá de boca mais neutra, como um nude, rosado ou apenas um balm. O blush deve ser mais suave e muito bem esfumado, com uma iluminação discreta”, ensina a professora.
Para quem deseja um toque extra de modernidade em 2026, Talita sugere a aplicação de um gloss leve nos lábios, o que quebra a sobriedade do olho fosco e atualiza a produção instantaneamente.

